Veludo azul (1986)

Por André Dick

Lynch recebeu uma segunda indicação ao Oscar por este trabalho polêmico e considerado impecável pela crítica em geral, logo depois de Duna e produzido pelo mesmo Dino de Laurentiis (estava no contrato que eles fariam dois filmes juntos, e um seria de escolha pessoal do diretor). Novamente, ele utiliza a dupla personalidade de seus personagens para trabalhar sua narrativa (daqui em diante, spoilers, inclusive nas imagens).
Já começa mostrando a cidadezinha de Lumberton (algo como cidade da madeira serrada), uma prévia de Twin Peaks, com imagens idílicas (rosas vermelhas contrastando com o céu azul, homens num carro de bombeiros, crianças atravessando a rua), ao som de “Blue velvet”, de Bobby Vinton, até focar o pai de Jeffrey Beaumont (MacLachlan, excelente) regando a grama e tendo um ataque do coração. Em seguida, a câmera acompanha uma movimentação no gramado, de insetos uns em cima dos outros, revelando o subterrâneo, com a atmosfera sombria que Lynch pretende mostrar, e fazendo uma analogia direta com alguns personagens. E com o capinzal, em que Jeffrey passa para ir ao hospital para visitar o pai, mas encontra uma orelha, também coberta de formigas – Lynch e sua ligação potencial com o som -, e resolve investigar sua origem. Esta parte inicial mostra o que Lynch já anunciava numa matéria em que promovia Duna:  “Minha infância foi […] Elegantes casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras. Era um mundo de sonho […] Mas […], sempre há formigas vermelhas por baixo”.

Com a ajuda de uma garota, Sandy Williams (Laura Dern, que voltaria a trabalhar com o diretor em Coração selvagem e Império dos sonhos e compõe com exatidão uma jovem de família discreta), pelo qual está apaixonado, ele desenha a ligação, numa típica lanchonete de Lynch, entre alguns personagens, que levam à casa de uma cantora Dorothy Vallens (Isabella, no papel que a consagrou) e se depara com um mundo que não conhecia: de traficantes, prostitutas, psicopatas. Nesse sentido, Veludo azul se divide entre ser um mapa da tragédia humana – localizada em personagens a princípio simples – e o filme policial (já que Sandy é filha do agente Williams, feito por George Dickerson).
A figura mais estranha é a de Frank Booth (Dennis Hopper), com complexo de Édipo e que usa um inalador quando deseja fazer sexo, e a trilha sonora, dos anos 60, é um alívio para os ouvidos: a música-título, em especial, é perturbadora no contexto em que se insere. Embora Lynch às vezes exagere na passagem da cidade tranquila do dia para a cidade perturbada da noite, ele nos entrega um filme que atinge pelo sensorial (e Dorothy cantado à frente de cortinas vermelhas, com uma iluminação azul em seu rosto, dialogando com o clube de Twin Peaks e Julee Cruise inclinada a desaparecer para dar lugar a gigantes), Veludo azul é a viagem de um jovem para fora da adolescência e o ingresso num mundo que cultiva o submundo, e todas as paisagens agradáveis, idílicas, que vemos no início do filme logo se desfazem com um corpo de alguém regando a grama caindo e nessa descoberta do sexo.

Contudo, Lynch filma tudo com o cuidado de um esteta: mesmo as garrafas de Heineken, os caminhões laranja, o clube noturno, com luminosos, os abajures e as lâmpadas pelas paredes formam um conjunto para o qual o espectador é convidado a olhar. A fotografia de Frederick Elmes (de Eraserhead) é de uma exatidão poucas vezes vista, sendo aquele que melhor conseguiu traduzir o ambiente de artes plásticas do cinema de Lynch. E o cinema norte-americano não seria mais o mesmo depois desse ingresso de Lynch na saída da adolescência. Podemos ver indícios de Veludo azul presentes numa obra como Beleza americana (na lista recente da Sight & Sound, seu diretor, Sam Mendes, coloca Veludo azul como uma das obras mais importantes da história) ou nos jardins verdejantes de Donnie Darko, querendo encobrir qualquer anormalidade, no David Cronenberg definitivo de Marcas da violência, com seu adolescente sendo incomodado por valentões no vestiário e seu pai atendendo numa lanchonete como se não estivesse ligado a um passado obscuro e contrário à tranquilidade da cidadezinha interiorana, no reality show em que o céu azul é tão verdadeiro quanto os gramados bem aparados de O show de Truman, e quem sabe no caminhão de bombeiros perseguido por garotos em A árvore da vida.

A personagem da cantora Dorothy faz essa ponte entre o dia e a noite desejada por Lynch. O namoro de portão, consequentemente, com a garota que ama, está ameaçado por todo um universo com que se depara, e pelo qual mostra uma atração imediata, ou seja, Jeffrey não é uma vítima, pois ela procura a desestabilização de sua rotina. A cena em que ele se esconde no armário para observar a chegada da cantora Dorothy em seu apartamento, além de empregar um estilo voyeurista, buscado em Janela indiscreta, de Hitchcock, sintetiza o talento de Lynch para ações passadas em lugares fechados (o espectador se coloca no lugar de Jeffrey, sentindo-se, tanto quanto ele, um observador, um intruso), assim como as menções ao fogo, sempre ligado ao corpo. Além disso, Dorothy é mais um diálogo que Lynch estabelece com o clássico O mágico de Oz: era o nome da garota levada pelo vendaval (em Twin Peaks, o agente David Bowie desaparece num mundo de sonho atrás de uma certa Judy, que remete a Judy Garland, a intérprete de Dorothy) e em Coração selvagem a mãe de Lula aparece como a bruxa da história. Dorothy representa um ingresso numa espécie de pesadelo (ou sonho, dependendo do ponto de vista) tão aos moldes de Lynch.

Ao ver Frank com o inalador atrás de Dorothy, Jeffrey sabe que suas ilusões românticas estão se perdendo, mesmo atenuado pela beleza do veludo azul que ela veste nos encontros, contrastando com os lábios vermelhos e  a pele quase pálida, lembrando uma personagem que vive à margem da luminosidade, expondo sua fragilidade de maneira decisiva (comenta-se que Lynch era um misógino ao expor Rossellini a tal papel, mas a questão é que ele torna qualquer olhar de brutalidade contra a mulher em uma questão absurda, como no comportamento de Frank).  Assim como a sequência em que Frank leva Jeffrey para dar um “passeio” com seus amigos também retrata o ingresso na noite (entre eles, estão os atores Jack Nance e Brad Dourif) e a ida para ao bordel de Ben (Dean Stockwell), que canta feito um crooner – e nunca antes “In dreams”, de Roy Orbison, foi tão perturbadora – em meio a personagens decadentes. Ela só existe ainda na tentativa de Jeffrey recuperar o mundo que sonha, ao lado da amada e do protótipo de xerife que pode solucionar um caso. Ou quando ele rega a grama de óculos escuro, a fim de esconder as marcas da noite anterior. Jeffrey sabe que a vida não voltará a ser a mesma, mesmo ajudando Dorothy a encontrar seu filho ou acomodando uma roupa sobre ela desnuda – no momento mais intenso do filme. Nem que seja para, ao final, Jeffrey ver um passarinho no galho da árvore e no parapeito da janela da cozinha, com um verme na boca, evocando o poema “A Daphne e Virginia”, de William Carlos Williams: “We are not chickadees / on a bare limb / with a worm in the mouth” e continuar achando o mundo estranho – um mundo que ele, na verdade, passou a conhecer. A cidade de Lumberton, para Lynch, não precisa mudar – precisa ser entendida em sua complexidade e no seu subterrâneo, ao som da excepcional trilha de Angelo Badalamenti.

Blue velvet, EUA, 1986 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle McLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, George Dickerson, Hope Lange, Brad Dourif Produção: Fred Caruso Roteiro: David Lynch Fotografia: Frederick Elmes Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 120 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

Cotação 5 estrelas

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