Drive (2011)

Por André Dick

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O  ator Ryan Gosling fez três filmes de destaque em 2011: o drama Tudo pelo poder, a comédia Amor a toda prova (em que faz dupla com Steve Carell) e este Drive, um cult desde sua estreia. A interpretação de Gosling é performática como a trajetória que ele faz com o carro no início, pelo ambiente que cria e pelos movimentos de câmera do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (premiado no Festival de Cannes). Ela define o filme todo: não importa a ação, e sim as interrupções e a tentativa de analisar uma determinada situação com frieza; não importa o ritmo, e sim o magnetismo das imagens e da trilha sonora. É o que Drive mais oferece, mas não só. O motorista (sem nome) interpretado por Gosling atua na fuga de assaltantes à noite – com um talento raro para despistar carros da polícia e helicópteros. De dia, ele atua como dublê em filmes de ação, com uma máscara de látex para esconder seu verdadeiro rosto, e na oficina de Shannon (Bryan Cranston), a quem trata quase como pai, amigo de Bernie Rose (Albert Brooks) – ambos os atores excelentes. Com uma jaqueta dourada, tendo um escorpião às costas – um símbolo do personagem; em determinado momento, ele se refere à história da rã e do escorpião –, ele, talvez por participar de filmagens, parece ter dificuldades para ter uma personalidade própria: o palito no canto da boca e o olhar de quem guarda segredos que não podem ser ditos parecem mais clichês de justiceiros do cinema. De qualquer modo, o personagem não se torna superficial ou uma caricatura justamente por causa de Gosling, que consegue oferecer a situações cotidianas uma solidão que destoa do que faz (a caminhada pelo supermercado, por exemplo). Ele acaba se interessando pela vizinha de apartamento, Irene (Carey Mulligan), que tem um filho pequeno, Benicio (Kaden Leos). No entanto, ela aguarda seu marido, Standard Gabriel (Oscar Isaac), sair da prisão. Quando ele sai e toma de volta o lugar que estava sendo preenchido pelo motorista, já sabemos de antemão que a tranquilidade vai começar a desaparecer. No entanto, isso se dá de modo surpreendente (pois o personagem central não toma as atitudes que um personagem tomaria normalmente quando se vê prestes a ser deixado pelo interesse amoroso). Some-se o fato de o dono da oficina querer transformá-lo num piloto de corridas, apresentando-o a Bernie.

Drive.Filme

Drive.Ryan Gosling

O diretor Refn, com talento para elaborar um visual oitentista – desde os créditos, com um visual à la College (a banda que fez a canção “A real hero”, climática, que toca ao longo do filme), pela trilha sonora de Cliff Martinez, mas sobretudo em detalhes, como o xadrez vermelho no restaurante de Nino (Ron Pearlman), parceiro de negócios de Bernie,  a jaqueta do motorista e as cores intensas da passagem pelo supermercado –, traz para um clima de anos 80 um choque violento. Não sem antes passar por cafés bem iluminados, imagens de Coca-Cola ao fundo, apartamentos que parecem mais um ateliê de pintor, com iluminações detalhadas e corredores que lembram a caminhada de John Travolta e Samuel L. Jackson antes de fazerem o primeiro serviço de Pulp Fiction. Nada destoa, ou está fora de lugar. São como as ruas limpas de Los Angeles: o cenário não anuncia o aspecto caótico do filme de Refn. É como se efetuasse um salto dos anos 80 para os anos 90 de Tarantino e Pulp Fiction. No entanto, a violência de Drive é ainda mais intensa e muitas vezes se desvia o olhar da tela.
O personagem do motorista deseja uma família, o que vê em Irene e Benicio e, por ingenuidade ou não, quer ajudar Standard.  No entanto, parece que ele faz isso justamente para suprir o que lhe falta: dublê de Hollywood e comedido por natureza – na primeira hora dificilmente se vê ele dizer alguma palavra e mesmo o envolvimento com a vizinha parece muito mais idílico e platônico do que realmente interessado –, dando vazão ao personagem que representa de modo decisivo, mas acrescido de mais ação. Não por acaso, numa cena decisiva passada no elevador, ele se desloca de uma imagem romântica, idealizada por Hollywood, numa notável câmera lenta, para uma cena chocante. Para ele e os justiceiros do cinema, oferecer balas de revólver a uma criança também é imperdoável.
Se o filme se inicia numa cena de assalto e cada despiste do personagem da polícia é visto pelo espectador como um talento dele em escapar, logo o filme ingressa numa trilha sonora anos 80, que mais lembra mais os de filmes de John Hughes. Em seguida, torna-se uma espécie de drama romântico, destacando as cores de luzes fosforescentes da oficina onde o motorista trabalha; de abajures do apartamento da vizinha; até uma das cenas mais solitárias do cinema recente: a do motorista consertando uma peça de carro em sua mesa enquanto ao lado a vizinha faz uma festa para recepcionar o marido que saiu da prisão. E, finalmente, quando tudo parece se encaminhar para uma aceitação do motorista como um futuro herói de corridas, num campo pintado como tal, o filme sofre outra transgressão busca, e segue nela o restante de sua metragem – mesmo que, nessa pressa, alguns personagens fiquem prejudicados,  como os de Shannon e de Irene.  Esses contrastes são permanentes ao longo de Drive.

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Drive.Filme 5É significativa a cena, por exemplo, em que o personagem central está no sofá vendo televisão com Benicio (depois de carregá-lo pelo corredor do edifício, em cena que se complementa ao final, com sua ida a um clube, focando-o de costas) – ele pergunta ao garoto como ele sabe que o tubarão do filme que assistem é mau; e e ele diz que é porque ele “ataca pessoas” –, quando vê Irene conversando, ao telefone, com o ex-marido e sabe que aquela visão familiar pode terminar. Tudo no personagem do motorista está por um fio, mas, quando ele percebe que entrou num lugar para não conseguir voltar, é com dedicação que ele mostra seu ofício não mais de dublê, e sim de participante real de cada cena.
A cena de perseguição depois de outro assalto que acontece é notável, remetendo a outra, sem a mesma intensidade, de Instinto selvagem. Essa mistura de gêneros no mesmo filme é surpreendente, à medida que o personagem, depois de longos minutos de pausa e quase total silêncio, começa a mostrar uma espécie de desespero que se conteve durante toda sua trajetória. Gosling, nesse sentido, consegue extrair o máximo de poucas linhas de diálogo. Pouco sabemos do passado do personagem, apenas que ele chegou a Los Angeles e foi pedir emprego na mesma oficina onde trabalha (sendo ainda mais misterioso, por exemplo, do que o personagem central de Marcas da violência, que queria ser algo que nunca havia sido). E o arrependimento passa a ser o mote do filme. Ou seja, o limite até onde o personagem deve ir para que não saia do próprio clichê do cinema que representa. Ele seria um “real hero” – como diz a canção do College? Ou apenas um assassino vingativo?
Nesse ponto, esta obra de Refn se torna referencial por sua tentativa de realidade estetizada e por mostrar a confluência entre o cinema e a vida real.

Drive, EUA, 2011 Diretor: Nicolas Winding Refn Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman, Kaden Leos, Jeff Wolfe, James Biberi Produção: Michel Litvak, John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker, Adam Siegel Roteiro: Hossein Amini Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: Cliff Martinez Duração: 100 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Bold Films / Odd Lot Entertainment / Marc Platt Productions / Seed Productions / Drive Film Holdings / Motel Movies

Cotação 5 estrelas

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