Cosmópolis (2012)

Por André Dick

Depois de um lançamento sem grande receptividade no Festival de Cannes, Cosmópolis, do cineasta canadense David Cronenberg, trilhou o caminho das produções mais restritas: passou em pouquíssimos cinemas, tanto no exterior quanto no Brasil (a boa notícia é que está sendo lançado logo em DVD e Blu-Ray). Trata-se de uma das obras mais instigantes do ano e, ao mesmo tempo, mais problemáticas, baseada no livro de Don DeLillo, que trata de um dia na vida do jovem milionário Eric Packer. Desde o início, quando ele diz a seu chefe de segurança, Turval (Kevin Durand),  que irá cortar seu cabelo no outro lado da cidade de Nova York, quando esta atravessa um dia conturbado – a passagem do presidente (“Que presidente?”, pergunta Packer), a morte de um rapper, Brutha Fez, que o milionário idolatra, tendo uma de suas canções como música de seu elevador –, Packer é o símbolo das finanças: ele precisa ficar perto dos gênios mais jovens do que ele, para se alimentar da criatividade alheia, mas ao mesmo tempo quer um afastamento de tudo, mesmo das mulheres com quem tem relações na ida para o cabeleireiro. A primeira é Didi Fancher (Juliette Binoche, numa ponta eficiente), que estende, no chão da limusine, suas mãos até os sapatos do amante, e há nesse detalhe uma espécie de síntese do fetiche por objetos. Ela dá conselhos sobre compras no mundo das artes – e Packer quer comprar a Capela Rothko por achar que cabe em sua sala. Paradoxalmente, ele não consegue ter relações com a mulher com quem casou, Elise Shifrin (Sarah Gadon), uma milionária que se diz poeta e imprime ainda mais estranheza ao filme. Ela não deseja Packer, quer apenas se esconder no fundo de uma biblioteca, com um livro, e fala como se recitasse versos – ela quase murmura seus diálogos, num tom enigmático e solene –, além de fumar fazendo pose na frente de um teatro, emulando uma pretensa solidão. É quase um complemento aos diálogos ditos em tom monocórdio por Pattinson (numa surpreendente atuação), que se dirige aos outros com desprezo e cinismo inabaláveis.

Cronenberg filma seu cotidiano na limusine com cuidado especial. Cada computador que se abre dentro do veículo e cada espaço que parece surgir entre os bancos mostra um universo em constante movimento, mesmo que num espaço exíguo. Corresponde-se diretamente com o que teorizam os personagem, falando em faturamentos, nanossegundos, experiências solitárias, ratos como moedas de troca, dinheiro como moeda de troca de vidas e com o que acontece fora dali, como o abalo na moeda chinesa, o yuan – em que  Packer apostou –, depois de um atentado ao vivo, pela TV. Nessa limusine, o milionário também atravessa seu momento mais constrangedor, pelo polêmico exame de próstata. Entretanto, a sequência é tão bem interpretada e efetiva para o andamento da história – sendo seu conceito o que define o próprio personagem –, que parece ser aquela que define a mescla pretendida por Cosmópolis: uma interpretação da realidade, de forma simbólica, e um adensamento de críticas a um certo modo de comportamento. Por que um jovem milionário faria tal exame enquanto conversa com sua chefe de finanças, Jane Melman (Emily Hampshire), que diz sentir uma “tensão sexual” no ar? Depois, ele ainda tem relações com uma segurança, Kendra Hays (Patricia McKenzie), a quem pergunta como é matar alguém, já que por meio de qualquer relação humana ele não sente nada. Há, de um lado, o temor da morte de Packer, e a certeza de que vai morrer, assim como sua juventude e agilidade. Todos os personagens que passam pela limusine são jovens, ágeis, rápidos – como a personagem de Vija Kinsky (Samantha Morton), cuja profusão de falas vem em ritmo quase de pesadelo, dividindo Cosmópolis em duas partes bem definidas –, mas, ao mesmo tempo, carregam uma carga grande de falas (Cronenberg, em certos momentos, não consegue fugir à teatralidade). Vija é uma espécie de versão mais adulta de Shriver (Jay Baruchel), que no início do filme é o nerd que promete a Packer que o sistema informatizado de sua limusine está protegido de qualquer vírus. É este vírus simbólico que atormenta o milionário: um vírus que pode tanto estar dentro do sistema de finanças – e pode levá-lo à bancarrota – quanto estar em seu corpo, fazendo com que submeta a exames completos diários, e em sua maneira de ver o mundo. Cronenberg torna a limusine uma espécie de pele do personagem central (uma ideia que é recorrente em sua trajetória, de Videodrome a Crash), a qual o protege do mundo e o torna indiferente ao que acontece fora, como se tudo estivesse ocorrendo pela televisão, e não ao vivo.

Num dos letreiros do lado de fora da limusine há uma frase de Marx: “Há um espectro que ronda o mundo, o espectro do capitalismo”. O que não se espera, nessa interpretação de Cronenberg aos dias atuais, é que haja, nesse discurso, na verdade um contradiscurso. Os anarquistas de Wall Street mostrados pelo filme – que se fantasiam como ratos e jogam ratos contra os clientes de uma lanchonete –, que dialogam com o Occupy Wall Street, são retratados de forma discreta (no momento em que balançam e picham a limusine de Packer, é como se fossem apenas parte de uma imagem de televisão, numa das sequências mais bem feitas do filme) e ainda mais um líder dos anarquistas, cuja diversão é atirar tortas em celebridades. Para Cronenberg, este não é o contradiscurso. Não é exatamente o poder financeiro de Nova York e os executivos que incomodam Cronenberg (como a Oliver Stone), e sim a falta de saída eficaz para a política que se apresenta, sem considerar o filme como algo panfletário. Segundo transparece por meio de Packer, só há discurso e presença para homens como ele porque o sistema, na verdade, firmado e o que tenta abalá-lo estão fundidos num mesmo discurso ineficaz e que se alimenta da própria mídia que contesta, como o painel luminoso se alimenta da frase de Marx. Nesse sentido, Cosmópolis, mesmo com sua densidade e, por vezes, mal-estar que provoca, é uma comédia de humor negro drástico, capaz de colocar o espectador em reflexão sobre tudo o que se julga contemporâneo demais, como diz uma de suas personagens. São verdadeiramente hilários os momentos em que o chefe de segurança abre o vidro para ficar avisando Packer de algum eminente ataque, como se ele, sim, de fato, fosse o presidente dos Estados Unidos, com sua bateria de proteção. E ao tentar afastar os manifestantes que cercam a limusine, como se estivesse num campo de guerra, ou revistando um médico como se fosse um assassino. Ou quando Packer recebe a visita de um rapper, Kosmo Thomas (Gouchy Boy), para relatar a notícia da morte de Brutha Fez (K’naan), ouvindo dele: “Entendo a sua decepção de ele ter morrido de ataque cardíaco, não de drogas”. Cronenberg, como em sua obra, não parece defender nenhum discurso, apenas colocar tudo num liquidificador, em que o resultado é a consequente estranheza e perturbação. São pessoas que se consideram vitais, e prontas para serem engolfadas pela mídia, seja para a divulgação de seus lucros quanto para mostrar os protestos de pessoas contra elas.

No entanto, Cronenberg gosta, também, de filosofar sobre a violência e os temores, como em Marcas da violência. E talvez seja aí o ponto fraco do filme: entende-se que Packer atravessa a cidade para voltar à sua infância e, diante do que faz na vida adulta, não há saída para ele. Numa sequência estranhíssima numa barbearia – que lembra diretamente Marcas da violência, inclusive com um personagem apresentando uma cicatriz no olho –, em que não sabemos se os personagens continuarão calmos ou explodirão de vez, poderíamos ter um atestado de Cronenberg sobre a atemporalidade das mazelas, mas acaba sendo prenúncio (com um ninho de ratos simbólico no cabelo de Pattinson), para uma sequência final, longa e um tanto cansativa – que, ao mesmo tempo, expõe as qualidades e os defeitos de Cosmópolis –, apesar das belas atuações de Pattinson e de Paul Giamatti.
Cronenberg sai-se melhor quando reprime a violência de seus personagens, como na ótima cena em que Packer e seu segurança estão assistindo a uma festa de jovens, e a música soa tão melancólica quanto o personagem central diante da despedida derradeira da adolescência e da genialidade precoce da qual ele não quer se desgrudar porque significa cair na indigência. Ali, Cosmópolis parece encontrar, sem muitas palavras – seu ponto, ao mesmo tempo, fraco e forte –, o que gostaria de trazer à cena e o que o torna tão contemporâneo.

Cosmopolis, FRA/ITA/CAN/PT, 2012 Diretor: David Cronenberg Elenco: Robert Pattinson, Samantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Kevin Durand, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Mathieu Amalric, Emily Hampshire Produção: Paulo Branco, Martin Katz Roteiro: David Cronenberg Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 106 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Prospero Pictures / Alfama Films

Cotação 4 estrelas

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