O hobbit – Uma jornada inesperada (2012)

Por André Dick

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Continuar uma saga cujo último episódio recebeu o Oscar de melhor filme (quando os outros foram também indicados ao prêmio) e cujo público cresceu muito uma década depois não é tarefa fácil. Por isso, certamente Peter Jackson deve ter ficado relutante antes de concordar com a nova empreitada. Depois da grandiosa versão de King Kong de 2005 e do mal recebido e irregular Um olhar do paraíso – que destoa de sua filmografia recente –, Jackson decidiu, quando Guillermo del Toro saiu da direção (ele ainda é um dos que assinam o roteiro), reassumir o olhar sobre a mitologia de J.R.R. Tolkien, voltando 60 antes do período em que se passa a primeira trilogia O senhor dos anéis. Incorrer no risco de George Lucas em Star Wars era fácil, ou seja, tentar mostrar uma espécie de outro universo com algumas referências do primeiro, saturando com uma tecnologia superior à de 10 anos atrás, mas, de modo impressionante, Jackson consegue contrabalançar os ganhos que trouxe ao cinema com outros novos, sem perder o essencial: a história de determinados personagens que se correspondem aos da primeira trilogia de modo decisivo.
A começar por Gandalf – o mago feito por Ian McKellen, que consegue transformar a mais simples fala em algo que merece realmente ser ouvido –, que procura o Condado 60 anos antes de pedir a Frodo que leve o anel do poder para a destruição, atrás de seu tio, Bilbo Bolseiro (feito com notável desenvoltura na juventude por Martin Freeman, tendo de concentrar a dedicação de Frodo e Sam a uma missão e o humor de Merry e Pepin, ou seja, ele, de fato, é “o hobbit” da jornada). Desta vez, Gandalf o procura para que ajude um grupo de 13 anões a recuperar sua montanha repleta de riquezas, Erebor, tomada pelo dragão Smaug. Esta história prévia é contada no início, e Jackson já diz novamente a que veio, com um trabalho de direção de arte e de efeitos especiais antológicos, sem nunca resvalar para o kitsch. Não que Bilbo concorde com o “convite” – pelo contrário, diz não estar interessado em aventuras e é para Gandalf procurar outro vilarejo.

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O primeiro contato de Bilbo com os anões se mostra, além de divertido, durante um jantar, válido para o que se vai contar a seguir, e chama a atenção para o seguinte fato: O hobbit tem suas particularidades, mas respeita totalmente a primeira trilogia, procurando recursos de imagens que não ignoram o universo já mostrado, procurando expandi-lo ainda mais. Não me parece, ao mesmo tempo, que Jackson tente aumentar a metragem do filme inventando sequências sem importância. Há algumas com menos intensidade (aquela em que aparecem os trolls e a de outro mago da floresta, Radagast, feito por Sylvester McCoy), entretanto, no geral, não prejudicam – parecem anunciar mais o que está porvir. De qualquer modo, cada detalhe de O hobbit parece encaixado de modo a sustentar uma ideia de trilogia, mesmo que não tenha sido a ideia original de Tolkien. Com respeito pelos personagens, Jackson recupera alguns decisivos que não estão no livro (e cuja presença surpreende, no bom sentido, o espectador), como se enlaçasse diferentes gerações no mesmo combate ao poder permanente, e expande a presença de outros, como Azog (Manu Bennett). Tanto é que, ao final, não se percebe a duração (de fato longa) do filme e sentimos falta de maior participação, por exemplo, de diálogos entre os anões (que no início rendem momentos divertidos).
Nesse sentido, depois de alguns problemas num bosque, os anões, Gandalf e Bilbo acabam tendo de ir para Valfenda – ponto de encontro, já em A sociedade do anel, para o início de uma jornada que pode colocar todos numa situação de risco. Há dúvidas em relação à presença de Bilbo, que pode atrapalhar na viagem, segundo o líder dos anões, Thorin (feito pelo excelente Richard Armitage, que consegue ser um bom contraponto com Aragorn), e Gandalf revela o motivo de sua escolha em determinado momento, na melhor interpretação de McKellen, o que não é pouco. Nesse sentido, o hobbit é um personagem mais isolado, ao contrário de Frodo, e, se o filme não é tão sombrio quanto a trilogia inicial – também porque não mostra os Cavaleiros Negros, que andavam em meio à floresta e assustavam, principalmente em sua passagem pelo vilarejo de Bri –, ou seja, se não guarda os mesmos horizontes escuros (ameaçados por Sauron), seu personagem central é mais solitário, apesar de ver nisso uma certa oportunidade para demonstrar seu ímpeto.

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As locações da Nova Zelândia fotografadas por Andrew Lesnie são esplêndidas, parecendo ainda mais ricas do que a trilogia inicial e o momento em que todos precisam ingressar numa caverna mostra o lado mais extraordinário da direção de Jackson. Ali Bilbo encontrará outra figura que ajuda a estabelecer uma ligação definitiva entre esta trilogia que se inicia e a que já se tornou antológica – além dos inevitáveis trolls, goblins e orcs, tornando o espaço bem mais selvagem e propício a destruições e a implicância entre os anões e os elfos (evidente na primeira trilogia, com Legolas e Gimli). Trata-se do diretor atual que melhor consegue filmar cenas de ação, entende o clima da série (particularmente, Del Toro, que dirigiu O labirinto do fauno e Hellboy II, não tem o mesmo talento) e, vendo o filme, podemos rever os três primeiros sob uma nova perspectiva. É destacado um embate que Jackson filma no alto de uma montanha (sobre o qual não se pode contar, para não se perder a surpresa), em que a direção se casa com a trilha sonora de Howard Shore – sempre pontuando a narrativa da melhor forma possível (nos momentos mais sentimentais). Ao contrário do que Lucas imaginou com a sua segunda trilogia, não são os efeitos especiais que o público quer ver, mas os personagens que podem habitar esse universo. E Jackson entende isso quando na hora final coloca Bilbo em várias situações de perigo e que podem levá-lo a perceber que realmente traria mais recordações uma aventura longe do Condado. Isso se deve à atuação de Martin Freeman, que faz um Bilbo juvenil mais simpático do que sua versão mais experiente, feito por Ian Holm. Desta maneira, Freeman prepara o espectador para as próximas duas partes, pois se não desse certo nesta primeira dificilmente o público suportaria acompanhá-lo. É Freeman, que em nenhum momento aparece na primeira trilogia, que atesta o quanto é interessante voltar a este universo, mesmo com a  falta de alguns personagens antológicos. Graças a ele, a obra de Jackson consegue ter uma densidade humana e épica, afinal, como diz Gandalf, os maiores feitos são realizados por aqueles que enfrentam a rotina. Entre o olhar pela janela e o fogo na lareira, Bilbo, em determinado momento, opta pela peregrinação em campos abertos e montanhas geladas.
O hobbit é um desses filmes que raramente acontecem. Uma mistura forte de apelo cultural e de fantasias mitológicas, que alimentam cada geração como um livro de histórias a serem reproduzidas. Como A sociedade do anel, há 11 anos. É comercial? Sim. É potencialmente lucrativo? Sim. Mas também é fantástico.

The Hobbit, EUA/Nova Zelândia, 2012 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Christopher Lee, Ian McKellen, Andy Serkis, Richard Armitage, Hugo Weaving, Iam Holm, Sylvester McCoy Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Carolynne Cunningham Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens, Guillermo del Toro, Fran Walsh Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 169 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films / 3Foot7

Cotação 5 estrelas

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4 Comentários

  1. Mateus

     /  6 de janeiro de 2013

    finalmente uma crítica decente ao filme!

    parabéns! você entende de cinema de verdade! Não somente fica copiando as críticas dos gringos, como muitos no Brasil fazem!

    Responder
  2. Nicolas

     /  1 de abril de 2013

    ótima crítica, a trilogia SDA e O Hobbit são filmes lindíssimos e com um elenco impecável.SDA -a Sociedade do Anel considero um dos melhores filmes já filmados. E O Hobbit tem cenas memoráveis, cito 2, a hora da “pena de Bilbo”, qdo ele fica com o pescoço de Gollum na sua espada e não o mata, só com a música Peter Jackson nos remete para Moria onde Gandalf fala pra Frodo: “A pena de Bilbo pode ter decidido o futuro de muitos”. Cena genial. E a cena final, aquele duelo entre Thorin e o Orc Pálido, é um Sergio Leone da fantasia, lindo, o compasso da música junto com as passadas de Thorin e com o céu azul escuro e o fogo dando um contraste é de tirar o fôlego. Sem contar que os 48 quadros por segundo é algo marcante, sem dúvida. É incrível realmente como vendo Senhor dos Anéis depois de ter visto apenas o 1º Hobbit já nota-se como o Hobbit encaixou perfeitamente na 1ª trilogia. Imagina com os 3 Hobbits prontos.
    Abraços

    Responder
    • Prezado Nicolas,

      Agradeço por seu ótimo comentário e por suas palavras a respeito da crítica. Concordo com tudo o que diz sobre a trilogia e O hobbit. Essas cenas a que se refere são referenciais mesmo, e gostei muito da analogia que faz entre o primeiro desta trilogia e o filme de O senhor dos anéis, assim como a bela comparação entre o duelo de Thorin e o líder dos orcs com aqueles mostrados por Sergio Leone. Aliás, a câmera lenta utilizada em algumas cenas remete mesmo ao gênero do western – algo que pode ficar encoberto pelo cenário fantástico (a fotografia deste final realmente impressiona). Também acho que O hobbit consegue se dialogar, na narrativa e visualmente, de forma direta com a trilogia anterior, e imagino que os próximos dois vão aumentar ainda mais esse diálogo, ainda mais com a inserção de alguns personagens que não estão no livro, aumentando a mitologia.
      Agradeço pela visita e volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder

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