360 (2012)

Por André Dick

Filme 360º 2

O diretor Fernando Meirelles mostrou grande talento em Cidade de Deus, que o levou a uma carreira internacional e era, sem dúvida, um filme de muita qualidade. Nos dois filmes seguintes, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira, ele seguiu um caminho um pouco diferente, mas com resultados bastante satisfatórios (o filme baseado em Saramago fez o máximo com o material que tinha, de difícil adaptação, e o próprio escritor gostou do resultado). A nova empreitada de Meirelles, baseada em roteiro de Peter Morgan – autor inglês respeitado, responsável por A rainha, Frost/Nixon e Além da vida, por exemplo –, oferecia uma oportunidade para outro bom resultado. No entanto (e este “no entanto” pesa, em se tratando da qualidade do diretor), 360 raramente cumpre sua premissa: ser um filme sobre o cruzamento entre diversos personagens em países diferentes, nos moldes de Babel, e tratando dos relacionamentos de casais, nos moldes de Closer. Embora admirador de Babel, creio que Closer é um filme superestimado, sem fazer jus ao que apresenta. 360 também não consegue, como este, elaborar suficientemente a ligação entre os personagens, parecendo mais uma coleção de fragmentos do que uma narrativa.
Tudo tem início em Viena, em que Meirelles mostra uma moça eslovaca, Mirka (Lucia Siposova), indo tirar fotografias com um sujeito, Rocco (Johannes Krisch), que as coloca na internet, acompanhada pela irmã, Anna (Gabriela Marcinkova), que, pelo que entendemos, é protegida e poupada da falta de dinheiro. Já no início, ao despir a moça, Meirelles acaba fazendo a personagem nos entregar o mistério que poderia carregar. No dia seguinte, com as fotos na internet, ela é procurada por um homem, Mike Daly (Jude Law), pai de família, que acaba tendo de fugir do encontro por encontrar alguns conhecidos de negócios. Casado com Rose (Rachel Weisz, quase irreconhecível), ele está infeliz no casamento, assim como ela, em Londres, está envolvida com um fotógrafo brasileiro, Rui (Juliano Cazarré), personagem que não se desenvolve. Este acaba sendo abandonado pela namorada, Laura (Maria Flor), que no avião em que volta para o Brasil, conhece John (Anthony Hopkins). Ele procura sua filha desaparecida e ambos precisam passar um tempo em Denver, em razão da nevasca. Ao mesmo tempo, em Paris, conhecemos um homem argelino (Jamel Debbouze), apaixonado por uma colega de trabalho, casada no entanto com um russo. Para que a história dê 360º – sem voltar totalmente ao início –, Meirelles acompanha esses personagens.

Filme 360º

Se do drama de Mike com Rose ele pouco mostra – sendo constrangedoras as aparições de Law e Weisz, apenas estereótipos para uma lição de moral –, parece que a história preferida é a que envolve Laura, que num aeroporto acaba se interessando por um criminoso sexual do Colorado, Tyler (Ben Foster). O homem que conhece na viagem, John, acaba tendo um apego paterno por ela, em razão da filha desaparecida, e talvez seja a única trama que realmente traz algum peso substancial ao filme – sobretudo por causa de Anthony Hopkins e Ben Foster. Hopkins consegue mostrar uma atuação que num filme de maior resultado o credenciaria a uma disputa ao Oscar, principalmente por uma cena de reunião de AA.
Mas Meirelles abandona aqui o que tanto havia mostrado em seus filmes anteriores: o ritmo. Não há ritmo suficiente em 360 e cada drama parece, além de apartado um do outro, de tom morno.  Meirelles parece se concentrar demais nos atores (eficientes, mesmo aparecendo pouco), e esquece a linha da história, tentando disfarçar suas brechas com referências tecnológicas e várias ações dividindo, em alguns momentos, a tela, o que, no caso deste filme, acaba se transformando num recurso desgastado. Não parece apenas um problema de direção, nem de fotografia (um dos méritos do filme, trabalhando o jogo de luzes e identificando o filme como um de Meirelles, com suas tomadas focando edifícios e casas de fora para dentro), mas, substancialmente, de roteiro.
Um roteiro não precisa, claro, de muitos diálogos para funcionar, mas cada diálogo precisa ter uma intensidade crível. Por exemplo, o interesse de Laura pelo rapaz no aeroporto não convence, primeiro porque a atriz (Maria Flor), antes, não mostra o sofrimento para que se arrisque com uma pessoa desconhecida, segundo porque é difícil encontrar, nos diálogos, algo que faça com que nos interessemos especificamente pelos dramas de cada personagem. O mesmo acontece com toda a sequência final, em que os personagens parecem desprovidos de vida. E, no caso de 360, deveria haver mais simultaneidade, ou idas e vindas, como se esperaria do Meirelles que fez Cidade de Deus. Ou seja, cada trama, apesar de não começar e terminar no mesmo momento, não se expande, não cria conexões com as outras, além do fato de haver em comum a presença de algum personagem que desenhe tal relação. Nesse sentido, volta-se à ideia do ritmo, tão forte nos filmes anteriores de Meirelles, mesmo em seu semidesconhecido (e hilariante) Domésticas. Meirelles não costumava apresentar uma cena sem conflito, sem vida, com os personagens se comportando de maneira quase neutra. Por isso, é estranho que o diretor tenha dito que não investiria mais nesses moldes narrativos, pois Cidade de Deus e Domésticas acabam tendo essa particularidade.
Não diria ser uma influência excessivamente europeia – o filme, afinal, se passa, em sua maior parte, no continente –, mas de um cineasta que não apresenta a mesma busca existencial, por exemplo, de um Wim Wenders, cujo Até o fim do mundo, bastante criticado, é uma espécie de precursor de Babel. Meirelles parece, mesmo, em alguns momentos, cansado para realizar um filme mais denso, como se ele não estivesse mais com o mesmo ímpeto para criar um impacto, mesmo se o seu objetivo, aqui, fosse ser mais discreto. Se antes, em Cidade de Deus, ele foi acusado, injustamente, de criar um cinema que embelezava a miséria, em 360 ele emula uma espécie de cinema europeu de linha discreta, mas de pouca força. Diante do que havia por trás das câmeras e à frente, não é possível dizer que 360 cumpre o que prometia.

360, Reino Unido/AUS/FRA/BRA, 2012 Diretor: Fernando Meirelles Elenco: Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Mark Ivanir, Moritz Bleibtreu, Jamel Debbouze, Peter Morgan, Tereza Srbova, Katrina Vasilieva Produção: Andrew Eaton, Chris Hanley, Danny Krausz, David Linde, Emanuel Michael, Andy Stebbing Roteiro: Peter Morgan Fotografia: Adriano Goldman Duração: 115 min. Estúdio: Revolution Films / BBC Films / Dor Film Produktionsgesellschaft / Muse Productions / O2 Filmes / Gravity Entertainment / Unifilme

2  estrelas

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