Jovens adultos (2011)

Por André Dick

Jovens adultos 5

A parceria de Jason Reitman com Diablo Cody iniciada em Juno – um filme que não corresponde à sua repecussão – ganhou um segundo capítulo neste filme menos comentado, que passou rapidamente por nossos cinemas, mas é dramaticamente (com elementos de humor) muito superior: Jovens adultos. Não era de se esperar muito de uma história relativamente limitada, sobre uma escritora de livros juvenis (que publica numa coleção), Mavis Gary (Charlize Theron). Quando passa por um período sem conseguir criar e de rotina de troca de homens em sua vida, ela recebe a mensagem de um ex-namorado, que acabou de ter uma filha. Morando em Minneapolis, ela decide voltar para Mercury, Minnesota, sua cidadezinha de origem, a fim de reencontrá-lo. O antigo namorado se chama Buddy Slade (Patrick Wilson) e, além de ser pai, está muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser). Por sua vez, Mavis anda com um cachorrinho em sua pequena bolsa e destrata a todos que encontra à sua frente, pois se considera, acima de tudo, uma escritora best-seller.
No entanto, na coleção em que ela escreve, seu nome aparece quase num rodapé e ela, na verdade, está querendo um acerto de contas com o seu passado. O que poderia ser uma trama juvenil ou simplesmente bem-humorada transforma-se num drama agridoce, por meio do talento de Reitman em lidar com personagens fora do contexto, o que já mostrou tanto em Juno, de forma menos exemplar, quanto no interessante Obrigado por fumar (em que imperava o politicamente incorreto) e no excelente Amor sem escalas, seu melhor filme ao lado deste até o momento. Reitman está interessado numa espécie de retrato do americano que pensa ter obtido um sucesso descomunal quando precisa voltar às suas raízes para entender que não atingiu exatamente o que queria.

Jovens adultos 2

Jovens adultos 4

É um movimento também trazido por Alexander Payne em filmes como Sideways. Neste, havia o escritor Miles Raymond (Paul Giamatti), que não conseguia publicar o que considerava sua obra joyciana e, não conseguindo, sai numa jornada por vinícolas com seu amigo que vai se casar. Ao contrário de Mavis, Miles era comedido de inseguro. O que não significa que Mavis também não o seja. Ao chegar na cidade, ela vai para um pub, onde encontra Matt Freehauf (Patton Oswalt), que foi agredido nos tempos de colégio porque ele seria gay – deixando-o com cicatrizes incuráveis e muletas. Sabendo do objetivo de Mavis de terminar com o casamento de Buddy, Matt se coloca como intermediário, mas apenas para mostrar seu entendimento da questão. Incapacitada de se resolver como adulta – a personagem central não consegue visitar os próprios pais na visita à cidadezinha –, ela encontra em Matt um diálogo baseado em bebidas e monstros pintados no quarto. É como se ele representasse o que ela não consegue ser: uma pessoa que conseguiu, enfim, se despir do posto de rainha da escola para, de fato, tornar-se um sucesso como autora – com o nome escondido – de livros infantojuvenis. Mas como se ela não consegue entender as mais simples relações?
Jovens adultos vai de encontros em bares a hotéis com garrafas de Coca-Cola jogadas no colchão, contudo é muito mais do que um pretenso aroma de cigarros ou cheiro de esmalte que a personagem usa a determinada altura, em determinados tons. Mavis, na verdade, parece ser o retrato da mulher que se aproxima dos 40 anos estando presa à juventude e às conquistas da escola, mas pode esconder mais do que isso. A personagem que Charlize interpreta com vigor – sendo seu melhor papel até hoje, pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz – tem uma instabilidade muito bem trabalhada ao longo do filme, desde o momento em que acorda (com o pijama da Hello Kitty), liga a TV, para se abastecer um pouco de cultura fútil, até o momento em que busca alguma comida fast food para ouvir possíveis conversas capazes de inspirá-la a escrever. Quando pretende reconquistar o namorado, passa por um salão de beleza, faz aplique nos cabelos e tenta recuperar o ar juvenil, entretanto apenas ela acredita que não está mais velha e estranha; para ela, todos os outros estão estendendo o tapete como se ela ainda fosse a rainha do colégio, e ainda a invejam por isso, já que conseguiu sair e fazer sucesso na cidade grande.

Jovens adultos 3

Não parece sem sentido que Reitman a coloque sempre num ponto de vista juvenil, como as fitas cassete que carrega, remetendo também a uma fuga para a adolescência eterna. Reitman consegue mesclar a faceta patética da sua personagem com uma espécie de ressentimento que ela deixa claro, como na apresentação da banda da mulher do antigo namorado,  a quem tenta convencer a beijá-la mais tarde, e na meia hora final, certamente num tour de fource de Charlize, capaz, ao mesmo tempo, de fazer o espectador rever o seu comportamento ao longo do filme e, mesmo diante de sua incapacidade para o enfrentamento, tentar vê-la numa condição melhor, o que não é, porém, o objetivo de Reitman, pois o filme está longe de ser previsível.
Não se trata de nenhum retrato superficial de uma determinada idade, mas um retrato bastante considerável da natureza de Mavis, capaz de se ampliar em boas doses de ironia e vontade de esquecer o que aconteceu. Estamos diante de vários temas, mas o mais subentendido é, sem dúvida, o alcoolismo, e a maneira como a personagem precisa enfrentá-lo para tentar entender a cidade de onde veio. Trata-se de uma personagem que adentra uma loja de roupas para bebê com a mesma falta de vigor com que ergue a garrafa de Coca-Cola quando acorda com os cabelos desgrenhados, mas, ao tentar mudar diante do espelho, imagina recuperar o que perdeu. Trata-se, portanto, de um papel que deve ser desempenhado de dentro para fora, e as expressões que Theron coleciona ao longo da narrativa, assim como sua inesperada amizade com Matt, cada um tentando recuar no tempo para tentar fazer com que caia no esquecimento, transformam o que poderia ser um roteiro superficial em algo mais humano e próximo do verdadeiro afeto.

Young Adult, EUA, 2011 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 94 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Denver and Delilah Productions / Indian Paintbrush / Mandate Pictures / Mr. Mudd / Right of Way Films

Cotação 4 estrelas

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: