O portal do paraíso (1980)

Por André Dick

O épico mais famoso da década de 80 e responsável por falir a sua distribuidora, United Artists, comprada em seguida pela rival Metro-Goldwyn-Mayer, está sendo lançado em nova versão pela Criterion, dos Estados Unidos, em DVD e Blu-Ray.
O diretor Michael Cimino, depois de ter recebido cinco Oscars pelo drama O franco-atirador, inclusive de melhor diretor, queria fazer o maior faroeste de todos os tempos. Mal recebido pela crítica e público americanos (que deixou apenas 3,5 milhão nas bilheterias, para um custo de 44 milhões), fez uma versão inicial de 219 minutos, mas, depois de críticas precipitadas, a remontou para 149 minutos (que passou nos cinemas e passa ainda na televisão), prejudicando a narrativa de forma decisiva. Pode-se ver a versão estendida em DVD importado, com tradução para espanhol e francês (a da Criterion surge com 216 minutos). Trata-se de um dos maiores filmes já feitos, que revelou alguns atores (como Mickey Rourke), trazendo um grande elenco (Jeff Bridges, John Hurt, Isabelle Huppert, Sam Waterston, Geoffrey Lewis, Brad Dourif, entre outros), porém essa qualidade fica clara sobretudo na versão estendida.
Com um roteiro de própria autoria, Cimino constrói um faroeste que se alimenta mais de introspecção do que de tiros (embora eles marquem presença), reconstituindo o estado de Wyoming, no ano de 1890, com a fotografia excepcional de Vilmos Szigmond (Contatos imediatos do terceiro grau).
A história (daqui em diante, há spoilers) tem início em 1870, mostrando o jovem personagem central, James Averill (Kris Kristofferson), atravessar justamente um portal, quando a câmera desce lentamente e o foca correndo pela rua, atrás de uma banda, que se dirige a um anfiteatro enorme, com várias pessoas aguardando os formandos de uma turma de direito de Harvard. Um reverendo doutor (Joseph Cotten) faz um discurso, tratando, entre outras coisas, da “educação de uma nação”. Ele é seguido pelas palavras do melhor amigo de Averill, Billy Irvine (John Hurt), que será seu contraponto – bêbado, ele fala que a vida se repete, o sol sempre se põe no oeste e o ciclo das estações perdura – tentando rimar as palavras. De alguma maneira, esse discurso de Irvine, em associação com o do reverendo doutor, sustenta toda a narrativa que vem a seguir. No púlpito, cercado de centenas de estudantes, e sob o olhar irônico dos professores e os gracejos das moças olhando para os formandos, Irvine é o retrato da glória momentânea, o que é a síntese para O portal do paraíso.

Billy Irvine (John Hurt) faz o discurso para os formandos de Harvard, em 1870.

James Averill (Kris Kristofferson) assiste ao discurso.

Depois da formatura, a dança ao redor de uma árvore no centro do pátio de Harvard.

Na festa de formatura, vemos um pátio com inúmeros casais dançando, ao som de “Danúbio Azul”, de Strauss, o que remete à grandiosidade de …E o vento levou, talvez a maior referência do filme em seus cenários, e a 2001 – na composição de um cenário notável. Averill está interessado numa moça, que observa o grupo de jovens formandos, depois, de uma janela, ao redor de uma árvore gigante no centro do pátio de Harvard. Irvine lamenta-se com ele: “Não acredito que esteja tudo terminando”. O círculo recomeça.
Num salto temporal memorável, Cimino mostra Averill vinte anos depois, indo para Casper, com vários imigrantes em cima do trem, representando, ao mesmo tempo, a falta de espaço que havia no Velho Oeste para eles.
A chegada dele se contrapõe à presença de Nathan Champion (Walken, ator preferido de Cimino) atirando num homem que corta carne (Scorsese homenagearia Cimino em Gangues de Nova York), Martin Kovach, numa casinha do interior. O espectador vê o horizonte pelo buraco (cuja passagem, na lente de Cimino, sempre lembra um portal) que atravessou o lençol (neste ponto, deve-se lembrar que Tarantino disse, no Festival de Cannes, em 2009, que havia se inspirado nesse filme para compor boa parte de Bastardos inglórios, e realmente a casa no meio do campo do início do filme de Tarantino remete a esta sequência, com uma das filhas do fazendeiro LaPadite a ser interrogado olhando atrás do lençol a chegada da tropa nazista). Depois, Champion segue até uma estrada em que chegam centenas de imigrantes, gritando que eles voltem ao lugar de onde vieram. Num curto espaço de tempo, Cimino determina a participação dos dois personagens principais e o foco da história.

 Nathan Champion (Cristopher Walken) atinge o camponês Kovach e seu rosto é visto pelo rasgo da bala no lençol que o separava da vítima – uma ameaça por trás do lençol, como a chegada de Hans Landa à fazenda onde interrogará LaPadite em Bastardos inglórios.

 

A chegada de Averill a Casper, Wyoming, marca o dia em que fica sabendo que a Associação dos Criadores de Gado – aliado ao governo norte-americano –, tendo à frente Frank Canton (numa bela interpretação de Sam Waterston), está tratando de uma lista de morte de 125 imigrantes do condado de Johnson, de onde ele é xerife, pois a situação no lugar estaria comprometida, em razão da constante chegada de novos imigrantes e do roubo deles de gado para poderem se alimentar.
“Sou uma vítima de nossa classe”, diz Billy ao reencontrar Averill na Associação. As leis do Oeste não são aquelas que o próprio Irvine pregava no seu discurso de Harvard: estão a serviço dos governos, o que para ele justifica a passividade.
Averill luta, mesmo que muitas vezes de forma insolente e displicente (também passa a beber muito), para ajudar os imigrantes – do Condado de Johnson, no Wyoming –, ameaçados de morte pelos criadores de gado. Envolvido com a prostituta Ella Watson (a francesa Isabelle Huppert), em cuja fazenda funciona um bordel, ele tem como opositor justamente Champion, também amante dela.
Como pano de fundo, dividido entre salvar sua pele, a de Ella – que descobre estar na lista de morte, pois também recebe gado em troca de serviços no seu bordel – ou a dos imigrantes, Averill é amigo especialmente de um deles, John L. Bridges (Jeff Bridges).

Para estabelecer uma nova relação com a fundamental primeira parte do filme, novas cenas de dança acontecem num salão chamado Heaven’s Gate (onde os imigrantes também se reúnem), no Condado de Johnson, remetendo tanto à primeira parte, transcorrida na formatura de Harvard, quanto a um universo ainda romântico, em que as pessoas ainda se divertem, numa oposição à violência. A cena dos casais de patins é antológica, assim como a do menino violinista, que vive no bordel e é interpretado pelo autor da trilha sonora do filme David Mansfield, e não por acaso remete a Um violinista no telhado, em que Norman Jewison (que inclusive foi convidado a assumir O portal do paraíso quando os produtores se preocupavam com o resultado de Cimino, e não aceitou) mostrava uma família de judeus na Rússia. O portal do paraíso tem alguns elementos daquele, por isso, possivelmente, os homens a serviço da Associação usam gorros como os russos usavam. Há uma de perseguição dos norte-americanos, em nome da liberdade e da extinção de anarquistas – de pessoas que podem ameaçar seu poder ou sua constituição. Mas nesta primeira parte de O portal do paraíso os imigrantes não sabem do que acontecerá, e se divertem.

Dança dos imigrantes no Heaven’s Gate antes de ser anunciada a batalha.

Como contraponto dessa busca pelo espaço no Velho Oeste, Cimino explora a cultura dos imigrantes e a natureza de Ella, que se diverte passeando com uma carruagem trazida por Averill e se banhando no lago – a sequência em que eles dançam sozinhos, saem do Heaven’s Gate e caminham até um lago é uma das mais belas da história do cinema, numa sequência compassada: primeiro, a diversão humana (dos imigrantes), depois a dança solitária do casal Ella e Averill (diante da banda) e, em seguida, a caminhada até uma paisagem que lembra um portal para o paraíso. Estranhíssimo é não verem o sentido de toda essa sequência – e acharem que Cimino estava filmando o vazio.

Violência e história

Ao mesmo tempo, a violência comparece em muitos momentos de O portal do paraíso, constituindo-se também em sua estrutura: na cena em que Walken adentra uma barraca e atira à queima-roupa num federal, impactante. Também quando Averill precisa salvar Ella – e realiza uma sequência de ação implacável. Ou na batalha final – filmada com realismo impressionante. É evidente que Cimino não está interessado em glorificar o espírito do Velho Oeste, e também por isso, talvez, seu filme não tenha sido bem aceito (uma vez que os americanos ainda se sentiam derrotados e culpados pelo Vietnã no início da década de 80). Focar eslavos sendo castigados também poderia remeter à Segunda Guerra Mundial, o que não é nada interessante para a recomposição de um país.

No início, ouve-se de uma imigrante: “E dizem que este (os Estados Unidos) é um país livre”. “Saiam daqui, voltem para seus países”, diz um americano. Em outro momento, numa discussão entre imigrantes, um deles fala como os pobres são tratados mal pelo país. Cimino revela a descoberta da lista de morte ser descoberta por James Averill com o capitão Minardi (Terry O’Quinn, que faria John Locke em Lost) num jogo de beisebol. Lista de morte num jogo de beisebol jogado na terra e sob poeira revela que Cimino não estava querendo contemporizar diante do tema do tema a ser tratado. Desse modo, o filme tira qualquer imagem subliminar desse período da história americana. De qualquer modo, alguns personagens enfocados são históricos e o filme é fiel dentro dos limites cinematográficos (Roger Ebert ironiza, por exemplo, o destino do personagem de Champion, mas ele é baseado, em parte, em fatos reais). De fato, essa não glorificação é a principal base de O portal do paraíso para seu sucesso como produção, e fracasso inicial como recepção.
Ao assistirmos, vemos onde está empregado cada dinheiro investido. Cimino, por seu perfeccionismo, mandou reconstruir vários cenários, além de ter exigido a criação de alguns deles em tamanho real e impressionante (como a própria cidade de Casper). Como lembra Peter Biskind, em Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, Cimino “construía, demolia e reconstruía sets e mandava vir multidões de figurantes” e o orçamento, que previa um ritmo de duas páginas de roteiro por dia logo não se manteve, passando rapidamente de 11 milhões. Ainda assim, Cimino não se conteve: rodava, segundo Biskind, “dez, vinte, trinta tomadas de cada cena e mandava revelar quase todas, dez mil pés [mais de três mil metros] de filme por dia (correspondendo a um custo de 200 mil dólares por dia ou cerca de um milhão por semana”. Os chefões Steve Bach e David Field visitaram o set para pressionar Cimino. No entanto, como conta Biskind, “quando ele lhes mostrou um corte bruto, os dois ficaram deslumbrado com a beleza das imagens – e se dobraram. ‘É como se David Lean tivesse resolvido dirigir um western’, Bach diria depois, maravilhado, a Albeck”. A partir disso, em vez de enquadrarem o diretor, eles o parabenizaram. Um executivo da United Artists, Chris Mankiewicz, demitiu-se em protesto contra a avaliação feita. Cimino fazia parte da geração da Nova Hollywood, que tinha à frente nomes como o dele, de Spielberg, Francis Ford Coppola, George Lucas, William Friedkin, Martin Scorsese, entre outros – e depois de seu filme, de algum modo, os produtores de Hollywood retomaram o controle sobre um nomeado cinema autoral.
Se os custos compreendem o resultado, basta ver o filme – a justificativa de deslumbramento com a beleza das imagens só não chegou à crítica da época do lançamento. O desembarque de Averill em Casper é especialmente espetacular. O trem que chega a cidade é de um realismo notável, e as ruas estão repletas de pessoas, com muita poeira, como se estivéssemos realmente no Velho Oeste e não numa produção de Hollywood, tentando deixar as imagens limpas, com o figurino de J. Allen Highfill, a direção de arte notável de Tambi Larsen (que rendeu a única indicação ao Oscar do filme, também indicado à Palma de Ouro em Cannes em 1981), e a fotografia fundamental de Szigmond. Não são mais os alunos de Harvard dançando ao redor das árvores e imaginando que podem mudar o mundo com suas leis, e sim pessoas brigando e indo comprar armas. Tal sequência, que dura em torno de 5, 6 minutos, é de uma beleza poucas vezes repetida no cinema. Essas são curiosidades para o espectador que acompanha a história. Entretanto, o melhor são mesmo os personagens e o roteiro, que sempre atraem.

Em 1890, James Averill está num vagão de trem, em direção a Casper, Wyoming.

Os imigrantes chegantes ao Wyoming, em suas carroças ou a pé, numa estrada empoeirada.

 James Averill desembarca em Casper e conversa com Cully (Richard Masur), que cuida da estação de trem.

Cidade de Casper, Wyoming

Os personagens e o portal

O bordel de Ella é focado a distância, muitas vezes no breu, e à noite, com os lampiões acesos, permite a Szigmond uma fotografia espetacular; o bar de John L. Bridges tem sempre raios de luz entrando pela janela, tentando iluminar a escuridão que está tomando conta do lugar; o Heaven’s Gate tem uma iluminação dourada; o lago à beira do Condado de Johnson esconde montanhas gélidas ao fundo, com resquícios de sol aparecendo entre elas e as nuvens;  a cabana de Nathan em meio a um campo aberto simboliza a quase ausência de vida em toda a região. Podemos sentir a ambientação e o clima dos lugares ao longo de todo O portal do paraíso.
O símbolo do portal (o “gate” do título original, bastante polêmico também por ter sido empregado numa época política tensa dos Estados Unidos; lembre-se o caso Watergate, envolvendo Nixon), e da porta, é presente em todo o filme: seja no início, quando Averill corre e atravessa um, correndo em direção aos formandos; seja quando ele está na Associação e se prepara para encontrar Canton; quando Champion chega, pela primeira vez no filme, no bordel de Ella e vai colocar seu cavalo no celeiro; quando ele mesmo, em momento decisivo, precisa sair de sua cabana; mesmo os cenários (a fazenda de Ella, a Igreja do Condado, o lago) são visualizados entre dois pontos, como se fossem um portal; o próprio salão Heaven’s Gate, com seus portais para o excesso de pessoas (constituindo-se, em determinada altura, quando é feita a leitura de quem é ameaçado de morte, em uma espécie de limbo, de passagem); e a casa de Ellen, ao final. Também vemos que Cimino coloca o portal ou a porta como definidor para os personagens centrais: Ella, James e Nathan. Inclusive, o destino de cada um está ligado à passagem por uma portal ou porta.

James Averill atravessa o portal correndo para encontrar sua turma de formandos de Harvard.

A banda de formatura de Harvard passa por um portal antes de chegar ao auditório.

Na Associação dos Criadores de Gado, James Averill se posiciona embaixo de um portal, com Billy Irvine ao fundo, para enfrentar os integrantes dela.

Entre a casa de Ella e o celeiro, vê-se  a paisagem, como se fosse, ao fundo, um portal para as árvores.

James Averill presenteia Ella Watson com uma charrete em frente ao portal do celeiro.

James Averill e Ella Watson dançam no Heaven’s Gate em frente a uma portal.

James e Ella saem do Heaven’s Gate.

O casal caminha até um lago de onde veem o sol entre as montanhas e abaixo na charrete.

O Condado de Johnson, com as montanhas ao fundo.

Além do símbolo do portal, há os círculos que denotam o início e o fim da vida, como a mudança da estação. Vemos círculos quando os casais dançam ao redor da árvore na formatura de Harvard; quando os imigrantes se reúnem no Heaven’s Gate batendo palmas para o violinista de patins, antes de começarem também a dançar, em círculos; e, finalmente, na Guerra do Condado de Johnson, ao final, quando parte da batalha é travada em movimentos circulares.
Não há, no roteiro de Cimino, nenhuma retórica eloquente, ou seja, os personagens não tentam convencer o espectador a respeito de suas ações. Não são predefinidos, ou previsíveis. O mesmo pode ser dito em relação ao plano religioso. No início, há uma banda para os formandos de Harvard, que está tocando “Glória, Glória, Aleluia”, mas, se há uma igreja no Condado, onde vemos reunidos, à frente, alguns imigrantes quando Ella e James andam de charrete pelas ruas lamaçentas, os personagens nunca estão nela, embora se refiram a Deus, sobretudo Champion e os imigrantes. James parece descrente, como se a lei divina se confundisse com a lei do direito, na qual não acredita mais. Em direção à casa de Ella, passa um casal em outra carroça, e a mulher comenta que Averill deveria ir à igreja e não a um bordel. Os imigrantes, também, estão roubando o gado para alimentarem suas famílias, embora alguns para pagar por prazeres no bordel de Ella. Quando Champion leva Averill, bêbado, de volta ao seu quarto no Condado, ele acende uma lamparina e visualiza a imagem, num porta-retrato, de estudante do xerife, com a mulher que dançava na formatura, os dois em pé, ao lado de uma árvore, e a seu lado visualizamos um exemplar de Dante. A questão não é saber se o exemplar é da Divina Comédia – que estabeleceria uma ponte direta com o paraíso que Cimino oferece por meio de seus portais –, e sim o motivo pelo qual o diretor coloca justamente Dante para ser lido por um xerife. A imagem dele com a antiga moça – dos tempos de juventude – é o mote: para Averill, a moça é sua Beatriz, que recorda seus dias de juventude, mesmo que esteja amarrotado num quarto do Velho Oeste. Pois este homem é, acima de tudo, melancólico e vive do passado, incapaz de se reter no presente, nem sob a ameaça de uma guerra e de um extermínio (o inferno).
Existe, também, durante toda a narrativa, que basicamente é bastante linear, a impossibilidade de cada personagem decidir o rumo de suas vidas. Averill é mais contido do que Champion, e Ella se situa num meio termo entre os dois. Se Averill não consegue esquecer sua namorada de Harvard, Champion quer ter a nobreza de Averill (a cena em que coloca o chapéu do adversário é notável, também pela atuação de Walken) e o amor de Ella, equilibrando-se entre o desejo de servir os pedidos para se matar os imigrantes que roubam o gado da região e seguir um novo rumo. Porém, quase tudo transcorre em poucas falas e diálogos.
Toda a sequência em que Champion apresenta Ella à sua casa é notável (é dela que participa Mickey Rourke). Os pedaços de jornais colados nas paredes – para parecer alguém preocupado também com o intelecto, pois Nate gostaria, na verdade, de ser Averill, e que se correspondem com as paredes do Heaven’s Gate – formam uma cabana pouco comum de faroeste. A tentativa de ele limpar a mesa é outra. Ele tem um interesse em anotar num caderno e pela cultura – que parece saturada para Averill –, e notamos isso, por exemplo, quando ele pergunta do fotógrafo que está no Condado e em determinado momento vai ao bordel de Ella.
E Averill, impassível, guarda o orgulho de querer achar suas botas e não quer ser incomodado no café da manhã por imigrantes, mesmo sabendo que o desastre se aproxima, cada vez mais distante o tempo de Harvard. Alguns homens desconfiam porque ele está engajado nesta batalha, já que é de origem rica, o que Nathan gostaria de ser. Mas ele acha que colocar sua pele em risco é, apesar da falta de agilidade, uma premissa certa. Essa falta de vontade de se deparar com um dos momentos mais violentos da história norte-americana torna o personagem, em sua mudez, em sua imobilidade, no retrato perfeito do desalento do Velho Oeste (algo que Clint Eastwood tentaria repetir, sem o mesmo brilho, embora com qualidade, em Os imperdoáveis). Ou seja, ele também é o contrário do que se espera de um faroeste com algum sentido de justiça ou vingança.

E Cimino guarde a maior surpresa para o final, quando acaba lembrando, novamente 2001, mostrando James Averill mais velho e comportado na proa de um navio – o sol está ao fundo, quase desaparecido –, depois do inferno e do purgatório, dirigindo-se a um quarto, decorado como se fosse de outro século, e uma mulher deitada numa poltrona. Por um momento, pensamos ser a mulher da universidade, um pouco mais velha, ainda que não tanto quanto Averill. Quando ele a olha novamente, vê o rosto da moça jovem de Harvard. Pois o filme trata, antes de tudo, de uma tentativa de voltar à juventude e ao vigor, mesmo que tenham já passado, ficando para trás no tempo. Como diz Irvine no filme, o sol não se põe apenas no Oeste. E a Beatriz de Averill pode não ser mais ela, mas tudo o que ele perdeu ou deixou para trás. Ela é, sem dúvida, o seu monolito negro.
Daí O portal do paraíso ser um épico sem precedentes e impossível de ser copiado – desta vez da melhor maneira.

Heaven’s gate, EUA, 1980 Diretor: Michael Cimino Elenco: Kris Kristofferson, Cristopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Sam Waterston, Brad Dourif, Joseph Cotten, Jeff Bridges, Mickey Rourke Roteiro: Michael Cimino Fotografia: Vilmos Szigmond Música: David Mansfield Montagem: Tom Rolf, William Reynolds, Lisa Fruchtman, Gerald Greenberg Direção de arte: Tombi Larsen Produção executiva: Dennis O’Dell, Charles Okun, William Reynolds Produção: John Carelli para a United Artists  Duração: 149 min./219 min./216 min. Distribuidora: United Artists

Cotação 5 estrelas

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2 Comentários

  1. Um dos melhores textos sobre esse filme que eu já encontrei (e não li poucos rs).
    Parabéns pelas observações.
    Abraço.

    Responder
    • André Dick

       /  19 de abril de 2017

      Prezado Diones,

      agradeço por seu comentário generoso sobre esta crítica, principalmente porque é um dos meus filmes favoritos. Fico feliz de encontrar outro apreciador desta obra-prima de Cimino.

      Volte sempre!

      Um abraço!
      André

      Responder

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