Indomável sonhadora (2012)

Por André Dick

Indomável sonhadora.Oscar 2013

Desde o início de Indomável sonhadora, percebe-se a tentativa de o diretor estreante Benh Zeitlin filmar uma história num cenário capaz de trazer realismo. Este lugar é chamado de a Banheira, uma ilha em Nova Orleans, onde moram Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) e seu pai, Wink (Dwight Henry), entre várias famílias. Zeitlin corre com sua câmera atrás da personagem, antecipando uma espécie de magia da infância, cercada pela necessidade de sonhar principalmente na volta da mãe. O pai alimenta a filha com frangos que vai matando um a um, enquanto ela dá de comer aos porcos e às galinhas, com as quais conversa por códigos, e descobre que as calotas polares podem derreter. Os dois também desbravam as águas, com um navio feito de pedaços de caminhão e barris de petróleo para sustentá-lo, para ver as refinarias ao longe, da cidade de onde estão afastados. Zeitlin, em poucos momentos, especifica do que tratará Indomável sonhadora (outro título nacional, a exemplo de A viagem para Cloud Atlas, pouco exitoso). No entanto, pelos fogos de artifício de determinado momento, iluminando a noite, não se esperava que ele justamente optasse num tratamento tão distante da situação retratada e dos personagens. Esse maravilhamento da menina diante do cenário no qual vive é apenas inicial: o filme não corresponde a ele.
Acontece uma tempestade devastadora e a Banheira fica submersa. A menina, assustada com o comportamento paterno, o acompanha na tentativa de encontrar alguns conhecidos e amigos. É então que este filme, cuja campanha o levou a ser candidato ao Oscar, sustentado por participações em festivais, sofre uma espécie de bloqueio: do que Zeitlin irá tratar? Da situação dos personagens, dos efeitos da tempestade, da menina sonhadora (segundo o título nacional)? Ele pretende, de forma consciente, tratar de todos esses elementos e, mesmo que não haja nada documental em sua obra, apenas aparente, pelo estilo de filmagem, o espectador acaba sendo atraído para lacunas inevitáveis. Em sua necessidade de expor e localizar a dificuldade, por meio da situação dos personagens, Indomável sonhadora parece não lhes conceder a voz necessária. Todos agem de modo apenas instintivo e visando à sobrevivência, a exemplo do momento em que o pai ensina a filha a destrinchar caranguejos sobre a mesa. No entanto, nesse realismo com todas as condições de ser explorado, Zeitlin não estabelece um vínculo entre os personagens e, se tenta estabelecer, acaba pendendo para maneirismos, junto com seu estilo no movimento de câmera, que, ao contrário de outros diretores, soa cansativo, apesar de a fotografia de Ben Richardson ter uma iluminação interessante.

Indomável sonhadora.Filme 2

As autoridades podem surgir para tentar resgatar os habitantes do lugar, mas o que eles desejam é se manter na Banheira, aparentando não demonstrar nenhum interesse pelos acontecimentos à sua volta, apenas com problemas relativos ao álcool, inevitavelmente um estereótipo. Todos parecem guiados por uma espécie de autossatisfação em pertencerem à Banheira, e não há nenhum diálogo sobre o real estado de coisas. Ao mesmo tempo, é como se o problema, sobretudo real, a que Zeitlin se refere por meio de sua história, e podemos entender como sendo aquele causado pelo Katrina, dependesse apenas da boa vontade das pessoas envolvidas e prejudicadas diretamente, pois a ajuda existe, e as ações dessa comunidade fossem identificadas como um modo estabelecido de vida, pois não adiantaria receber colaboração de quem antes ignorou seus problemas, designada pelo modo como Hank ensina à filha a pegar peixes ou coloca na mente dela que, em sua ausência, ela poderá até mesmo comer os animais de estimação.
Quaisquer sensações não são demonstradas por diálogos, pelo estreitamento humano; ao espectador é oferecida apenas a situação. Zeitlin, parecendo expor de modo visceral esta situação, acaba incorrendo justamente no contrário: ele torna a calamidade num simples encontro entre pessoas sem expectativa, certas de que sua fantasia maior e sua verdadeira origem, conscientemente à parte da sociedade, habita aquelas condições, pelas quais têm um afeto. Nesse ponto, a menina Hushpuppy, mesmo aparentando ser a personagem principal, torna-se coadjuvante de sua história, e seu pai, Wink, desejando salvá-la, querendo que ela tenha sentimentos de força, como um homem teria, dificilmente estabelece uma relação com ela ou com o espectador. Quando isso parece acontecer, o registro é demasiadamente cru não para emocionar, mas simplesmente estabelecer uma proximidade.

Indomável sonhadora

Zeitlin procura repor falhas claras na narrativa com pensamentos de Hushpuppy, nome que ecoa Humpty Dumpty, de Alice no país das maravilhas, principalmente sobre javalis gigantes que podem surgir para comer os mais fracos (em momentos nos quais Indomável sonhadora apresenta o que poderia ter sido), mas, inegavelmente, escolhe o caminho do isolamento, injustificado, pelo início, para guiá-la. Ao deixar sua personagem principal encoberta, trazendo ao centro da cena a figura do seu pai, Indomável sonhadora incorre em reflexões em off, muitas dela cansativas. É uma pena: Quvenzhané Wallis, a mais jovem a concorrer ao Oscar de melhor atriz, parece possuir talento para ter mais diálogos e não apenas, em grande parte, reflexões em off e olhares. Percebe-se, em muitos momentos, sua expressividade e mesmo consternação diante dos acontecimentos, além da magnífica tomada em seu rosto. Sua busca pela mãe é notável justamente por isso: é o elo humano estabelecido pela trama de Zeitlin. Determina-se a presença materna por meio tanto de lembranças (a referência ao crocodilo, e a memória que seu pai tem dela é interessante) quanto por meio de uma luz piscando em alto-mar. E a menina, inserida neste cosmos, acredita em sua futura lembrança, pois ela, acima de tudo, é irrepetível, e para isso desenha figuras numa caixa de papelão num momento de perigo, numa das boas cenas do filme, como se desenhasse figuras rupestres.
No entanto, para a narrativa proposta, isso acaba sendo pouco. O filme de Zeitlin é perpassado por uma melancolia angustiante e mal resolvida, e torna-se estranho não que o filme tenha um público apreciador, cujo olhar para a obra acolhe as ideias de modo distinto, e sim que seja apresentado como uma obra fantasiosa e alegre, com um “realismo mágico”. A impressão dada é a respeito do instinto de sobrevivência: ele só seria realmente forte se acompanhado pelo sonho. Trata-se de uma bela ideia. Mas Zeitlin, e talvez esteja aí sua ambiguidade em relação a Hushpuppy, esquece que é justamente não apenas o sonho, mas a consciência sobre o real estado de coisas, o indicativo para a saída, intensificando, consequentemente, a partir daí, qualquer fantasia, cuja importância não pode ficar simplesmente ligada a uma fuga da realidade. Pelo início promissor, a obra de Zeitlin, em seu final conformista, não retribui essa ideia da maneira mais interessante. Pelo contrário: a coragem parece ser bloquear a fantasia e continuar a ver a sociedade como uma representação voraz, que engoliria qualquer autencidade existencial e contato com a verdade da natureza.

Beasts of the Southern Wild, EUA, 2012 Diretor: Benh Zeitlin Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana, Amber Henry, Jonshel Alexander, Nicholas Clark, Joseph Brown, Henry D. Coleman, Kaliana Brower, Philip Lawrence, Hannah Holby, Jimmy Lee Moore, Jovan Hathaway, Kendra Harris, Roxanna Francis, Jay Oliver Produção: Michael Gottwald, Dan Janvey, Josh Penn Roteiro: Lucy Alibar, Benh Zeitlin Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Dan Romer, Benh Zeitlin Duração: 93 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Journeyman Pictures / Cinereach / Court 13 Pictures

2  estrelas

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

1 comentário

  1. Márcio Aurélio Gonçalves

     /  17 de agosto de 2015

    A banheira é o “mundinho” das pessoas que ali vivem, aliás, sem interesse pelo que acontece além daqueles limites. A menina, em suas reflexões, parece representar lampejos de consciência do “mundão”, de coisas que acontecem a grande distância física dali mas cujas consequências podem atingi-la. Quem comprou a caminhonete poderia imaginar que sua caçamba um dia se tornaria um barco improvisado? Ou que a utilização do produtos vendidos pela refinaria estejam contribuindo para a poluição daquele bioma e para a inundação da banheira à medida em que interferem no equilíbrio climático? Ou que o adoecimento do pai da protagonista possa ter alguma relação com tudo isso?

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: