O senhor dos anéis (2001, 2002, 2003)

Por André Dick

O senhor dos anéis.SérieA saga O senhor dos anéis, adaptada dos livros de J.R.R. Tolkien, teve uma transposição para o cinema à altura de seu desafio. Apesar de Peter Jackson não ter dado provas anteriores de que seria capaz de adaptar com tal força a trilogia (esteve à frente, por exemplo, de Os espíritos), é bem verdade que ele consegue um resultado superior ao que um diretor comum ou consagrado conseguiria. Ou seja, ele não era nem um cineasta do underground nem alguém incorporado a superproduções hollywoodianas. Talvez por tudo isso ele tenha criado um ritmo tão equilibrado para os três filmes, baseado em locações fantásticas da Nova Zelândia e um trabalho de adaptação e incorporação de cada personagem no imaginário de modo notável.
No primeiro, A sociedade do anel, ele apresenta os personagens, o surgimento do anel e o tom da série, passada na Terra-média. Gandalf (Ian McKellen) vai ao Condado dos hobbits para a festa de despedida de Bilbo (Ian Holm). Este tem um sobrinho, Frodo Bolseiro (Elijah Wood), amigo de Sam (Sean Astin). Gandalf acaba descobrindo que seu amigo carrega o anel do poder, ou seja, aquele que o possuir estará dominado pelas trevas e o desejo de poder. Ele pede que Frodo saia em jornada, com Sam – os quais, pelo caminho, encontram Pippin (Billy Boyd) e Merry (Dominic Monaghan) –, levando junto o anel, em direção ao vilarejo soturno de Bri, onde eles se encontram com Aragorn (Viggo Mortensen), que os ajuda a fugir de cavaleiros assustadores, em meio às árvores do Condado. Frodo entende, aos poucos, que sua missão não é tão simples quanto se imagina. Depois de um novo enfrentamento e serem salvos pela elfa Arwen (Liv Tyler), os hobbits vão para Valfenda, onde a sociedade do anel do subtítulo se reúne por meio da figura de Elrond (Hugo Weaving). Nela, há um elfo, Legolas (Orlando Bloom), um anão, Gimli (Rhyam-Davies), e Boromir (Sean Bean), que se integram à “sociedade do anel”, e o filme intensifica o poderio das imagens – constituindo o elo entre os três filmes. Eles precisam ajudar Frodo a chegar à Montanha da Perdição, em Mordor, onde o anel deverá ser destruído, em meio a provocações entre o anão e o elfo e o desequilíbrio de Boromir. Ao mesmo tempo, Gandalf precisa enfrentar Saruman (Cristopher Lee), que tem planos de seguir o Olho de Mordor, o qual deseja recuperar o anel. Saruman (Cristopher Lee) aprisiona Gandolf em Isengard, a princípio – depois de uma cena de embate em que os cajados representam a força de cada um –, mas logo é enfrentado.

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 3

O senhor dos anéis

Neste primeiro filme, além da apresentação dos personagens, há detalhes surpreendentes, sobretudo quando eles chegam às Minas de Moria. Deparando-se com um monstro submarinho com tentáculos, o grupo foge para dentro dessa caverna, sem saber que nela os espera algo pior e aterrorizador. Peter Jackson consegue emprestar a sequências magníficas um tom, ao mesmo tempo, de pesadelo e fantasia, sem nunca cair num excesso; pelo contrário, a cada desmoronamento de uma montanha ou a abertura de um chão repleto de escadarias, apesar de sua grandiosidade, é dado um aspecto fabular inesquecível e modificador também para a narrativa.
No segundo filme, As duas torres, Frodo e Sam, já separados do restante do grupo, continuam a ser seguidos por Gollum (numa atuação de Adam Serkins), dono anterior do anel, que não consegue ficar longe dele, ao qual chama de “precioso”. Ao mesmo tempo, vemos Aragorn, Gimli e Legolas atrás de Pippin e Merry, que foram levados por orcs. Sarumon quer destruir a Terra-média, no entanto sabemos que há as árvores da Floresta de Fangorn para impedi-lo. Nela, Merry e Pippin conhecem a Barbárvore, que pertence aos ents e é incitado a se revoltar contra Saruman, que está querendo destruir, por meio dos orcs, toda a vegetação para a construção de seu exército. No meio do caminho, Aragorn e seus amigos precisam salvar o Rei Theoden (Bernard Hill) de um feitiço de Saruman, preservado por Gríma Língua de Cobra (Brad Dourif), fazendo com que se desloquem todos para o Abismo de Helm. Ele é pai de Éowyn (Miranda Otto), que se apaixona por Aragorn. Porém, precisam enfrentar uma batalha imprevisível – com um desfecho impressionante. Há, como se vê, uma miscelânea de histórias, mas que Jackson consegue unificar com raro empenho, nunca permitindo que determinados personagens sumam de vista (mesmo que personagens como o de Galadriel, de Cate Blanchett, e de Elrond, de Weaving, sejam menos interessantes para o andamento).

O senhor dos anéis.As duas torres

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 2

Já Sam e Frodo, na continuação da viagem, precisam enfrentar Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, interessado no destino do anel. Nessas sequências fantasiosas (em pântanos, sobrevoados pelos Cavaleiros Negros, e montanhas), vemos o maior potencial de O senhor dos anéis: o delírio de imagens, aliadas aos efeitos especiais, é forte o bastante para sustentar a atenção do espectador. A batalha do Abismo de Helm, por exemplo, apresenta-se antológica, fabulosa, sobretudo quando vemos a muralha desabar para a entrada assustadora dos orcs, debaixo da chuva, com os urros no meio da noite e luzes de tochas ao longe.
No terceiro filme, O retorno do rei, sabemos que Peter Jackson está desenhando um epílogo que deve estar de acordo com a série. Apresenta uma primeira hora um tanto devagar, com alguns traços românticos – entre Aragorn e a elfa –, para, então, ao mesmo tempo que acompanha a jornada de Frodo, Sam e Gollum, até a destruição do anel, vermos o que falta ainda ser resolvido, o que inclui uma batalha entre orcs e fantasmas, a loucura de Denethor (John Noble), pondo a Terra-média em risco, uma aranha gigante tentando enredar o personagem principal, a escalada na Montanha da Perdição passando em meio a tropas de orcs. Novamente, Jackson imprime uma montagem rápida, com talento especial para construir cenários fantásticos, e a verdade é que as versões estendidas – cada filme com vários minutos a mais, alguns se transformando em outros filmes, inclusive com peças mais bem-humoradas – são melhores do que as originais, o que impressiona, pois O senhor dos anéis, no original, já tem uma significativa extensão: mais de 9 horas no total. Peter Jackson tem uma tendência para a grandiosidade, o que ele viria a mostrar em King Kong, mas é ainda melhor quando se restringe a elementos básicos ao sucesso de um filme.

O senhor dos anéis 3

O senhor dos anéis.O retorno do rei

O cineasta é fiel às características de cada personagem, colocando Gollum como uma criatura de dupla face, assim como situando os dois lados da magia, nas figuras de Gandalf e Saruman. Gollum é apenas um ser levado pelos eventos e pela própria incapacidade de administrar o poder que o anel tem sobre ele, enquanto os dois magos são decisivos para a existência ou não da Terra-média. Por sua vez, Frodo é combativo e não se entrega ao objeto, mesmo que ele possa levá-lo a momentos de perigo, inclusive desconfiando de Sam. No entanto, é preciso, afinal, acreditar na amizade e não no anel. E assim o que poderia se transformar numa espécie de contemplação da fantasia forçada – vemos o elfo brigando sempre com o anão, para saber quem é o mais ágil; a amizade entre Frodo e Sam sem cair em pieguice; a alegria de Gandalf ao avistar os hobbits depois de muitas batalhas – transforma-se em referência.
O que torna O senhor dos anéis uma trilogia respeitável como a do primeiro Guerra nas estrelas é seu talento em humanizar personagens que poderiam ser vistos como estereótipos de um mundo mágico, imersos num cenário que poderia não parecer verdadeiro, contudo acontece o contrário, costurado pelos figurinos, uma fotografia sempre adequada e uma trilha musical esplêndida – como se Jackson tivesse visto, enfileirados, os clássicos de fantasia dos anos 80 e pretendido revitalizá-los com o olhar e a tecnologia contemporâneos. Jackson está interessado em ver o que há atrás dessas personagens, seus significados mais densos e suas preocupações com o que pode ser dito nas fábulas a serem contadas a partir de seus feitos (o que se corresponde com o próprio Tolkien). Por isso, vai apresentando e dando espaço um a um, aos poucos. Claro que as cenas de batalha são muitas e preenchem boa parte da trilogia, mas o aspecto humano nunca escapa às suas lentes, que procuram a dramaticidade mesmo nos momentos em que flechas e fogos disparam para todos os lados e espadas necessariamente se confrontam, em meio à violência da batalha. É claro, também, que sem o elenco de que dispunha não daria certo: McKellen faz um Gandalf antológico, assim como Morttensen um Aragorn sem exageros, apoiados nos momentos bem-humorados de Orlando Bloom e John Rhys-Davies e no cast juvenil dos hobbits (Sean Astin é um destaque, enquanto Elijah consegue mostrar um herói bastante pressionado pela situação, no tom certo), além das antológicas participações de Cristopher Lee e Bernard Hill. Se alguns do elenco não estão à altura (Hugo Leaving e Cate Blanchett), em momento algum prejudica.

O retorno do rei.Série

O retorno do rei.Série 2

Pois, se no início a vida dos hobbits é vista como tranquila, com tocas em meio a montanhas de verde e simpáticas a ponto de parecerem convidar a nossa visita, e os fogos de artifício se transformando em um dragão dão a medida exata dessa fantasia que se inicia, o mundo que se desvenda para os hobbits é muito mais perverso: depois de Valfenda, com suas belas paisagens, eles precisam enfrentar cavernas, vales imensos, sendo perseguidos por orcs, finalmente pântanos (com as imagens de almas), montanhas pouco convidativas e uma caverna habitada por uma aranha gigante. Todavia, esta jornada não é sem efeitos e sem recompensas: os hobbits sabem que estão crescendo em enfrentar tal caminho, e Jackson está interessado em mostrá-lo da maneira mais completa possível. O que poderia ser apenas uma saga para tentar vender mais livros se transforma numa antologia cinematográfica. Peter Jackson entrega uma trilogia clássica, como poucas que conhecemos.

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Tim Sanders, Barrie M. Osborne Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 178 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia, 2002 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Brad Dourif, Miranda Otto, Bernard Hill Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Tim Sanders Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 179 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Dourif (versão extendida), Christopher Lee (versão extendida) Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 201 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: