O exótico Hotel Marigold (2012)

Por André Dick

O exótico hotel Marigold 3

O mais recente filme de John Madden tem todos os elementos do seu filme mais conhecido,  Shakespeare apaixonado: basicamente, mostra a tradição inglesa, aqui em relação com sua antiga colônia, a Índia, o grandioso país que desperta o exotismo do título. Mas a Índia não se presta a uma nova visão, e sim romântica e idealizada, desde o início, quando vemos um grupo de pessoas da terceira idade empreender uma viagem a ela. Lá estão uma viúva que precisa financiar a casa para pagar as dívidas do marido, Evelyn Greenslade (Judi Dench), o ex-juiz Graham Dashwood (Tom Wilkinson), o casal ​​em conflito Douglas Ainslie  (Bill Nighy ) e Jean Ainslie (Penelope Wilton), a ranzinza Muriel Donnelly (Maggie Smith), o conquistador Norman Cousins (Ronald Pickup) e a conquistadora Madge Hardcastle (Celia Imrie). Chegando à Índia, num ônibus abafado e passageiros oferecendo comidas estranhas, eles se hospedem no Hotel Marigold do título, coordenado por Sonny Kapoor (Dev Patel, de Quem quer ser um milionário?, fazendo o possível para ser divertido e trazendo a lição de moral da história), que quer casar com a jovem Sunaina (Tena Desae), contra a vontade da mãe (Lillete Dubey) e da família – em razão de um casamento já firmado – mas, principalmente, reerguer o hotel, deixado pelo pai e que já teve momentos de glória. Sonny é um idealista e na primeira noite quer conquistar os hóspedes pelo paladar, enquanto tenta convencer financiadores a  lhe emprestar dinheiro para que consiga reformar o hotel. Entretanto, o local é precário, possui vários problemas de encanamento, de portas e janelas, e alguns quartos não contam com divisórias. Num primeiro olhar, parece que é exatamente o Hotel Marigold que dará o mote para todos os conflitos. Não é o que acontece.
Os primeiros 30 minutos de filme não despertam grande curiosidade. Não sabemos ao certo o que Madden pretende nos mostrar, apesar do rápido resumo da colocação de seus personagens, pois não se estabelece nenhuma ligação nas conversas que eles trocam, de passagem, entre si. Baseado no romance These Foolish Things, de Deborah Moggach, o roteiro talvez se direcione nesse caminho exatamente para que, quando as relações se estabelecem mais claramente, sejam melhor aproveitadas. Então, cada um descobre o que pretendia num país estranho: Evelyn vai trabalhar e acaba tendo de aplicar o que aprendeu com uma vendedora de telemarketing; o juiz procura uma figura que pode ajudá-lo a acertar contas com o passado; o casal em conflito, depois de perder algumas economias com a filha, precisa redescobrir seu caminho; Muriel, além de fazer a cirurgia no quadril, para a qual se dispôs à viagem, começa a entender melhor sua condição passada entendendo uma empregada do hotel; e, afinal, para quem busca um amante, a Índia ajuda a criar um clima romântico, o que interessa a Madge e Norman (a sequência em que eles estão num local para encontrarem figuras importantes da Índia traz momentos divertidos). Madden, em nenhum momento, torna essas relações ou conflitos proeminentes. É como se o espectador andasse de carro rapidamente por alguns pontos da Índia – as locações são ótimas – e visse nesse país uma razão para que seus personagens não desistissem da vida. Tudo é muito romantizado (mesmo o barulho, as ruas cheias de gente), idealizado, porém isso não impede que nos interessemos pelos personagens.

O exótico hotel Marigold 2

O exótico hotel Marigold 4

Eles são ressentidos na medida certa com um passado que não conseguiram resolver – e a verdade é que se trata de um tour de force do elenco. É difícil ver quem está melhor, mas creio que Bill Nighy e Tom Wilkinson estão excepcionais (mereciam ser lembrados para o Oscar). Wilkinson, que está na Índia para tentar solucionar uma questão do passado, que o atormentou a vida toda, consegue emprestar, com poucas falas, uma certa grandiosidade a seu personagem – e é quando Madden mais se sente à vontade para criar uma cena poética que, apesar de sob certo ponto de vista ser óbvia, consegue mesmo comover, apesar de não haver interesse em se mostrar o personagem indiano que criaria um elo com esse personagem, pois seu foco é realmente o exotismo (as únicas interações entre os ingleses e os indianos se dá numa brincadeira de crianças na rua, numa família que recepciona uma das hóspedes e num show de música), apoiado na bela fotografia de Ben Davis. Maggie Smith e Judi Dench (vencedora do Oscar de coadjuvante pelo outro filme de Madden, Shakespeare apaixonado) repetem os papéis de outros filmes, mas são atrizes de primeira estirpe. Maggie consegue, ao mesmo tempo, misturar a solidão e a revolta por esse sentimento com certa discrição inglesa que combina bastante com a interpretação de Nighy, que, por meio de um personagem quase limitado, se destaca em todas as cenas nas quais aparece. Assim como Maggie Smith, com seu estilo ranzinza, já visto em filmes de origem inglesa, sobretudo. Mesmo sua personagem sofrendo uma transformação repentina – em relação à sequência inicial –, Madden consegue transformá-la numa referência para o restante do grupo. E Dev Patel, apesar de em certos momentos caricato, parece-me menos forçado do que no decepcionante Quem quer ser um milionário?, que o fez conhecido.
É difícil avaliar que o filme é simpático por ser despretensioso, mas esta, sem dúvida, é sua principal qualidade, graças ao elenco – que está sendo lembrado em várias premiações. No entanto, se tivesse uma meia hora inicial mais interessante e os dramas fossem mais aprofundados, certamente se tornaria uma referência. Entretanto, não parece ser objetivo de Madden. Ele não parece facilitar o roteiro apenas por limitação. O conflito entre a Índia moderna e a antiga, por exemplo, simbolizado pela figura do Hotel Marigold, é pouco explorada, assim como as proibições da família de Sonny. De qualquer modo, nunca vemos um exagero nessa simplicidade forçada do filme, o que acontece em outros filmes. O seu otimismo, apesar de simplista, é verdadeiro, e os personagens, apesar de serem, ao mesmo tempo, rótulos, ganham interesse com o andamento da narrativa. Desse modo, acaba sendo um filme fechado (também em suas ideias) e linear, mas sem ser reduzido a um drama de TV – o que, em se tratando do cinema atual, confere a ele certa qualidade.

The Best Exotic Marigold Hotel, ING, 2012 Diretor: John Madden Elenco: Bill Nighy, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Judi Dench, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie, Ronald Pickup, Tena Desae, Liza Tarbuck Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin Roteiro: Ol Parker Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Blueprint Pictures / Fox Searchlight Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Participant Media

Cotação 3 estrelas

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