O lado bom da vida (2012)

Por André Dick

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A comédia indicada ao Oscar de melhor filme este ano foi O lado bom da vida, baseado em romance de Mattew Quick. Na verdade, trata-se de uma comédia com elementos dramáticos, ao gosto da Academia de Hollywood, com um elenco de atores que mescla o anteriormente desacreditado Bradley Cooper (mais conhecido pela série Se beber, não case) e a promessa Jennifer Lawrence, além de um belo elenco de apoio.
Com um talento insuspeito em outros papéis, Cooper interpreta Pat Solitano Jr., um professor de História que, depois de flagrar a esposa com um colega de trabalho no chuveiro, é internado para tratamento. Depois de oito meses, diagnosticado com transtorno bipolar, e ainda sem estar totalmente bem, sua mãe, Dolores (Jacki Weaver), vai apanhá-lo, a fim de que consiga, aos poucos, voltar à sua vida. Mas Pat não consegue esquecer da esposa que o traiu, Nikki, enquanto seu pai (De Niro), só deseja assistir futebol norte-americano, obcecado pelo Philadelphia Eagles, e realizar apostas, além de ter manias supersticiosas com a mão no controle remoto.
Desde o momento inicial, quando a mãe reencontra Pat, o filme não esclarece totalmente esta ligação dele com os pais, mas o diretor David O. Russell, que escreveu e dirigiu filmes interessantes (como Três reis e O vencedor), consegue fazer o espectador adentrar na bipolaridade de Pat, acompanhando-o numa visita a pessoas do bairro, depois numa noite movimentada de Halloween e a seu terapeuta, o Dr. Patel (Anupam Kher), que deverá frequentar como parte da reabilitação, além de ter uma ordem de restrição em relação à esposa.

O lado bom da vida

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Quando ele conhece Tiffany (Lawrence), irmã de Veronica (Julia Stiles), casada com seu amigo Ronnie (John Ortiz), uma jovem que acabou de perder o marido, um policial, é como se pudesse também haver uma reabilitação amorosa. Cada momento é bem compassado, os diálogos correm num fluxo e Russell permite que nos aproximemos rapidamente dos personagens, por meio de uma conversa sobre comprimidos antidepressivos, o que oferece a eles não exatamente intimismo, mas provocação mútua. Se Pat é o sujeito que ficou perturbado – mas com atenuantes –, e para o filme isso não resulta em nenhum momento de grande melancolia, nem mesmo nos conflitos familiares ou na suposição de que o personagem foi deixado de lado em prol do irmão, Tiffany não pode ser também a mulher perfeita: ela precisa estar em conflito e pode ter tido problemas por depressão em razão da morte do marido. E sabemos que ela pode recuperá-lo do estado em que se encontra, no primeiro encontro. A química dá certo. Há um enlace interessante quando o par protagoniza diálogos mais extensos e Lawrence tem carisma, além de uma tristeza permanente no olhar, embora, no geral, seja ainda uma atriz sendo lapidada (é notável que ela seja apontada como favorita ao Oscar de atriz, à frente das excelentes Emmanuelle Riva e Jessica Chastain).
Basicamente, depois desse encontro, tudo se constrói a partir de uma carta que Pat deseja mandar à ex-esposa por meio de Tiffany, afinal existe a ordem de restrição. É, então, que o filme sofre uma espécie de ruptura, e o personagem Pat, que se desenhava de maneira irônica e mordaz, com sua bipolaridade, atenuada pelo visual e trilha de qualidade, que o filme transpira – e dificilmente um bairro pareceu tão vivo quanto aqui – acaba se inserindo naquele ideal do início, anti-Hemingway, ao ritmo de Cantando na chuva.
Por exemplo, a conturbada relação com o pai, com a boa interpretação de De Niro, revela, em meio a correrias, muita gente discutindo dentro da sala dos Solitano, e as coisas complicam quando o filho é tratado como uma espécie de amuleto para as vitórias do time. Em alguns momentos, parece haver mais agitação do que algo a dizer. Mas Russell, aqui, é ainda anti-Hemingway, embora seus personagens sejam, como o escritor, igualmente atraídos por uma briga: uma sequência mais ao final do filme criará um enlace com o clímax, em que surge uma série de exemplos baseados em jogos para que a loucura de Pat não tenha nada a ver com sua nova paixão.

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Surge daí uma tentativa de convencimento, de que tudo o que foge à conveniência é comum, e não é preciso ir muito longe para que percebamos que a estranheza é habitual a todos, mesmo para o terapeuta. No mesmo sentido, temos a presença de Danny (Chris Tucker), que aparece e desaparece sem que seja melhor elaborado, além de participar de um momento previsível, mas com uma comicidade agradável. Pat acaba sendo sempre perseguido por uma torrente de falas dos outros, como se ele não fosse a pessoa mais problemática (naquele bairro do filme, certamente ele não é). Russell enfatiza a necessidade de apresentá-lo como ameaçador aos outros vizinhos, como se ele, ao se revoltar, criasse uma espécie de sistema que não pode ser entendido por ninguém, apenas pela pessoa que pode se apaixonar também por sua bipolaridade. Ou melhor, como se todos no bairro fossem pessoas contrárias a Pat, que nunca tivessem tido nenhum problema, nem com eles, nem com sua família. No entanto, e isso transparece em muitos diálogos, a conveniência não é uma fuga simples à ruptura; pode ser apenas uma restrição.
É interessante perceber como O lado bom da vida tem elementos diferenciados guardados em sua premissa, e como se apresenta, ao contrário de muitas comédias, muito bem cuidado esteticamente, com uma fotografia que remete, em seu jogo de lâmpadas natalinos, a De olhos bem fechados, de Kubrick, e de câmera, a Scorsese. Tudo isso faz ainda mais com que se crie um ânimo quando Russell alça as atuações do elenco – e não há dúvida de que elas alcançam ótimos momentos – a uma escala capaz de sustentar uma história que desperte o interesse, mesmo recorrendo a alguns artifícios previsíveis, sem ser exatamente uma comédia original. Deve-se considerar, afinal, que Russell não desejava criar nenhuma ruptura com o gênero em que o filme se insere, e sim tornar uma história a princípio mais dramática com tons mais acessíveis para enfrentar a realidade, sem o objetivo de prescrever receituários científicos sobre um determinado problema, como costuma ser acusado, nem escondê-los. Mesmo porque Pat não depende apenas do seu alto astral e da própria autoajuda que se concede para visualizar a revitalização de seu pensamento. A vida dele recomeça justamente quando passa a ter consciência sobre as pessoas à sua volta. Depois disso, não há mais retorno. Nisso, O lado bom da vida consegue atrair o espectador para dentro de sua narrativa e do seu fundo prateado.

Silver Linings Playbook, EUA, 2012 Diretor: David O. Russell Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Julia Stiles, Chris Tucker, John Ortiz, Jacki Weaver, Montana Marks, Anupam Kher, Brea Bee Produção: Bruce Cohen, Donna Gigliott, Jonathan Gordon Roteiro: David O. Russell, baseado na obra de Matthew Quick Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 122 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Mirage Enterprises / The Weinstein Company

Cotação 4 estrelas

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