Twin Peaks (1990-1991)

Por André Dick

A série Twin Peaks marcou época na televisão norte-americana. Quando exibida no Brasil, sofreu diversos cortes, tornando o que já era de entendimento complexo ainda mais difícil (daqui em diante, há spoilers). Podendo se assistir à série em DVD, constatamos os motivos de seu sucesso. Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer, que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern.
Designado para a investigação, Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel), que parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, ganha a parceria do xerife Truman (Michael Ontkean), que passa a apresentá-lo aos envolvidos com Laura Palmer. Cooper chega a esses jovens e começa a tentar desvendar o quebra-cabeças, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Dianne) e interesses por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.

Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo (Eric Da Re, que bate na mulher, Shelly, interpretada por Mädchen Amick, empregada na lanchonete de Twin Peaks e amante de Bobby Briggs) e alguns desses personagens referidos. E seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para vídeo, um pouco mais extenso) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores escuras da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward, ao final, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série. O humor de Twin Peaks começa a aparecer sobretudo a partir do primeiro e do segundo episódios, com a entrada em cena, por exemplo, de Albert Rosenfeld (Miguel Ferrer) e da presença maior de Ben Horne, embora nada sobrepuje o agente Cooper e o corpo policial da cidade, que rende boas cenas de humor. Há um misto de seriedade e ironia em cada ação dos personagens, mas o humor negro é incorporado a ação de cada um, o que não torna nada pesado. Por outro lado, surge o desespero do pai de Laura, Leland, apenas consolado com a presença da sobrinha Maddison (também interpretada por Sheryl Lee), igual a Laura Palmer, em versão morena (imaginamos aqui uma precursora das personagens de Patricia Arquette em A estrada perdida e das atrizes de Cidade dos sonhos).

No segundo episódio, depois de iniciar seu processo de investigação baseado em premissas do Tibete (o que vai ao encontro de David Lynch e sua meditação transcendental) e brincadeiras com a psicologia (na figura do Dr. Lawrence Jacoby, interpretado por Russ Tamblyn), Dale Cooper tem o sonho que mudará a série: numa sala vermelha, um anão dança, fala frases ao contrário e Laura Palmer se aproxima, dando pistas para Cooper desvendar o crime. A partir disso, o agente do FBI investe numa espécie de perseguição zen ao criminoso, costurando pistas por meio das mensagens cifradas do seu sonho, elemento típico em David Lynch – e o episódio ganha força novamente com sua direção, indo parar em uma cabana no meio da floresta, onde conhece a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que tem histórias sobre o que acontece na floresta à noite, e depois em outra, em que encontra o pássaro Waldo, que repete o nome de dois homens.

O cenário, para Lynch, é o da floresta, e Twin Peaks está à margem dela. O mistério está localizado em figuras como a coruja (numa sequência, o rosto de Bob, o assassino, tem a imagem dela) e dos galhos das árvores que se balançam. Como diz Truman a Cooper numa reunião com um grupo que vigia a entrada de drogas em Twin Peaks, inclusive com James Hurley, há algo estranho nas árvores da cidade, uma força estranha e misteriosa – é para ela que Lynch, afinal, quer direcionar a série.
No final desta temporada, em que a tentativa de solucionar o crime é envolvida pelo clima dos anos 50 ou 60 que habita a cidade – e faz os jovens se reunirem com os pais à beira da lareira da sala, colocarem músicas para dançar no Double R, onde quase todos da cidade vão tomar café e comer tortas –, Cooper, ao atender a porta no hotel, é baleado, terminando em sete episódios com condução perfeita: a direção segura, o elenco excelente e os elementos que compõem Twin Peaks (a direção de arte, a fotografia, a música) destacados como em poucas séries.

A segunda temporada inicia com um episódio excelente – dirigido por David Lynch -, em que Cooper é visitado por um senhor atendente do hotel e, em seguida, por um gigante, que lhe dá novas pistas. O Great Northern se transforma numa espécie de Overlook de O iluminado às avessas (há, inclusive, uma arquitetura indígena e Ben Horne encenando a Guerra Civil norte-americana, enquanto seu filho lança flechas contra imagens de búfalos), com fantasmas eventualmente andando pelo hotel, tentando ajudar Dale Cooper e nesse sentido a série deriva para o terror e suspense (com cenas hospitalares). No segundo capítulo da segunda temporada, novos acontecimentos estranhos, também direcionados por David Lynch: Donna Hayward começa a trabalhar entregando lanches – no lugar de Laura Palmer – e vai à casa dos Tremond (a avó e seu neto, peças-chaves do filme do cinema), que leva a conhecer o amigo de Laura que guardava seu diário. Finalmente, no terceiro episódio, o pai de Laura afirma a Cooper e ao xerife que conhece o homem que está no retrato do criminoso procurado, chamado Bob; seria um antigo vizinho da praia aonde ia com a família, na infância, e que jogava fósforos acesos nele. Ao final do sétimo episódio, ao mesmo tempo em que vemos Cooper no Road House, ouvindo Julee Cruise contra uma cortina vermelha e uma luz em close amarela, descobrimos o assassino – numa das sequências mais violentas já filmadas para a TV. O mesmo gigante do hotel aparece no palco e fala que “está acontecendo de novo”. O atendente do hotel vai à mesa em que estão Cooper, o xerife e a Senhora do Tronco e lamenta – num dos momentos surpreendentes desta segunda temporada.

É essa revelação que, segundo os planos originais de Lynch, não seria feita por sua vontade, pois ele gostaria que o segredo fosse mantido, sem os espectadores saberem a identidade do assassino.
A partir dessa nova tragédia, a luta de Cooper e do xerife é para descobrir que tipo de mal ameaça Twin Peaks, o que os faz se aproximar do Major Briggs (Don S. Davis) – pai de Bobby –, que diz haver na floresta da cidade um Black Lodge, com uma passagem para outra dimensão. O General, numa ida à floresta com ambos, acaba sumindo e reaparece dias depois. Cooper e o xerife acabam chegando à caverna da coruja, que ajuda a solucionar a ligação com esse universo paralelo à cidade. É exatamente neste ponto que a série começa a partir para um lado mais surreal, pois, ao mesmo tempo, chega à cidade Windom Earle (Kenneth Welsh), um ex-agente federal que enlouqueceu e está atrás de Cooper.
A estranheza dessa segunda temporada em relação à primeira acontece sobretudo porque David Lynch abandonou muito dos episódios nas mãos de outros roteiristas e diretores. É visível que seus substitutos tentaram desenvolver tramas paralelas menos interessantes – a mulher do dono do posto de gasolina, tio de James Hurley, que se apaixona por Mike, amigo de Bobby; o próprio James indefinido entre se envolver com Donna e com uma misteriosa mulher de beira de estrada; negócios escusos de Benjamin Horne com um presidiário, ex-marido da dona de lanchonete, Norma (Peggy Lipton), por sua vez amante do dono do posto de gasolina, Big Ed (Everet McGill); a paixão de Audrey Horne por um milionário que chega ao hotel (Billy Zane); a paixão do prefeito por uma quase adolescente; a paixão entre a secretária do xerife e um galanteador, entre outras –, sem o mesmo humor combinado com os elementos trágicos dos personagens.

No entanto, é fato que o clima supera em muitos momentos os defeitos possíveis (a fotografia de Ron García, que colaborou com Vittorio Storaro em O fundo do coração, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que se existe no Double R, a lanchonete em que os personagens se reúnem, e ajuda a desenhar boa parte da série. Temos, além disso, o desenvolvimento de novas tramas interessantes – a chegada de um novo agente federal (feito por David Duchovny, de Arquivo X), do chefe de Dale Cooper, Gordon Cole (em ótima participação do próprio David Lynch), a descoberta do xerife em relação à sua amante, a investigação da chegada de drogas em Twin Peaks, o encontro de Cooper com uma nova atendente da lanchonete (Heather Graham), por quem se apaixona e é a peça-chave no final da série. Ou seja, a segunda temporada é inferior, embora tenha momentos ainda muito interessantes.
Os personagens visivelmente ganham intensidade de uma temporada para outra, como o detetive feito por Miguel Ferrer (um dos melhores da série, e talvez esquecido, em comparação com os demais), o xerife e o agente Cooper, embora se perca um pouco o lado juvenil – com um interesse forçado entre Audrey e Bobby Briggs, por exemplo –, o que não diminui o impacto de vermos essa história contada em detalhes. Nisso tudo, a atuação do elenco, mesmo quando o roteiro não se mostra tão interessante, é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, James Marshall, Heather Graham, Billy Zane – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas que ficam marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).

As imagens dos semáforos, dos bosques da cidade, da coruja ameaçadora (e da Caverna da Coruja, que ajuda a criar mais elementos para a mitologia da série e se corresponde com o filme), intensificam a percepção de terror, assim como o destino de alguns personagens (como o de Leo).
Por isso, Twin Peaks atravessa um terreno, da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acaba afastando muitas pessoas que não conseguem associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não é à toa que, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. De qualquer modo, o universo de Twin Peaks é muito mais sintético, voltado a uma única cidade e a inter-relação entre seus habitantes, dentro ou fora de uma investigação policial. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, mesmo que o distúrbio seja de origem desconhecida (os personagens que começam a sentir dores em seus braços, o que se reproduzirá no filme do cinema com Teresa Banks e Laura Palmer).

E o episódio final da série, dirigido por David Lynch, é, por mais estranho que pareça, o mais fiel ao que vimos antes. Há pelo menos em torno de 20 minutos com material completamente imprevisto para a televisão – quando Cooper entra na sala vermelha do Black Lodge e precisa recuperar o contato com a pessoa de que gosta, tendo de se deparar com o anão, com Laura, seu pai, Leland, Bob e seu outro eu. Essas imagens são excepcionalmente fotografadas, e criam um laço direto com o filme do cinema, pois este poderia também ser parte do final daquele. Aliás, o roteiro original de Twin Peaks – Fire walk with me mostraria o que acontece depois desta sequência. Se as cenas foram rodadas e virão a público algum dia, já faz parte mais uma vez da mitologia que cerca esses personagens de uma série primorosa.

Twin Peaks, EUA, 1990-1991 Diretores: David Lynch, Graeme Clifford, Caleb Deschanel, Duwayne Dunham, Uli Edel, James Foley, Mark Frost, Lesli Linka Glatter, Stephen Gyllenhaal, Todd Holland, Tim Hunter, Diane Keaton, Tina Rathborne, Jonathan Sanger Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Heather Graham, Russ Tamblyn, Eric Da Re, Peggy Lipton, Don S. Davis, David Duchovny, Kenneth Welsh Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 1670 min.

Cotação 5 estrelas

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