O homem que mudou o jogo (2011)

Por André Dick

O homem que mudou o jogo

Há determinados filmes que chegam aos cinemas brasileiros com uma possível aura de excessivamente focados na cultura norte-americana. O homem que mudou o jogo – ou Moneyball, o “jogo do dinheiro” – foi um desses. E nada mais injusto. Trata-se de uma das grandes obras lançadas em circuito este ano, capaz de colocar um roteiro de Steve Zaillian (A lista de Schindler) e Aaron Sorkin (A rede social, Questão de honra) como motivo para uma visão sobre o beisebol, esporte cultuado nos Estados Unidos – a comédia Amor em jogo, dos irmãos Farrelly, mostra bem isso –, mas, sobretudo, sobre as vitórias e perdas de qualquer competição. Se nos anos 80 tivemos o exemplo de O campo dos sonhos, em que um time de beisebol já morto reaparecia num campo construído em meio a um milharal pelo personagem de Kevin Costner, temos, desta vez, uma visão mais econômica, embora não menos humana, desse esporte.
A principal qualidade é a direção de Bennett Miller (Capote), que consegue reunir um trio de atores de grande qualidade: Brad Pitt, Jonah Hill e Philip Seymour Hoffman. Os dois primeiros foram indicados aos Oscars de ator e ator coadjuvante, respectivamente, em duas performances equilibradas. Pitt faz o manager Billy Beane, do Oakland Athletics, onde foi um jogador com expectativa para grande carreira, porém que acabou não correspondendo. Ele precisou passar por mais uma derrota no final da temporada, e ver a ida de estrelas para times de Nova York e Boston. Com o intuito de fazer negócios com jogadores, ele acaba procurando o Cleveland Indians, onde conhece Peter Brand (Hill), formado em Economia por Yale, cujo trabalho lhe interessa: ele faz um cálculo baseado na atuação de cada jogador, a fim de ver quanto cada um rende. Isso proporcionaria, para Beane, mais efetividade, acerto e, sobretudo, economia, pois permitiria investir em jogadores mais baratos no mercado, capazes de formar um time a princípio desacreditado, mas com potencial evidente para vitórias. Ninguém do clube acaba gostando da intromissão de Brand, pois mudaria o direcionamento de escolha dos jogadores – para Beane, a maneira como os olheiros enxergam o beisebol é antiquada.

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Beane é divorciado de Sharon (Robin Wright, que aparece numa ponta familiar e descompromissada), pai de uma filha adolescente, Casey (a ótima Kerry Dorsey, que aparece poucas vezes, porém acaba mostrando seu elo com o pai), e, apesar de viver dia a dia a rotina de treinos e o mau relacionamento com o treinador, Art Howe (Seymour Hoffman), que não quer nenhuma influência em seu time, acredita que pode vencer com o Oaklands. Um dos jogadores que ele procura é Scott Hatteberg (Chris Pratt), que, apesar do talento, não conseguiu ainda comprová-lo, e é colocado em desconfiança pelo técnico – a primeira visita de Beane à casa dele é simbólica dessa nova chance que deve ser dada.
Fazendo uma análise com números de possíveis jogadores novos, mas menosprezados por outros times, temos a análise que fundamenta O homem que mudou o jogo: a adaptação e a crença no potencial, que Billy Beane não conseguiu demonstrar quando jovem. Nesse sentido, o filme revela que alguém ligado a um esporte pode, na verdade, ser atormentado por ele – no sentido de que precisa lidar com expectativas que não conseguiu ou conseguirá confirmar. Beane não assiste as partidas ao vivo, nem pela televisão, preferindo refugiar-se com um rádio em sua caminhonete ou num cadeira da arquibancada de um estádio vazio – e sente-se uma espécie de esportista que não deve nunca acompanhar o time.
Suas brigas com o treinador vaidoso e sua dedicação incondicional ao esporte, ao mesmo tempo em que tenta manter um elo familiar, não só o seu e de sua família, como também o de seus atletas, é um dos belos conceitos que nos traz O homem que mudou o jogo. Ao mesmo tempo, a crença de que algo novo – as teorias de Brand – podem, num cenário de inovação, prosperar. É disso, aliás, que trata O homem que mudou o jogo: uma crença no que se coloca habitualmente à margem e é desacreditado. “Quem quebra o primeiro muro sempre sofre mais”, diz um diretor de clube.
O diretor Miller consegue, além disso, mostrar, em cenários apertados (os escritórios de Brand e Beane), os túneis, os vestiários, a pressão diante da grandiosidade externa, do campo e da torcida, dos corredores e escritórios com imagens de times históricos – com uma fotografia acertada de Pfister (responsável pela fotografia da trilogia de Batman feita por Nolan).

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Baseado em fatos reais, O homem que mudou o jogo consegue ser, ao mesmo tempo, um drama focado no esporte – e, para o brasileiro, é difícil não comparar determinadas situações com as de clubes de futebol brasileiros, principalmente na compra e venda de atletas em meio a campeonatos, o que rende a melhor cena em conjunto de Pitt e Hill, no escritório, tentando negociar um jogador que estaria prejudicando o time – e nas relações humanas, embora essas sejam inseridas no primeiro cenário.
O que surpreende nele é que, quando se falam em números e estatísticas, em maneiras de fazer o time com mais qualidade, está se falando do potencial também daqueles que se sentem intocáveis dentro de suas cabines. A pressão do estádio – com seus gritos que abafam a conversa no vestiário – pode ser a mesma da família, a qual Beane não quer, em momento algum, ceder, porém não sabe se terá potencial e talento para tanto. Ele é uma espécie de figura idealizada para um certo pessimismo, o que não é comum numa produção de Hollywood, com impasses indesejados para um herói a ser firmado. Pitt consegue emprestar certa nuance, embora esteja longe de estar em seu melhor papel – que fica entre O curioso caso de Benjamin Button, Babel e A árvore da vida –, mas é, sem dúvida, a sua presença que consegue transformar um filme que poderia ser reduzido a algo tedioso e monótono em uma narrativa mais acelerada. Hill, nesse sentido, consegue se estabelecer como um diálogo à altura, sobretudo quando convidado a demitir os jogadores com quem Beane não quer falar. Ele personifica a distância entre as estatísticas e, de fato, a ida a campo. E Hoffman, mesmo com poucas falas, consegue aliar bem a pretensão pessoal com a tentativa de chegar ao topo acreditando em quem realmente não acredita – é dele uma das melhores sequências, quando precisa tomar uma decisão que pode levar o time a um estágio importante da competição, sob a pressão de quem está no estádio ou longe dele.
Nenhum deles personifica uma tentativa de perfeição, apenas de convencer – os comentaristas do beisebol – que o esporte a que se dedicam merece um olhar novo – de quem, por meio de túneis e vestiários, consegue se desvencilhar do antigo. Entretanto, esse desvencilhamento nunca é total, como provam os próprios personagens de Beane e Brand ao final. São eles, afinal, que conseguem transpor esse muro e nos entregar um filme que fala da paixão em comum por um time, mas, em vez de ser unidimensional e fechado num estádio único, consegue ser universal.

Moneyball, EUA, 2011 Diretor: Bennett Miller Elenco: Brad Pitt, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Jonah Hill, Chris Pratt, Kathryn Morris Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Scott Rudin Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Mychael Danna Duração: 133 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Columbia Pictures / Scott Rudin Productions / Michael De Luca Productions

Cotação 4 estrelas e meia

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