007 – Operação Skyfall (2012)

Por André Dick

Desde Cassino Royale, Daniel Craig oferece um novo olhar sobre as aventuras do agente secreto James Bond, o 007, personagem criado por Ian Fleming. Depois de décadas alternado entre atores como Sean Connery, Roger Moore, George Lazenby (que fez apenas um filme), Timothy Dalton e Pierce Brosnan (o mais bem-humorado é, sem dúvida, Moore), parece que o agente que trabalha a serviço da Inglaterra encontrou o mais próximo de uma possível realidade – se há realidade no que ele consegue fazer, de todas as maneiras – e de uma tentativa de humanizá-lo. Se em Cassino Royale, isso funcionou de maneira quase perfeita (poucos filmes tem o terceiro ato como o daquele, apoiado no duelo entre Craig e Eva Green), e o  segundo com o ator (Quantum of solace) teve mais críticas do que elogios, neste Operação Skyfall, o personagem parece voltar novamente para deixar a figura de Craig impressa como a de fato um 007 histórico.
Apoiado desta vez pela direção do oscarizado Sam Mendes (que esteve à frente de Beleza americana e fez filmes interessantes depois, como Estrada para perdição e Foi apenas um sonho), Craig consegue, desde o início, combinar ação – a sequência inicial é não menos do que extraordinária, deixando uma briga de trem com Tom Cruise no primeiro Missão impossível, de De Palma, certamente para trás, com a presença destacada de outra agente, Eve Moneypenny (Naomi Harris) – e o ímpeto de violência e determinação que move o personagem. Se ele era mais contido (na medida certa) com Sean Connery e trazido para uma diversão descompromissada, mas essencial, por Moore, tendo essas características bem mescladas por Brosnan, em Craig ele finalmente encontra sua vertente mais voltada para os filmes de ação moderno, ainda que não menos conflituosa. Este James Bond de Craig, apesar de suas ações serem mais espetaculares, parece, na verdade, o menos situado num universo em que apenas se movimentariam as personalidades mais importantes do mundo. Refugiar-se numa praia, para este 007, é o melhor caminho para simplesmente ganhar um tempo, dos problemas políticos da Rainha, na ameaça ao MI6, e Mendes consegue, desde o início, com um James Bond pálido e com barba para fazer, mostrar a sua tentativa de se desvencilhar do passado. Mas o passado também lhe traz M (Judy Dench), que o direciona para as missões e em relação à qual se comporta como filho – “Aqui que você não vai dormir”, diz ela em seu apartamento, quando conta a Bond que o dele foi vendido. “Quem mandou não avisar que estava vivo?”.

Uma espécie de repreensão familiar é o que precisa Bond, indisposto a ouvir a palavra Skyfall numa análise psiquiátrica em que se analisa se pode voltar a atuar como agente secreto ou se está ficando velho demais. No início, a perseguição se dá porque foi roubado um disco rígido com os nomes de agentes secretos da OTAN, o que pode colocar em risco vários espiões e o cargo de M, que já está ameaçada pela aposentadoria, pressionada por Gareth Mallory (Ralph Fiennes), presidente do Comitê de Inteligência e Segurança. Bond, na missão, indefine-se entre continuá-la ou salvar um companheiro de time, e depois sente-se traído por uma decisão que compromete o desfecho, sendo que Mendes coloca essa questão como uma real tentativa de dimensioná-la, mostrando um agente, acima de tudo, com sentimento de culpa e raiva, embora saiba que sua missão seja matar.
Colocado novamente em ação, 007 vai até Shangai – em que precisa enfrentar um inimigo no alto de um prédio, com uma direção de arte neon, meio oitentista, misturada com a visão de um quadro de Modigliani – e depois a Macau – onde precisa ir a um cassino, na sequência em que o filme mais lembra Indiana Jones e o templo da perdição –, conhecendo uma ex-prostituta, Sévérine (Bérénice Marlohe), que poderá levá-lo a Raoul Silva (Javier Bardem, que parece misturar os trejeitos apresentados em Onde os fracos não têm vez com os de conquistador em Vicky Cristina Barcelona), que sente ao mesmo tempo admiração e repulsa por M. É interessante como o filme, antes de ser apresentado ao vilão, prefere destacar a direção de arte de Dennis Gassner (de filmes antológicos dos irmãos Coen, como Barton Fink e O homem que não estava lá), realmente uma das melhores da série 007, em colaboração com a fotografia de Roger Deakins (também habitual colaborador dos Coen). No entanto, esse cuidado primoroso com a ambientação parece não combinar diretamente com a história, ou seja, ela parece ainda com um certo rumo indefinido – é certo que mostrando Bond sendo avaliado por suas falhas –, com uma sequência de diálogos que nada traz de novo, ou seja, é muito inferior àquela mostrada em Cassino Royale, por exemplo. Com a entrada do vilão, parece que há uma reviravolta na história (mesmo que este seja um 007 menos difícil de ser entendido, ou seja, sem tantas idas e vindas na trama), e Sam Mendes parece finalmente encontrar o ritmo que havia apresentado no início, esquecendo completamente o que não é forte desde o início (os diálogos), preferindo se concentrar na tensão entre os personagens, principalmente entre Bond, Raoul Silva, M e um outro personagem decisivo na hora final, simplesmente espetacular. Há tanta ação e com realismo impressionante que até faz esquecer a psicologia forçada de Raoul quando este tenta explicar por que pretende se vingar de quem o teria feito sofrer no passado.

Parece que Mendes teria confessado uma certa influência do Batman de Cristopher Nolan na realização deste filme. É, sem dúvida, o filme da série que melhor revela o sentimento do agente em relação ao seu passado, inclusive nos cenários derradeiros. E talvez a escuridão das cenas derradeiras evoquem Batman. De qualquer modo, é também certo que Mendes consegue utilizar cenários naturais de forma mais efetiva, situando a ação realmente num ambiente próprio e real – na sequência entre Shangai e Macau – e apresenta a violência de forma mais realista e menos reverencial, mostrando, de maneira mais contundente, as consequências dela para cada personagem.
Outro elemento particular deste Operação Skyfall é situar James Bond como alguém mais próximo da aposentadoria do que do sentimento de revitalização juvenil. Nele, as lutas e perseguições já causam um sentimento de exasperação e finalidade, e ele parece menos interessado em festas e relacionamentos e mais numa aproximação daquela que pode ser o que Eva Green seria em Cassino Royale. E Mendes mostra que agentes secretos estão sendo colocados em dúvida – não há uma definição muito certa para isso, mas Fiennes faz de Gareth um personagem ambíguo na medida certa –, sobretudo num mundo em que tudo parece acontecer diante de uma tela de computador, como tenta convencer Raoul Silva aos seus seguidores e mesmo o jovem gênio que providencia as novas invenções de 007, Q (Ben Whishaw), que diz, com arrogância juvenil, a Bond: “Causo mais estrago no mundo na cama, de pijama, em meu computador do que você em campo”. Certamente, vendo Operação Skyfall, James Bond transcende qualquer campo de ação – sua velhice e seus ressentimentos são, de fato, a humanidade que a série quis mostrar desde seu início, e conseguiu raras vezes como aqui.

Skyfall, EUA/Reino Unido, 2012 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Ralph Fiennes, Albert Finney, Ben Whishaw, Rory Kinnear, Helen McCrory Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: David Arnold Duração: 145 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Sony Pictures Entertainment / Albert R. Broccoli’s Eon Productions

Cotação 4 estrelas

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3 Comentários

  1. Gostei da critica, de fato houve influencia dos Batmans de Nolan (em seqüências de ação, principalmente a de Londres quando Silva e seus capangas iniciam um tiroteio no julgamento, onde se vê presente o “efeito bola de neve” tão cultuado por Nolan, em seletas partes da trilha e até na preferencia do diretor por efeitos manufaturados, IMAX e 3D) na construção do longa, cujos principais aspectos você perfeitamente expôs na análise. Parabéns, uma das melhores criticas desse 007 que já li.

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    • Prezado Mujaf,

      Agradeço por suas palavras a respeito da crítica. Você observa bem outros elementos de Nolan e de Batman que influenciaram este 007 de Sam Mendes. O próprio afastamento de Bond no início remete ao de Bruce Wayne no terceiro Batman, precisando voltar à ação também para reencontrar seu passado. E ambos os filmes têm um cuidado especial com a parte técnica (não sei de qual, nesse sentido, gosto mais).

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Acima quis dizer a preferencia do diretor em não usar o 3D, tal como Nolan.

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