Lincoln (2012)

Por André Dick

Lincoln.Spielberg

Desde o ano passado, Spielberg vem tentando voltar à forma dos dramas que apresentou com talento nos anos 80 e nos anos 90, apenas repetida recentemente em Munique. No entanto, em Cavalo de guerra, era impedido por uma necessidade de soar emocionante, o que bloqueava qualquer tentativa de ser efetivo no seu objetivo de mostrar a amizade entre um menino e um cavalo que partia para a guerra. Ficou a sensação, também com As aventuras de Tintim, de que Spielberg é um diretor especialista mesmo em aventura e diversão, nunca descartável. Este ano, já com todas as críticas feitas, e mesmo com a indicação ao Oscar de melhor filme de Cavalo de guerra, Spielberg tenta apresentar sua faceta mais comedida. Nunca se viu, em toda sua trajetória, um filme tão sóbrio quanto Lincoln, e John Williams, que colocou sua orquestra em vigília em Cavalo de guerra, aqui tenta, no máximo, dar um acompanhamento sonoro muito discreto às imagens. É visível ser um projeto planejado por Spielberg durante muito tempo. Um cineasta com capacidade de selecionar e abandonar projetos, mas nunca esquecê-los totalmente, ele se baseia desta vez num roteiro de Tony Kushner e se envolve num tema muito difícil em sua filmografia: a política. Se em Soldado Ryan, há um pouco de discurso patriótico, e em A lista de Schindler uma compreensão histórica do Holocausto, a política podia ser vista como elemento mais significativo apenas no subestimado Munique.
Já na sequência inicial, com Lincoln perguntando a dois soldados negros sobre a trajetória deles, Spielberg anuncia que o presidente norte-americano pretende tanto ouvir quanto, principalmente, fazer-se ouvir. O que se passa em quase duas horas e meia seguintes é justamente isso. Na persona de Abraham Lincoln, Daniel Day-Lewis é um ator novamente extraordinário, embora, importante lembrar, aqui não alcance Joaquin Phoenix, em O mestre. Habituado a compor tipos específicos (ganhou o Oscar por Meu pé esquerdo e Sangue negro, tendo sido indicado, entre outros, pelo açougueiro de Gangues de Nova York), Day-Lewis consegue transformar o presidente republicano num homem ao mesmo tempo humano e falho, mas decidido a aprovar a 13ª emenda, que trata da abolição dos escravos, esclarecido já num diálogo inicial com sua esposa, Mary Todd (a não menos notável Sally Field). Nesse sentido, Spielberg coloca o personagem num momento decisivo para o destino dos Estados Unidos: a Guerra Civil Americana traz milhares de mortos e sabe-se que é preciso terminar com ela e evitar que os estados escravistas se sobressaiam com algum recurso.

Lincoln 5

As reuniões de gabinetes, com conselheiros e integrantes do governo, têm o intuito de conseguir votos da oposição no Congresso para que se concretize a aprovação da 13ª emenda. Obviamente, trata-se de uma prática de persuasão e de favores, e Spielberg consegue elaborar isso de maneira incisiva e que não coloca o ex-presidente norte-americano simplesmente com sua imagem mítica. Com a colaboração decisiva do secretário de estado William Seward (David Strathairn), e do deputado Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones, cuja interpretação, apesar de boa, não se equivale às de Cristoph Waltz e Phillip Seymour Hoffman), que representa o discurso pelo abolicionismo, Lincoln apresenta, em seus bastidores, também outro caminho. Do outro lado, os democratas são representados primeiramente por Fernando Wood (Lee Pace) e George H. Pendleton (Peter McRobbie), e revelam a faceta menos convicente de Lincoln: um certo maniqueísmo de que os vilões são maquiavélicos e despreparados para qualquer reviravolta.
Há alguns homens, não aproveitados na medida certa, que percorrem os balcões dos deputados atrás da aprovação e não podem ser descobertos (John Hawkes, Tim Blake Nelson e um quase irreconhecível James Spader), e, enquanto Lincoln tenta convencer sobre a importância da mudança histórica, temos seu filho, Robert (Joseph Gordon-Levitt), que pretende participar a todo custo da guerra, em conflito com a indiferença paterna, com suas atenções para o filho pequeno, Tad (Gulliver McGrath). Há, no relacionamento de Lincoln tanto com a mulher, conflituoso, em razão da morte de outro filho, por febre tifoide, quanto com Robert uma espécie de diálogo de Spielberg com outras obras suas.  No entanto, alguns filmes dele tratavam o tema com autoindulgência, como Hook – A volta do Capitão Gancho, Inteligência artificial e Guerra dos mundos. O que se sobressai, sob outro ponto de vista, é a necessidade de Lincoln demonstrar sua retórica. No momento em que dialoga com Taddheus, representante do governo a respeito da emenda, num porão, ele ingressa nas decisões políticas, mas em outros momentos ele quer se mostrar a todos. Insistentemente, quase não há emoção, e mesmo se tem uma espécie de frieza, o que não impede de Spielberg fazer uma aproximação do rosto do presidente, como se outro discurso a ser ouvido fosse se sobressair. A emoção, neste caso, acaba sendo substituída pelo maneirismo e cansando, mas sem prejudicar a atuação de Day-Lewis. Desta vez, Spielberg evita o que mostrava de modo excessivo em Cavalo de guerra, ao mesmo tempo em que é um cineasta notável quando quer, com suas características bem dosadas, como em A cor púrpura.

Lincoln.Daniel Day-Lewis.Sally Field

Spielberg

Lincoln também evita mostrar a situação dos escravos, concentrando-se nas relações travadas pelo presidente para que sua emenda fosse aprovada. Isso acaba conferindo, em parte, uma agilidade nas discussões, entretanto, pelo excesso de cenas dentro de salas, gabinetes e da Câmara dos deputados, sem espaço para as cenas de batalha (vistas de maneira distanciada), parece que a vida íntima ou política está distanciada da realidade, que, para Lincoln, ao que se parece, pelo menos nos quatro meses retratados no filme (o que não o torna um registro exatamente biográfico), se encerra na ópera. Também há cenas que poderiam ser expandidas e relacionamentos melhor trabalhados, como o dele e seu filho. Pelo contrário, Spielberg, aqui, acaba afastando-se completamente de qualquer tentativa, como se soubesse que, penetrando esse terreno, poderia voltar a seus excessos. Quando precisa conversar sobre a vontade de o filho se alistar na guerra, Lincoln é incapaz de um gesto que estende a outras pessoas. Ou quando conversa com Elizabeth Keckley (Gloria Reuben), que assessora a sua mulher, com sua pontada antirromântica e melancólica, não menos perdida do que aquela que mostra quando procura alguns deputados. Trata-se, particularmente, de um caminho interessante: para Spielberg, inserido em meio a reviravoltas históricas, querendo atenuá-las com piadas e casos, Lincoln também tinha necessidade de se afastar da realidade. Só isso explica o paradoxo de falar numa democracia que foge ao caos depois de tudo o precisou fazer e antes de passar por soldados mortos em batalha. Esse afastamento da realidade, porém, atinge o filme de Spielberg: em alguns momentos, os personagens são arquétipos e as situações (como algumas ocorridas na Câmara), simplesmente forçadas demais, como se alguns estivessem prontos para finalmente reconhecer as pretensões de Lincoln (“Sim, ele tinha razão!”), sob a contagem dos votos da primeira dama em seu caderno, o que soa, em certa medida, desnecessário.
Mesmo assim, e com sua excessiva frieza, Lincoln é uma visão histórica que merece respeito. Difícil imaginar outra produção com uma reconstituição de época tão detalhada, e isso vai do figurino, passando pela direção de arte, até a fotografia mais uma vez brilhante de seu habitual colaborador, Janusz Kaminski. O modo como ele apresenta a paleta de cores própria do filme, fazendo a cor da terra dialogar com a do céu e os uniformes dos personagens, assim como a luz vazando pelas janelas ou atravessando a cortina, remetendo ao trabalho de Vilmos Szigmond em O portal do paraíso, torna-se, em certa medida, um dos principais motivos do êxito dramático de Lincoln. Spielberg aproveita este elemento para tornar algumas imagens muito próximas de uma pintura histórica, como aquela em Lincoln e sua esposa estão conversando na sala, à noite, ou quando o seu filho caminha para se deparar com uma cena revoltante e o sol ilumina o prédio por trás dele. Grande parte dessa relevância histórica se deve, em igual intensidade, ao respeito evidente de Day-Lewis pelo personagem. Sabe-se que ele não havia aceitado inicialmente a proposta de participar do projeto por não se considerar à altura, tendo sido convencido por Spielberg. É realmente um acerto a sua presença e passa a ser difícil imaginar outro Lincoln como ele. A maneira como ele fala ou caminha, com o corpo um tanto curvado, com poucos gestos, empresta humanidade ao filme. A conversa que ele tem com outros dois telégrafos, além de nunca se repetir com o filho, também é primorosamente contida pela fala de Day-Lewis, mas ao mesmo tempo demonstra um deslocamento por acreditar numa espécie de mudança que escapa à sua presença e deve ser interpretada como histórica. Figuras como Lincoln acabam tendo uma espécie de sobrevida justamente pelo caminho que apontaram, nem que não sejam tão importantes, para os que estavam em torno, como a medida histórica que os cercava. Um homem incapaz de solucionar o que está em torno e precisa abraçar o filho olhando um livro infantil parece ser a premissa de Lincoln e seu sentido não apenas de grandiosidade, e para isso não precisa ser um mito, como também de recolhimento.

Lincoln, EUA, 2012 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, David Strathairn, Michael Stuhlbarg, Jackie Earle Haley, Gloria Reuben, Adam Driver, Jared Harris, James Spader, Lee Pace, Gulliver McGrath, Walton Goggins, John Hawkes, David Oyelowo, Hal Holbrook, Tim Blake Nelson, Peter McRobbie Produção: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy Roteiro: Tony Kushner, John Logan, Paul Webb, baseado na obra de Doris Kearns Goodwin Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 150 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Imagine Entertainment / Reliance Entertainment / Participant Media / The Kennedy/ Marshall Company / Twentieth Century Fox Film Corporation / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia

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1 comentário

  1. Concordo com muitas partes do texto, mas discordo totalmente em comparar dois trabalhos notáveis. Joaquin Phoenix foi extraordinário em O Mestre, mas Day-Lewis nos faz acreditar que ele realmente se tornou Lincoln. Não faz sentido compará-los. Abs.

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