Holy Motors (2012)

Por André Dick

Holy Motors

A obsessão de David Lynch, em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, era definir Hollywood, mas ele sempre conseguiu resguardar seus personagens à margem de uma obsessão completa pela cinematografia, apesar de, algumas vezes, ser autorreferente. Lynch ganha um diálogo, agora, no cineasta Leos Carax, e Oscar  – nome simbólico (assim como a primeira palavra do título do filme) –, personagem central de Holy Motors, é uma espécie de parente de Nikki Grace (a excelente Laura Dern), de Império dos sonhos, e de Rita e Betty, de Cidade dos sonhos. A diferença é que Oscar representa muitos personagens, e não está, a princípio, dentro de um sonho, embora os lugares por onde ele passe lembrem um. Entretanto, não só Carax se beneficia de Lynch. O que seria a chegada do personagem de Val Kilmer à cidadezinha onde vai autografar seu livro e é envolvido por um mistério, em Twixt, o mais recente Coppola, senão uma reprodução da chegada de Sam Stanley e Chester Desmond a Deer Meadows em Twin Peaks – Fire walk with me? As semelhanças são claras – e Holy Motors, particularmente, fascina pelas imagens (uma fotografia primorosa e uma ambientação climática especial) e pela atuação irrepreensível de Denis Lavant do que pelo que tem a dizer, mesmo que seja uma síntese daquilo que, na França, Lacan legou para a psicologia (pela tríade Real-Simbólico-Imaginário) e Rimbaud (“Je est un autre”) para a poesia.
Desde o seu início, em que o próprio Carax atravessa um parede que lembra uma floresta, depois de abri-la com um dedo, para surgir num cinema, em que um cão caminha em meio ao corredor, com os espectadores congelados na tela ao som de gaivotas do mar, temos um ritmo que pende para o mistério e o enigma (imaginamos, em outro cenário, Nikki entrando num cinema ou chegando à porta dos coelhos em frente à televisão). Mais ainda quando somos apresentados a Oscar, um homem que viaja em sua limusine por Paris e se passa por vários personagens. Nesse sentido, ele é um ser múltiplo, interpretando, ao mesmo tempo, uma senhora que pede esmola na rua, um ninja para jogos eletrônicos, um mendigo – “Sr. Merde” – que devora flores no cemitério (na melhor sequência, ainda que grotesca), entre outros. Ele representa o indivíduo moderno e, dentro de sua limusine, se não é Packer de Pattinson em Cosmopolis, aproxima-se pela frieza e necessidade de ilusão, recebendo, ao longo do dia, dossiês referentes aos personagens que deve interpretar, sempre com a ajuda da motorista, Céline (Edith Scob). E a cada vez que ele volta para o carro e abre um novo dossiê há teclas de piano que remetem a De olhos bem fechados, de Kubrick, em que Cruise viaja pela noite para chegar a uma festa secreta numa mansão.

Holy Motors 6

Carax possui mais sentido para a imagem gráfica do que Cronenberg – os corpos repletos de luzes no escuro, servindo de modelos para a conversão virtual e simulando uma relação sexual, ganham intensidade na tela grande –, mas se Holy Motors tem uma especialidade é sua emulação de outros registros. Isto também se localiza na necessidade de que ele não tem onde ficar, precisa estar em movimento, pois é a obsessão de Carax. Contudo, se Lynch vê nisso uma necessidade crítica e mesmo emoção, sobretudo em Cidade dos sonhos, Carax vê com um potencial para imagens e movimentos que nunca se reencontram, depois de se dispersarem. Nesse sentido, o personagem não se conecta com nada: ele passa a ser apenas um símbolo de si mesmo, da interpretação e do diretor. Há momentos em que ele interpreta personagens – como o do mendigo e do tio que está morrendo –, entretanto logo existe uma quebra, tentando evidenciar que não devemos ir por aí, porque já não seria o cinema autorreferencial e não existiria a ideia de que ele é, afinal, um outro (e estranho), e assim deve permanecer. No entanto, não há em Holy Motors um mistério a ser solucionado, pois não se pode saber saber por que o personagem tem a missão de interpretar diferentes personagens, à medida que o filme pertence apenas ao diretor, ou seja, passa a ser uma ilusão que o espectador faça parte direta deste jogo. O espectador apenas parece fazer parte do jogo, mas não faz – e talvez seja o maior mistério do filme.
Seu interesse é colocar o cinema como representação da multiplicidade humana e ainda assim a impressão que temos é que ele se volta para si mesmo como ponto desse encontro. Paradoxalmente, o expressivo Lavant interpreta inúmeros personagens e, portanto, deveria lidar com inúmeros sentimentos, mas o que se sente, ao longo do filme, é que o cineasta não deseja articular nenhuma aproximação (não lembro, recentemente, de outro filme tão frio). Imagina-se Carax pensando: isso representa exatamente o ser humano. Pode ser aceitável, o que não significa que funcione em Holy Motors.
É suficiente, para Carax, o personagem dizer, quando perguntado por que continua a desempenhar este trabalho – de se passar por vários personagens, incomodado com o fato de que agora as câmeras são menores, o que pode ser um protesto do próprio Carax, que não queria rodar em digital, porém foi obrigado pelo estúdio –, que o importante é a “beleza do gesto”. Para o poeta inglês Hopkins, a “beleza é difícil”, e, excetuando raros momentos de fotografia e sonoplastia (o intervalo é especialmente divertido, com uma banda fabulosa), não conseguimos atingi-la em seu cerne na obra de Carax, pois ele usa as imagens e os personagens como artifícios para relatar sua visão do cinema, e não oferece ao espectador, na medida que deveria, o espaço para que tenhamos a nossa. Afinal, ele está falando de si próprio: ele é o homem do início do filme, que abre uma parede que lembra uma floresta com o dedo.
Cada fala de Holy Motors – e são poucas – parece ter o desejo de dizer tudo, porém, como Carax abrindo a parede, depende do espectador compartilhar ou não. Do quase silêncio se passa a a alguns diálogos mais extensos, e o filme não se molda a cada uma dessas sequências: é como se estivéssemos sendo colocados de frente a uma nova experiência a cada dez, quinze minutos. Isso poderia ser emocionante e surpreendente (e por tudo que se falava e se fala de Holy Motors eu também imaginava ser), no entanto, em Carax, reitera-se, é uma autorreferência ao que ele mesmo diz: estamos, a cada dez, quinze minutos, de volta à “beleza do gesto”. Ao mesmo tempo em que a maneira como são dispostos esses quadros episódicos não é inesperada, não vemos uma falta de linearidade; pelo contrário, a partir da segunda missão, já imaginamos que Oscar sempre estará em situações inusitadas, e isso, depois de meia hora, passa a não constituir surpresa e, particularmente, torna-se cansativo. Pelo simples fato de que estranho seria se o filme indicasse algo no início e fosse se transformando em outra ideia: o fato de Oscar viver vários personagens, em situações diferentes, não tira a impressão de que vemos, na verdade, a mesma experiência, apenas fragmentada em tons e modulações diferentes. Não esconde o fato de que vemos uma encenação humana de sua multiplicidade. No entanto, isso poderia ser mostrado de forma mais discreta e efetiva, não como um jogo do diretor consigo mesmo.

Holy Motors 2

Parece-me, também, que Holy Motors tinha o desejo de ser uma espécie de síntese dos tempos atuais, num diálogo, inclusive, com a situação da Europa: não me parece desproposital que alguns personagens de Oscar estejam lidando com pessoas à margem e com banqueiros. Mas, na mesma medida em que se cria um diálogo entre o pai e sua filha, ele incapaz de conviver com a mentira e a adolescência, temos de voltar à limusine e ao camarim do artista, pois, afinal, esta é a vida que ele (e, para Carax, todos nós) pretende levar adiante – assim, afinal, ao contrário da filha, ele não precisa conviver consigo mesmo.
Se em Império dos sonhos, tínhamos um perigo que parecia real – mesmo que fosse cinema dentro do cinema – para Nikki, e quando ela entrava num clube e surgia numa sala de cortinas vermelhas víamos o seu receio, em Oscar, tudo é uma ode à interpretação, como se o cinema fosse apenas uma peça complementar para a fantasia e para o sonho. Para ele, basta Oscar passar por momentos de perigo definitivo para sua vida e reaparecer para nos mostrar que aquilo tudo não passa de uma encenação ou de uma metáfora de que surgimos e desaparecemos em situações diferentes, de que queremos fazer desaparecer nossos “eus” ou ampliá-los.
Em meio ao que acontece, é preciso haver distração para Carax, e as inserções pop de Eva Mendes e Kylie Minogue apenas evidenciam a sua necessidade – também do filme – de “Visite o meu site”. Minogue tem o mesmo modus operandi de Oscar, todavia parece não tanto a cantora do Club Silencio de Cidade dos sonhos, e sim a personagem de outro filme (Hiroshima mon amour?). Em certo momento do filme, soa seu hit pegajoso “Can’t Get You Out of My Head”, na festa da jovem buscada pelo pai, assim como é o toque do celular dela, e nunca imaginaríamos Lynch colocando uma música de Chris Isaak ou David Bowie em Twin Peaks – Fire walk with me para anunciar a presença deles. Ainda: seu personagem aparece em frente à Ponte-Neuf (evocando o filme de Carax de 1991, com sua ex-musa Juliette Binoche). Eva Mendes, por sua vez, é uma figura meramente deslocada do filme porque ela anunciaria uma beleza rara de Hollywood (e o personagem do fotógrafo que a cerca, antes de haver uma reviravolta, é apenas uma sátira de Carax, mas que poderia valer também para o seu filme), e seu silêncio é incômodo, apesar de não esperarmos a conveniência nesta cena ou em outras.
Holy Motors tem o desejo de transcender uma espécie de espaço moderno – e ser pós-moderno. A pós-modernidade, como o personagem Oscar, é uma ilusão. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, na modernidade, já anunciava o registro visual de Holy Motors e tudo que se diz pós-moderno. Carax é complacente com a própria ideia de cinema: para ele, o cinema se realiza na sua autorreverenciação, erro em que não cai, por exemplo, o diretor de Drive, no qual o personagem central, por trás da máscara de látex, era vários personagens, sem conseguir assumir, de fato, quem era. Pode ser, mas um erro substancial é se achar que Holy Motors só será apreciado se o espectador for um iniciado em vanguardas de cinema e não se interessar pelo dito cinema comercial. Filmes como este fazem o espectador se sentir culpado por não gostar da proposta ou não querer vislumbrar algo que esteja além do apresentado. Chega-se, daí, à falsa ideia de que um filme, por ser experimental, é melhor do que um que não é. Trata-se de um posicionamento que Carax adoraria. No entanto, é um risco anunciar a “beleza do gesto” sem ter certeza de que irá entregá-la. Para haver essa beleza, é preciso, de fato, sentir o outro; particularmente, o diretor de Holy Motors só vê uma pessoa nos inúmeros espelhos que espalha durante o filme: a si próprio (por meio de Lavant).

Holy Motors, FRA/ALE, 2012 Diretor: Leos Carax Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue Produção: Martine Marignax, Albert Prévost, Maurice Tinchant Roteiro: Leos Carax Fotografia: Yves Cape, Caroline Champetier Duração: 115 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: arte France Cinéma / WDR / Arte / Pierre Grise Productions / Pandora Filmproduktion / Théo Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

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