Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (2011)

Por André Dick

Millennium 4

Depois de realizar, em sequência, alguns dos melhores filmes dos últimos anos (Zodíaco, O curioso caso de Benjamin Button e A rede social), David Fincher mostra, em Millennium – Os homens que não amavam as mulheres, que continua em grande fase. Apesar de muitos terem dito que não havia necessidade desse filme, depois da versão sueca, e que Fincher não teria conseguido imprimir seu estilo nele, é necessário dizer que se trata de um dos melhores filmes de investigação realizados, mesmo em alguns momentos sendo excessivo (a longa-metragem é uma característica de Fincher, a julgar pelas quase três horas deste, de Zodíaco e Benjamin Button) e com inúmeras reviravoltas, o que, a certa altura, pode provocar cansaço. Trata-se de um cineasta que não consegue se conter na aspiração de desenvolver os personagens por um longo tempo, colocando-os em diversas situações. O subestimado, em muitas avaliações, Zodíaco, a meu ver, é uma obra-prima – supera Seven por toda sua complexidade e retrato de uma época, além de ter um elenco superior –, e Benjamin Button possui uma narrativa original com uma influência dramática que atrai o espectador, sendo um dos filmes mais melancólicos já feitos (pode ser uma manipulação, mas Fincher a faz com talento). Em A rede social, Fincher trazia um toque mais contemporâneo, no retrato do criador do Facebook e o início da empresa, com uma fotografia e trilha sonora que se correspondem diretamente com as de Millennium, a começar pela abertura, com imagens impressionantes que vão como que moldando o rosto da personagem central, e que, além disso, tem muitas sequências que ecoam o cenário apertado de O quarto do pânico (um dos filmes dele menos interessantes). Enquanto em Benjamin Button e A rede social, a violência havia se atenuado, em Millennium ela aparece em vários momentos. Porém, Fincher não trivializa essa violência, e sim a insere numa rede de complicação psicológica. Para ele, os personagens sempre são movidos por um passado nebuloso, que acarreta em problemas que não conseguem superar, irreversíveis. Desse modo, a violência deles é sempre inesperada, pois não se associam a algo que o espectador desconfia.

Millennium 3

O filme inicia mostrando um jornalista, Mikael Blomkvist (Daniel Craig, numa atuação mais contida, diferenciando dos momentos em que faz James Bond ou de Cowboys e aliens), que perde um processo para o empresário Hans-Erik Wennerström (Ulf Friberg), por tê-lo acusado, em matéria da revista Millennium, sobre fatos que não pode provar. Os segredos de sua vida, além disso, foram levantados por uma moça, Lisbeth (Rooney Mara, indicada com justiça ao Oscar de melhor atriz), sob a tutela do Estado desde os 12 anos e que, sem nenhum tipo de estudo, conseguiu se tornar numa investigadora perita. O jornalista é chamado por um ricaço, Henrik Vanger (Cristopher Plummer), de um clã que mora numa ilha, para, além de escrever uma biografia sobre ele, buscar a solução para o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, desde 1966. Ele mora num vilarejo da Suécia, onde se passa o filme, quase sem contato com os familiares, sobretudo porque alguns deles são nazistas. A recompensa seria dar ao jornalista algumas informações sobre Wennerstrom na justiça. Depois de se instalar numa pequena casa à beira de um lago, onde tem como companhia apenas um gato, inicia o processo de entrevistas com familiares, tentando descobrir sobretudo o que aconteceu com Harriet – no momento em que o filme mais lembra Zodíaco, sobretudo no jogo entre o claro e o escuro de alguns ambientes, representando os próprios personagens. O contato de Mikael com a família de Henrik é, a princípio, calmo, mas logo se torna complicado e o jornalista percebe estar lidando com uma “família maluca”, com exceção do simpático Martin Vanger (Stellan Skarsgård), que mora numa casa com vidraças, quase exposta.
Esta trama vai correndo em paralelo com a que mostra Lisbeth Salander. Como ela está sob a guarda do Estado, tem um senhor como tutor, que acaba sofrendo um derrame. Dependente dele, em parte, logo começa a ser chantageada pelo psicólogo que faz seu perfil para que possa receber o dinheiro – inclusive para comida. O enfoque em Lisbeth é sempre misterioso. Com vários piercings e tatuagens – a garota com a tatuagem de dragão do título original –, ela atua como um hacker, invadindo os computadores das pessoas que pretende investigar. Quando Mikael está necessitando de uma assistente, ele chega até ela, e o primeiro encontro já é atípico, com ele convidando-a para um café da manhã depois de ela sair numa balada e amanhecer acordada ao lado de uma mulher. Lisbeth é um personagem situado entre a infância – está sempre com algum lanche para crianças por perto – e o mundo conturbado em que se inseriu desde cedo. Em nenhum momento, no entanto, ela é uma figura completamente autônoma ou responsável por tudo o que faz e, quando age violentamente, no filme, é para se vingar do que cometem com ela. Fincher, a julgar principalmente com Clube da luta (filme dele o qual aprecio menos), não poupa o espectador de cenas fortes, até repulsivas, mas ao mesmo tempo ele julga sempre como necessária esta etapa para mostrar o quanto a personagem consegue criar uma redoma ao redor de si e torna cada caso uma obsessão para substituir sua própria vida – tendo sobre cada caso um controle que não consegue ter normalmente nas relações sociais.

Millennium

Esta dualidade é muito bem conduzida por Fincher, especialista em desenvolver os personagens a distância e de forma íntima, mostrando suas falhas e ressalvas para continuar em determinada direção. São sempre personagens falíveis – o detetive do Zodíaco feito por Mark Ruffalo talvez seja o melhor exemplo –, de qualquer modo sempre bem delineados, a partir do ponto de vista de Fincher. Não é diferente em Millennium. Mesmo com uma trama que poderia ser considerada previsível, com elementos típicos de um policial em que se busca, a todo custo, o criminoso – e nessa empreitada se encontram provas em referências bíblicas e fotografias quase apagadas pelo tempo –, o filme jamais se parece com outros filmes, a começar pela fotografia mostrando as mudanças de tempo para a ilha onde se investiga toda a história (já começa no alto inverno, com o carro levando Mikael à mansão de Venger, e a câmera o acompanha num travelling opressor, que fazia parte, inclusive, do trailer) e o céu quase sempre nublado, com alguns poucos espaços para nuvens e para o azul, representando uma paisagem triste, europeia, mas que dificilmente é fotografada da mesma maneira como aqui por Fincher. Os personagens são como que a paisagem do filme: na maior parte do tempo, estão encobertos, reclusos. A amizade que Mikael faz com um gato que chega na casinha logo em sua chegada mostra tão bem essa condição: para Fincher, o ser humano precisa da companhia para não se confundir com a paisagem e mesmo desaparecer nela. Mikael e Lisbeth parecem entender isso; outros personagens, não. Neste fio é que Fincher anda, mostrando ser um dos cineastas mais talentosos dos últimos vinte anos, pelo menos.

The Girl With a Dragon Tattoo, EUA/SUE/Reino Unido/ALE, 2011 Diretor: David Fincher Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Goran Visnjic, Embeth Davidtz, Joely Richardson, Joel Kinnaman, Elodie Yung, Julian Sands Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Søren Stærmose, Ole Søndberg Roteiro: Steven Zaillian Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Trent Reznor, Atticus Ross Duração: 158 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Film Rites / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Scott Rudin Productions / Columbia Pictures / Yellow Bird Films

Cotação 4 estrelas e meia

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: