Cloud Atlas (2012)

Por André Dick

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Depois de saírem as indicações ao Oscar esta semana, havia a certeza de que dois filmes foram injustiçados: Moonrise Kingdom e O hobbit. Agora, pode-se dizer que Cloud Atlas – traduzido, de forma estranha, para A viagem no Brasil – é o terceiro. Dirigido pelos irmãos Lana e Andy Wachowski, da trilogia Matrix e Speed Racer, e por Tom Tykwer, de Corra, Lola corra, Cloud Atlas é baseado num romance de David Mitchell e possui uma produção inegavelmente complexa para seu custo (pouco mais de 100 milhões de dólares). É lamentável que tenha obtido até agora uma bilheteria inferior aos gastos, o que se explica pela história realmente mais complexa, mas não pelo elenco e cuidado que vemos na tela. Não se trata exatamente de um épico, apesar de seu cuidado com cada momento histórico retratado e da sua duração (quase 3 horas), e sim de uma produção única que, pela modulação de histórias, vai desde o drama, passando por passagens de comédia, até a ficção científica, além de envolver ideias relacionadas à filosofia e à religiosidade. Tenho desconfiança do que se costuma chamar confuso. Há possibilidade, também, de não se entender nada de filmes como A árvore da vida, Duna e O portal do paraíso, quando o que se vê, com o mínimo de tentativa de compreensão, é perfeitamente inteligível.
Em alguns momentos da montagem de Cloud Atlas, tem-se a impressão que era o desejo que tinha Cristopher Nolan quando editou A origem. No entanto, se Nolan dava credibilidade demais ao discurso sobre os sonhos, os irmãos Lana e Andy Wachowski não tentam demonstrar nenhum discurso que explique o que estão mostrando; pelo contrário, deixam a critério do espectador ligar as pontas, de forma bastante sutil. Mesmo as mensagens que eles distribuem ao longo do filme, e que formam a base da narrativa, não são colocadas de forma reiterativa, a ponto de que identifiquemos nelas alguma explicação para a história. E, se a montagem demora um pouco a fazer sentido e, se em certos momentos algumas cenas não esclarecem umas às outras, temos ainda a sensação de que estamos diante de um experimento cinematográfico que pretende multiplicar vozes e não abafá-las, como no belo As horas, sobre a influência de Virginia Woolf na vida de alguns personagens.

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A história se distribui em seis narrativas, passadas em momentos diferentes. Uma delas ocorre em 1849, quando um jovem advogado, Adam Ewing (Jim Sturgess) precisa viajar para as ilhas Catham, no Pacífico Sul, e, quando vê um escravo ser chicoteado, acaba desmaiando. Daí em diante, mesmo quando parte de viagem em navio de volta para os Estados Unidos, ele fica aos cuidados de Goose (Tom Hanks), que na verdade quer roubar as peças com ouro que possui, inventando que ele possui uma moléstia, e faz amizade com o escravo, Autua (David Gyasi). O mesmo Tom Hanks reaparece como um gângster escritor em 2012. Financiado pelo editor endivididado Timothy Cavendish (Jim Broadment), é este, na verdade, o nome principal desse núcleo. Por não conseguir pagar o que deve, pede ajuda a seu irmão, Denholme (Hugh Grant), que o manda para um asilo, a fim de aprisioná-lo por erros passados, não sem antes ele tentar visitar um antigo amor, Ursula (Susan Sarandon). Broadment também interpreta Vyvyan Ayrs, em história passada em 1936, um músico conhecido, casado com Jocasta (Halle Berry), que emprega um jovem, Robert Frobisher (Ben Wishaw, excelente, como em 007 – Operação Skyfall), o qual acaba compondo a sinfonia “The Cloud Atlas Sextet” (se é o nome da sinfonia, poderiam ter mantido pelo menos o nome estrangeiro, a exemplo do que aconteceu com Moonrise Kingdom e Holy Motors, que nomeiam lugares) e é apaixonado por Rufus Sixsmith (James D’Arcy). No entanto, Vyvyan quer roubar essa sinfonia por considerá-la, num momento, um trabalho em conjunto, depois de um discurso (naquele momento, falso) sobre a união entre as pessoas. Em 1973, uma jornalista, Luisa Rey (Halle Berry), conhece Sixmith (D’Arcy), já um físico nuclear, que lhe passa informações sobre os planos de um empresário, Lloyd Hooks (novamente Grant), em utilizar um problema nuclear para faturar com petróleo. Ela conhece um cientista, Isaac (Hanks), e é perseguida por um capanga (Hugo Weaving), sendo amiga de um menino, futuro escritor. Numa Seul futurista, em 2144, uma menina pré-programada geneticamente, Sonmi-451 (Doona Bae), trabalha numa cadeia de fast food dirigida por Seer Rhee (Grant) e acaba sendo salva por alguém que pode pertencer a uma rebelião, Hae-Joo Chang (Jim Sturgess), contra um sistema totalitário. Ambos se apaixonam. E ela não sabe por que ele acredita que ela pode transformar a humanidade. Mais ainda no futuro, em 2321, estamos de volta a um mundo tribal, num Havaí pós-apocalíptico, em que Zachry (Hanks) se apaixona por Meronym (Berry), que pertence aos prescientes, um grupo de humanos que convive com a alta tecnologia, e pode salvar sua filha em determinada situação. Ela lhe pede para levá-la ao topo de uma montanha, onde poderá desvendar um segredo, numa estação que os ligará diretamente ao passado e ao futuro. Mas Zachry acredita, sobretudo, na líder da tribo, Abbess (novamente Sarandon).

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Parece confuso, e talvez quando se assista o filme também possa também parecer, mas é fato que Cloud Atlas oferece uma visão muito instigante sobre acontecimentos passados no passado, presente e futuro. Mesmo ao longo da metragem (mas sobretudo depois, refletindo sobre a narrativa que se viu), as histórias se fazem, ao mesmo tempo, independentes e interligadas. Uma coleção de cartas deixada por Sixmith pode ser o guia para um jovem escrever um livro, que poderá ser lido futuramente por um editor. Este editor pode ter tido a vontade de se apossar do sucesso de uma obra literária assim como o músico veterano deseja se aproveitar de um jovem talento, o qual manipula, no passado. Uma jornalista pode ser ajudada por um cientista na mesma medida em que, no futuro, o componente de uma tribo pode ser salvo pela mulher que acaba de conhecer. Uma menina no futuro, aprisionada, pode estar na mesma condição de um senhor que fica preso num asilo ou de um escravo, que está para ser morto pelo comandante do navio, ou mesmo de um jovem que não quer sua peça seja roubada e é chantageado a ficar numa mansão. Um casal correndo sobre uma ponte feita de metal, fugindo de lasers e naves, pode criar um paralelo com o escravo subindo no mastro para demonstrar um talento que pode mantê-lo a salvo. Um homem sendo envenenado pode criar um paralelo com uma menina no futuro precisando de ajuda médica. Salvar uma pessoa da morte pode criar, mais do que uma admiração e repripocidade, o amor e o confronto contra o preconceito, mas sem fugir ao embate entre os fracos e fortes. E Cloud Atlas consegue demonstrar, de maneira complexa e virtuosa, uma porção de sensações paralelas, que vão se complementando, como se uma ação dependesse da outra para acontecer, como se, de fato, houvesse a conexão trazida pelo marketing do filme, mas sem remeter a si mesmo, como nos processos infinitos de filmes puramente metalinguísticos.
Todas as histórias do filme vão acontecendo quase que simultaneamente, algumas com maior destaque, outras dando espaço mais a diálogos temporais, revelando uma montagem magistral de Alexander Berner e a trilha sonora (indicada ao Globo de Ouro) mais marcante do ano, ao lado da de Moonrise Kingdom, assinada por Tom Tykwer (um dos diretores), Reinhold Heil e Johnny Klimek. Além disso, o desenho de produção de Uli Hanisch e Hugh Bateup, aliado à fotografia notável de Frank Griebe e John Toll, cria um enlace entre todos os períodos do filme, com um trabalho semelhante de cores. Ou seja, o espectador atravessa séculos sem que o figurino ou os detalhes de produção se sobressaiam uns em relação aos outros, mantendo uma harmonia. “Não se pode quebrar a ordem das coisas”, diz um determinado personagem num momento-chave, mas Cloud Atlas mostra que, em todas as épocas e todas as pessoas, acabam de certo modo quebrando a ordem das coisas, assim como a própria montagem do filme corta as ações para criar um paralelismo entre elas.

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De todo o elenco, o nome de impressionante atuação é Jim Broadment, mas não se poderia negar que Tom Hanks tem seu melhor momento como ator desde Náufrago e que talvez seja sua participação mais efetiva, como ator que se desdobra, em sua trajetória. Fala-se que ele teve um papel muito importante para a finalização de Cloud Atlas, pois, em determinado momento, a distribuidora não se mostrava mais tão interessada. É visível a dedicação de Hanks ao projeto, e ele consegue trabalhar cada personagem, com a ajuda da valiosa maquiagem (vencedora no Critics Choice Awards, no qual o filme também foi indicado às categorias de figurino e de efeitos especiais), de maneira pessoal e, mesmo quando poderia, sem cair no farsesco ou na caricatura. Acontece, em menos intensidade, o mesmo com Hugo Weaving, um ator que me parece limitado, mas tem uma participação interessante, sobretudo no papel de uma médica que lembra a de Um estranho no ninho. Deve-se dizer que Hugh Grant também se desdobra: apesar dos cacoetes que traz de outros filmes, ele consegue emprestar a cada personagem que interpreta uma presença de cena.
No entanto, deve-se alertar para o progresso na maneira de filmar que dão os irmãos Lana e Andy Wachowski, depois do malsucedido Speed Racer e mesmo do segundo e do terceiro episódios de Matrix, inferiores à ficção que trouxe um novo fôlego aos anos 1990. Aqui, a filosofia direcionada a um futuro de reconciliação é mais discreta e efetiva. Sabemos que, por meio dos personagens de Zachry e Meronym, temos a conciliação da tecnologia com o passado da tribo, com suas divagações e histórias sob as estrelas, e ainda temos, por trás, toda uma filosofia religiosa que certamente interessaria a Pi, o personagem de Yann Martel. Há, também, a questão da vida após a morte; o entrelaçamento entre diferentes vidas. A maior referência recente, aqui, parece ser A árvore da vida, de Terrence Malick, que, mesmo com menos palavras e menos grandioso, no sentido dos custos, vai na mesma direção de Cloud Atlas. “A morte é uma porta”, uma personagem narra em certo momento – não é diferente da Sra. O’Brien (Jessica Chastain) abrindo uma porta para a despedida do filho, que caminha em direção a um deserto. Também é discurso implícito de A árvore da vida de que o ser humano tem sensações que se assemelham e que cada vida é como o início dos tempos. Em Cloud Atlas, todo o discurso de conciliação entre épocas diferentes esconde, com mais intensidade, uma espécie de fuga ao canibalismo e à queda dos dentes (também colhido por um copo numa mesa de bar), onde se pode também achar ouro nas areias dando para o Pacífico Sul. O jovem músico é chantageado pelo atendente do hotel e precisa entregar o colete dado pelo amor de sua vida. O editor deve dinheiro e precisa aprender a viver em comunidade. O empresário quer lucrar com um possível problema nuclear. E a política é atenuada em nome da descoberta do cinema e de um filme que cria laços com o passado, enquanto homens perseguem possíveis rebeldes atrás de blocos de concreto cinza. Em meio a tudo isso, de algum modo, todos são irrepetíveis (apesar de parecer repetir uma pretensa ordem) e se sustenta uma linha de premissas que podem governar a humanidade. O Havaí pós-apocalíptico existe após o que se chamou de “A Queda”. Pode ser, sem dúvida, uma queda que remete ao paraíso original, mas muito mais o anúncio de que pode haver uma possível renovação, já que ela está na cadeia genética que forma cada ser.
Diante disso, Cloud Atlas é uma obra de grande qualidade, com sua continuidade de planetas e vidas soltos no espaços, à procura ainda de uma possível conciliação. Para o espectador, resta ou não se conectar. Independente do resultado, vale certamente a experiência.

Cloud Atlas, EUA/ALE/Hong Kong/Cingapura, 2012 Diretor: Andy Wachowski, Tom Tykwer, Lana Wachowski Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent, James D’Arcy, Doona Bae Produção: Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: Frank Griebe, John Toll Trilha Sonora: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer Duração: 172 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Anarchos Productions / Media Asia Films / X-Filme Creative Pool / Asacine Produções / Five Drops / A Company Filmproduktionsgesellschaft

Cotação 5 estrelas

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36 Comentários

  1. Eloisa

     /  13 de janeiro de 2013

    Muito bom o seu texto! Assisti o filme hoje e gostei demais. Ler seu texto esclareceu algumas dúvidas e reforçou algumas idéias que eu tive. Parabéns!

    Responder
  2. Maravilhosa critica…excelente filme, um dos melhores de 2012 (apesar de chegar no BR em 2013). PARABÉNS!

    Responder
    • Caro Will,

      Muito obrigado por seu comentário! Também acho que é um dos melhores filmes de 2012, e desde já um dos preferidos deste ano.

      Um abraço
      André

      Responder
  3. damião rodrigues

     /  13 de janeiro de 2013

    Fantástico comentário. O mais preciso que li até o momento. Nele estão todas as qualidades do filme e suas deficiências também, mas, acima de tudo, uma ode a magia que o filme nos proporciona. Parabéns!!!

    Responder
    • Caro Damião,

      Obrigado por seu comentário generoso a respeito do texto! “Cloud Atlas” é um filme memorável e fico feliz que o texto tenha apresentado, em sua opinião, as suas qualidades. Volte sempre.

      Um abraço,
      André

      Responder
  4. Leandro Fiore de Oliveira

     /  13 de janeiro de 2013

    Melhor crítica que li para um filme brilhante. Parabéns e obrigado.

    Responder
  5. Denis R. Lopes

     /  14 de janeiro de 2013

    Se antes minha vontade era de assistir novamente ao filme para entender melhor algumas passagens, após ler sua crítica acho que rever esta obra-prima se tornou uma necessidade, pois ninguem melhor do que você conseguiu concatenar tudo que esta trama oferece. Claro que para cada espectador a viagem sera diferente é e justamente isto que torna o filme mágico. O que ficou mais evidente é que a cada quebra de paradigma que temos em nossas vidas, é como se estivessemos a frente de uma encruzilhada e o caminho escolhido ira nos guiar, e nos reeencontrar com as consequencias de nossos atos. O filme consegue juntar filosofia, espiritismo, fisíca quantica, sem explicitar nenhum destes temas, deixando que cada um faça o seu questionamento. Realmente espetacular, tanto o filme quanto o comentario!!

    Responder
    • Prezado Denis,

      Agradeço muito por seu comentário detalhado a respeito do que achou do filme Cloud Atlas e do texto. Também pretendo rever o filme para entender outros elementos que ele traz. Você alerta, por exemplo, que ele apresenta a quebra de paradigma, e o caminho escolhido levará à consequência de nossos atos. Concordo integralmente, e um exemplo específico, a meu ver, é uma cena em que o personagem de Tom Hanks no futuro se depara com a mesma situação pela qual passou um companheiro, tendo a chance, por causa de outro personagem, de o seu destino não ser o mesmo (o que pode se corresponder com outra história, em outro tempo). E o filme reúne todos esses campos e temas a que você se refere todos sem nenhum momento fazer com que o espectador tenha uma ideia já programada do que irá ver. Também concordo com seu comentário de que cada um terá uma experiência diferente. Acho que isso acontece sobretudo por causa da montagem. Ou seja, a sensação que cada um tem acaba sendo diferente, pois não temos a mesma visão sobre o espaço e tempo de histórias e personagens. Não lembro de ter visto um filme que se arrisque nisso, nem outros que contam histórias que se entrecruzam (apesar de muito mais definidas no gênero dramático e num determinado espaço), como Magnólia ou Short Cuts. Embora em alguns momentos possa parecer confuso, é realmente uma experiência diferente e nunca gratuita ou sem nenhum sentido.

      Um abraço,
      André

      Responder
  6. Ótimo texto!

    Só fiquei com uma dúvida, durante o filme inteiro imaginei que todos que tivessem o sinal da estrela eram o mesmo “espírito”, mas após pensar melhor, não seria válido, levando em conta, por exemplo, a jornalista e o editor, que estavam vivos no mesmo tempo, e ambos possuiam a marca.

    Responder
    • Prezado Diego,

      Agradeço por seu comentário! Não tenho certeza também sobre o significado da marca de nascença, e infelizmente não li o livro de David Mitchell. Mas, lendo um material a respeito do livro, o autor diz que os personagens principais, com exceção de um, que possuem a marca de nascença, são a reencarnação da mesma alma. A exceção possivelmente seja a de Timothy Cavendish, em 2012 (quase da mesma época de Luisa Rey, como você observa).

      Um abraço,
      André

      Responder
  7. Cara, apesar de não ter gostado tanto do filme, gostei muito do seu comentário, tem uma precisão milimétrica e honesta em relação a percepção do filme.

    Mas quero mencionar que o filme Árvore da Vida é um dos melhores filmes que assisti nos meus quase trinta anos de vida. Sempre gostei do Malick, desde o filme Days of Heaven, e acho sua filmografia muito preciosa.

    Sou fã e colecionador dos filmes do Matrix também, mas fiquei um tanto quanto frustrado com o filme Cloud Atlas: é uma montanha russa de percepções e filosofias, mas que não deixa nunca o ritmo baixar. É divertido procurar e tentar adivinhar quais os atores nos papéis representados, mas é, antes de tudo, diferenciado. Talvez não agrade o público em geral, mas é certeza de cinema de qualidade.

    Minha impressão é que os três cineastas embaralharam ainda mais o enredo por si só críptico do romance de 2004 do inglês David Mitchell, mas tenho que concordar que é engenhosa a tática de realçar o mistério “cármico” das seis histórias por meio da repetição de atores. Mas A Viagem padece de infantilismo temático. A trinca de diretores não resiste ao impulso de posar de gente boazinha (e não há nada pior do que vestais assim). Desfiam-se platitudes pretensamente humanistas, como a sugestão de que a benevolência cósmica contrabalançaria a suposta crueldade da evolução.

    Sem entrar no mérito das idéias permeadas de conceitos espíritas e carma, cosmovisão das quais eu não compactuo, o filme se mostra um binarismo maniqueísta, prometendo-nos o tempo todo – e falamos de 172 minutos que teimam em não acabar – uma “chave” para os mistérios da humanidade, sejam eles quais forem, mas apenas nos oferece lugares comuns.

    Mesmo com uma direção de arte impecável e uma trilha sonora muito detalhista, “A Viagem” é um filme cansativo e as histórias “colam-se” de modo aleatório, numa lógica que deriva mais de um processo de zapping do que uma reflexão consistente sobre a montagem. Toda a energia se investe nesse zapping – dentro de cada sequência tudo é muito plácido, numa tepidez de “linha branca”, convencional e sem rasgos, como um filme cronologicamente desarrumado.

    Na realidade, a intensa elucubração filsófico-literária de David Mitchell pode não ser, mesmo, material de cinema. Há momentos absolutamente espetaculares, um tanto líricos, no entanto o filme não tem a estrutura elegante do livro. O próprio Mitchell dizia que o conteúdo do livro era praticamente infilmável. Mesmo assim, não arrisco ao dizer que o filme tem uma qualidade incrível e é realmente espetacular a coesão da fotografia, composição, direção de arte e figurino. Com tamanha riqueza de detalhes, o filme merece ser explorado e comentado.

    Um abraço!
    André

    Responder
    • Caro André,

      Agradeço por seu comentário e pelo desenvolvimento do que considera características do filme. Concordo com você em parte, sobretudo quando diz que tem cuidados de produção, mas acredito que os diretores tiveram um resultado melhor aqui do que nas continuações de Matrix e, alinhados com o Tom Tykwer, conseguiram realmente fazer um filme único. A recepção dada à montagem do filme pode ser bastante diferente: há quem goste dessas mudanças temporais, outros que avaliam atrapalhar o andamento, o que entendo ter sido sua percepção. No meu caso, não considerei o filme em nenhum momento cansativo e, mesmo que a montagem soasse abrupta e confusa em determinados momentos, acredito que é parte da finalidade. Também não acredito que os diretores queiram dar uma chave para o entendimento da humanidade, assim como Malick não quis, em seu A árvore da vida (também aprecio muito este e Dias de paraíso e acho que o montador, Berner, se inspirou bastante nesses filmes, sobretudo no primeiro). O fato de se apresentar uma determinada visão, nesse caso, não implica em querer que o espectador acredite necessariamente nela.
      Pretendo ler o romance de David Mitchell, em que ele se baseia, para tirar mais conclusões das ideias filosóficas e religiosas que ele apresenta. De maneira geral, mesmo não tendo a mesma visão religiosa do filme (e talvez do livro), costumo interpretar esses elementos como parte da humanidade e de sua crença em elementos que possam ligar o cotidiano a algo mais abrangente e fazer de cada um uma espécie de parte de uma cadeia genética universal. Nesse sentido, também não acredito que o filme seja maniqueísta. O fato de Hugo Weaving e Hugh Grant interpretarem sempre vilões – detalhe não necessariamente parte de sua visão –, por exemplo, não significa, a meu ver, por exemplo, espíritos que não evoluem, mas para demarcar um determinado tipo atemporal que pretende impedir, no caso de Cloud Atlas, a liberdade alheia.
      E acredito que, se o livro era infilmável, já não o é mais, e, mesmo com suas mudanças narrativas, ainda assim, acredito que concordamos no básico, por sua frase final. Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  8. Silva

     /  17 de janeiro de 2013

    Me desculpe os intelectuais, mas achei o filme confuso demais, cheio de misticismo. Nada a me acrescentar, de verdade! Amo filmes e assisto até final. O famoso: “vou ver como vai acabar isso”… Esse foi o meu pensamento ao ver a “A viagem”.
    Bem, não indico.

    Responder
    • Caro/a Silva,

      Seu comentário, pelo que entendo, indica que “Cloud Atlas” só poderia ser entendido por “intelectuais”, mas creio que isso está longe da realidade. Filmes de qualidade rara, como este, são indicados a todo público.

      Responder
  9. André, muito grata pelo teu comentário. Consegui amarrar algumas pontas que haviam ficado soltas. O filme é muito bom! Abração.

    Responder
  10. Fábio Pinho

     /  18 de janeiro de 2013

    Vi a primeira vez, gostei muito… Durante 1h após o término do filme discuti com um amigo sobre todas as conecções buscando um maior entendimento. Consegui ligar 80% dos pontos. Vi uma segunda, gostei mais ainda, pois nessa, como sabia a história, foquei nos detalhes, nas dicas deixadas, consegui interpretar todo o resto. PERFEITO. O seu texto é exatamente o que eu enterpretei. Tem algumas coisinhas a mais a acrescentar, mas entendo que você nao fez justamente para os que nao viram terem a vontade de ver.

    Bem, recomendo.

    Responder
    • Prezado Fábio,

      agradeço por seu comentário a respeito do texto. Ainda pretendo rever o filme para também tentar solucionar algumas dúvidas. Alguns detalhes não coloquei no texto, para não estragar a surpresa, como comenta. Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  11. O filme é sensacional, incrível e inesperado ao que pensamos que iremos assistir. Um dos melhores que já vi!
    Gosto sempre dos filmes que me forçam a pensar, apesar que reconheço que atualmente as pessoas e a indústria do cinema prefiram os temas rasos, fáceis de compreender e, consequentemente, comercialmente mais valiosos e lucrativos, tanto o é que a bilheteria está abaixo do investimento feito e que o filme, para mim, obra-prima, não recebeu sequer uma indicação ao Oscar, um absurdo sem tamanho.
    Pena que a academia e o público em geral foram no mínimo injustos, para não dizer insensíveis, e não consigam assimilar e valorizar um filme tão marcante e diferenciado quanto este.
    Realmente a sétima arte está ficando cada vez mais pobre!

    Abs.

    Raul

    Responder
    • Prezado Raul,

      concordo com todas suas observações a respeito de “Cloud Atlas”. Aguardava o filme desde o ano passado e acredito que ele apresenta tudo o que promete. É uma pena, como aponta, que a indústria do cinema esteja preferindo alguns filmes com temas mais rasos. Há alguns indicados ao Oscar excessivamente superestimados, tomando o lugar de filmes melhores, mesmo nas categorias técnicas, em que “Cloud Atlas” deveria ser um dos principais nomes. A explicação talvez esteja no fato de ser um filme financiado fora de Hollywood. Uma curiosidade é um texto da revista Slant, antes dos indicados ao Oscar, apontando em que categorias ele poderia ser lembrado.

      http://www.slantmagazine.com/house/2012/10/oscar-prospects-cloud-atlas/

      De qualquer maneira, creio que é um filme que será cada vez mais valorizado.
      Obrigado pelo comentário e volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder
  12. elton

     /  21 de janeiro de 2013

    Fraco, o mais do mesmo
    futuro caótico (9 entre 10 filmes falam a mesma besteira – é só analisar a história e perceber que o mundo melhora e não ao contrário)
    reencarnação (tosco demais,as marquinhas, estamos em 2013 a ainda insistem em certas coisas)
    maquiagem ( tem um dos personagens que parece um boneco)
    Resumindo, apenas 3 histórias já estava de bom tamanho, muito chato cansativo, é uma decepção

    Responder
    • ” é só analisar a história e perceber que o mundo melhora e não ao contrário”

      Quanto à história, não acho que a Idade Média tenha sido melhor do que a Antiguidade Clássica, nem que as condiçoes proletárias da Revolução Industrial tenham sido melhores do que a servidão feudal, sem falar de tantos males que o Capitalismo -já é até clichê- e até o Socialismo trouxeram na Idade Contemporânea. O mundo pode até parecer melhor, mas no ponto de vista de poucos.

      Responder
  13. Felipe

     /  21 de janeiro de 2013

    Um maravilhoso texto para um filme grandioso, na minha opinião um dos melhores de 2012. Parabéns pelo blog, uma pena eu não ter conhecido antes, mas agora tenho boas leituras para as férias. Parabéns André!

    Responder
    • Prezado Felipe,

      agradeço muito por seu comentário, tanto sobre o texto quanto sobre o blog! E também agradeço por suas leituras. Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  14. A crítica foi bem construída, ainda que o filme seja desnecessariamente longo, transponha o livro ao pé da letra e tenha efeitos mesquinhos (a cidade no futuro é plástica, a cena da conversa entre Halle Berry e Hanks, que é mostrada numa foto acima, evidencia um fundo obviamente falso, assim como o efeito da nave branca do futuro pós Queda).

    Responder
    • Prezado Mujaf,

      Agradeço por seu comentário. Particularmente, não acho o filme longo (gostaria que pelo menos três das histórias tivessem mais tempo), mas não cheguei a ler o livro como você. Apenas acho, pelos comentários que comparam livro e filme, que este não adapta ao pé da letra a história, mudando um pouco a sua sequência. No entanto, não posso realmente dar minha opinião sobre isso. Em relação à direção de arte, considero um trabalho brilhante, em todas as épocas, mas há uma certa influência de Speed Racer em alguns momentos, sobretudo na lanchonete em que trabalha Sonmi-451, o que confere uma paisagem um tanto artificial algumas vezes. Pensando neste detalhe, acho que Prometheus (a que as cenas da montanha de Cloud Atlas remetem), tem um visual que transpira mais realismo. Mas considero que isso realmente não atrapalha Cloud Atlas.

      Obrigado pela visite e volte sempre.

      Um abraço,
      André

      Responder
  15. Resenha mais que maravilhosa! Traduz tdo o que eu senti/entendi do filme e mais um pouco! Parabéns!
    Só uma pergunta, eu fiquei muito interessado em ler o livro, mas não consegui achar uma versão traduzida e ele está classificado como um dos dez livros mais difíceis de se traduzir! Eu com meu inglês mediano não sei se seria capaz de lê-lo, vc sabe algo a respeito de tradução ?

    Responder
  16. rodrigowski

     /  27 de fevereiro de 2013

    Excelente crítica para um filme sensacional. Meus parabéns!

    Responder
  17. Mauricio Venancio

     /  21 de maio de 2013

    Quando eu era garoto, me divertia jogando um game chamado ”Adventure” no estinto console Atari. Nunca entendi direito o sentido desse game… mas ele me intrigava, e era nesses momentos de confusão mental que eu mais me divertia. Assim me senti assistindo Cloud Atlas, ao terminar já não havia tantas dúvidas, mas sim muitos tópicos para repensar. Ótima resenha, parabéns!

    Responder
    • Prezado Mauricio,

      Agradeço por seu generoso comentário. Também acho que os irmãos Wachowski, desde Speed Racer, tentam dialogar diretamente, mais do que com a linguagem dos quadrinhos, com a ação de alguns games (com direção de arte fabulosa), e, ainda, remetendo a seu comentário, com a própria infância e a lembrança das histórias, que vão se encaixando como uma espécie de quebra-cabeça. Cloud Atlas parece realmente, com sua disposição de cenas, trazer essas entradas e saídas de ambientes, para que possamos remontar ao mesmo tempo ou depois inúmeras situações. Cada vez mais aprecio o filme.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  18. Gostei desse filme, meio complicado, mas é o que faz dele interessante. Também concordo que não deveria ter alterado o nome, pois pra mim quando leio “A Viagem” só vem na cabeça a novela brasileira, he, he, he… Seu texto ajudou em alguns pontos que não entendi. Penso em comentar sobre o filme em meu blog, mas antes vou rever uma ou duas vezes pra isso.

    Abraços!

    Responder
    • André Dick

       /  10 de setembro de 2014

      Prezado André,

      Agradeço por seu comentário. Realmente esperava que houvesse uma mudança do título pelo menos no mercado de vídeo, mas preferiu se manter “A viagem”, que serve para qualquer filme de estrada, por exemplo. O título original é ótimo, mas a tradução não corresponde à sua qualidade. E o filme realmente pode ser melhor apreciado depois de duas sessões, mas quando o vi pela terceira vez ele fluiu ainda melhor. Grande filme.
      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder

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