J. Edgar (2011)

Por André Dick

J. EDGAR

O cineasta e ator Clint Eastwood não precisa provar mais nada depois de ter feito filmes como Os imperdoáveis, As pontes de Madison e Menina de ouro. No entanto, como um artista, ele continua arriscando e fazendo projetos como J. Edgar, em que Leonardo DiCaprio tenta se mostrar num momento capaz de lhe dar o Oscar. Indicado ao Globo de Ouro, mas não ao prêmio da Academia de Hollywood, permite-se afirmar que J. Edgar pode ser sintetizado – apesar de não só – a partir de sua interpretação, uma vez que ela marca presença em todas as sequências.
Nesse sentido, o filme ingressa em sua segunda (e surpreendente) limitação: a direção de Clint Eastwood, que opta por realizar um filme quase totalmente escuro, talvez para encobrir a maquiagem pouco convincente tanto em DiCaprio quanto em Naomi Watts, e ser autor de uma trilha sonora quase ausente. A tentativa de se contar a história de J. Edgar, desde que ingressou no FBI, escolhendo uma secretária, Helen Gandy (Naomi), que o acompanhará, e um braço direito, Clyde Tolson (Armie Hammer, que fez os gêmeos de A rede social e não desaponta), é interessante. Por meio do filme, são abordados tópicos de sua vida: a obsessão de Hoover em caçar comunistas e gângsteres (no que o filme é bem específico e interessante, pois oferece um panorama daquela época), sua tentativa de profissionalizar as investigações, o caso do sequestro do bebê Charles Lindbergh e sua ligação com a mãe (Judi Dench). Esta, em determinado momento, lhe diz: “Prefiro ter um filho morto a um filho homossexual”, quando Hoover diz que não gosta de “dançar com mulheres”. A relação conflituosa e a inaceitação materna poderiam servir de mote para Eastwood costurar uma relação complexa de Hoover tanto com sua mãe quanto com sua secretária e seu braço direito. Mas o roteiro acaba não permitindo isso aos personagens, talvez pela indisposição de Clint para situá-los melhor no espaço e no tempo, apesar da recriação de época apurada. Da maneira como a narrativa se sucede, eles parecem ter simplesmente passado pela vida de J. Edgar, sem, de fato, fazerem a diferença que as rugas oferecem ao rosto (quando há um conversa decisiva entre Hoover e Tolson, ela logo se perde, como se o assunto tivesse uma espécie de delimitação para abordagem; em outro momento, ele pede pela fidelidade de Helen, mas não sabemos ao certo por que esta o segue).
É, sem dúvida, difícil realizar um filme em que o personagem central é um perseguidor, com receio, ao mesmo tempo, de não ser aceito, mas isso pode ser feito em doses de interesse para o espectador, não do modo como Eastwood nos apresenta. Mesmo a aversão de Hoover por figuras históricas como Martin Luther King soa, de certo modo, apressada e sem o desgaste histórico. É preciso mostrar que Hoover estava descontente com King porque não compartilhava de suas ideias de democracia, e se coloca a sua vida pessoal não resolvida como uma espécie de compensação para explicar seus desvios políticos e éticos, soando, assim, como um preconceito. Ou seja, se Hoover agiu de maneira falha, é porque algo o perturbava. Para Clint, o que o perturbava era a inaceitação de sua mãe. Assim, seus verdadeiros sentimentos seriam encobertos por uma máscara pública, tornando a condição do personagem inacessível.

J. EDGAR

Trata-se, certamente, de um círculo, e Clint Eastwood, mesmo com toda sua fundamental experiência como cineasta, cai nele, aceitando um roteiro em que os motivos para os flashbacks são relacionados a relatos de Hoover para diferentes agentes que transcrevem sua biografia.
Também parece um tanto inadequada a tentativa de Eastwood de desvincular as tentativas de Hoover aparecer na mídia com sua própria vaidade pessoal. Ou seja, o filme dificilmente mostra – a não ser numa cena em que vai assistir a um filme no cinema, e vê, orgulhoso, que os agentes federais do FBI são retratados como heróis, em que ele encontra Shirley Temple na saída – seu envolvimento com a classe artística, e isto é vital para entender sua persona, que lidou com inúmeros documentos pessoais (em arquivos cobiçados na posse de Nixon). Pelo filme, J. Edgar era apenas um homem interessado em acabar com o comunismo, com os conflitos já mencionados, e em fazer fofocas de cartas particulares. Para alguém que chefiou o FBI durante tantos mandatos presidenciais e causou inúmeros constrangimentos, não parece plausível. Não fica claro o tamanho do seu perigo; pelo contrário, ele parece ter representado uma espécie de senso de equilíbrio dos governos nos quais trabalhou, apenas com uma vida pessoal conturbada e desconhecida.
Somando-se a isso, por exatamente forçar uma interpretação para a qual não estava preparado, DiCaprio, apesar de se esforçar visivelmente, sobretudo na tentativa de adaptar sua expressão à velhice, acaba transformando o filme numa espécie de biografia do chefe do FBI em ritmo melancólico de recordação, mas sem conseguir expandir exatamente essa melancolia. Em quase todas as sequências, os maneirismos são evidentes: o corpo levemente curvado (mas não, a meu ver, de forma crível), o olhar cabisbaixo na cadeira em frente à mesa, o olhar de desconfiança para a secretária quando ela acha exagerada alguma carta que ele pede para transcrever. Ou seja, olhando desde o início, com a maquiagem pesada da idade, não acreditei que DiCaprio possa ser J. Edgar Hoover, o homem que vasculhou a vida de inúmeras pessoas. O ator parece muito comedido para o papel e até neutro. Não atinge uma atuação como mostrada, por exemplo em Gilbert Grape e Prenda-me se for capaz, nem consegue atingir a entonação de voz para um senhor mais velho (o que seria realmente difícil, mas parte do desafio). Em apenas um momento, mais ao final, parece-me que ele realmente se emociona com uma determinada situação-chave e mostra todo o conflito existencial que acompanhava esse personagem, sem, no entanto, buscar uma ligação direta com as ações que tomava. Mas já é tarde. J. Edgar termina sem dizer direito a que veio. Como o próprio personagem enfocado, pelo menos na visão de Clint Eastwood.

J. Edgar, EUA, 2012 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Leonardo DiCaprio, Armie Harmer, Naomi Watts, Judi Dench Produção: Clint Eastwood Roteiro: Dustin Lance Black Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Clint Eastwood Duração: 137 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Imagine Entertainment

2  estrelas

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: