O homem elefante (1980)

Por André Dick

O diretor David Lynch foi escolhido pelo produtor Mel Brooks para estar à frente deste filme depois de o comediante ter visto Eraserhead e se impressionado. Lynch realmente não decepciona, e faz um dos filmes mais melancólicos e lineares de sua filmografia, adaptado de duas obras: The elephant man and other reminiscenses, escrita pelo médico Frederick Treves, e The elephant man: A study in human dignity, de Ashley Montagu. Trata-se da impressionante reconstituição da vida de Joseph Merrick, no filme John Merrick (John Hurt), o “homem elefante” do título, levado para o hospital de Londres pelo médico Treves (Anthony Hopkins), em 1884, a fim de que seja cuidado, pois tem uma doença rara, a neurofibromatose aguda, e não mais explorado como uma atração circense, por Bytes (Freddie Jones). No hospital, começa a conviver com outras pessoas – inclusive com o diretor do hospital, Carr Gomm (John  Gielgud), e uma conhecida atriz da cidade, Sra. Kendel (Anne Bancroft, em ótima atuação).

Lynch utiliza seu estilo já inicialmente, quando vemos a figura do elefante e da mãe de Merrick – numa espécie de pesadelo. Em razão da fotografia memorável de Freddie Francis, o filme lembra, em detalhes, o expressionismo alemão e, consequentemente, filmes daquele período. As luzes e as sombras são mais realçadas, o que colabora na efetividade da história, que é mostrar justamente o lado escuro e claro do ser humano. E o lado escuro, obviamente, em determinado momento, surge para tentar atrapalhar o bem – como em todos os filmes de Lynch. Aqui, Merrick também olha para desenhos pendurados na parede de pessoas dormindo normalmente, o que ele não consegue fazer, em razão sobretudo da cabeça disforme. Ao querer o que simples pessoas querem, Lynch, aqui, estabeleceria uma ponte de Laura Palmer de Twin Peaks com Merrick, olhando para a figura do anjo no quadro da parede do seu quarto. Nesse sentido, Merrick e Laura Palmer, para Lynch, são pessoas deslocadas, embora queiram apenas a normalidade.
A atuação de John Hurt como o homem elefante – apesar de escondido sob pesada maquiagem – é muito interessante e sensível, dando peso a muitas cenas, como aquela em que tem a primeira conversa com Treves e, em seguida, que tenta decorar algumas palavras para receber a visita do diretor do hospital, ou aquela em que encontra a mulher dele, Anne (Hannah Gordon) para tomar um chá. Ele lembra de sua mãe, dizendo que o seu rosto lembrava o de um “anjo”. Nessas sequências, Lynch coloca Merrick como alguém que quer simplesmente conviver com outras pessoas, o que poderia soar piegas. No entanto, nas mãos de Lynch, é um olhar para nossas exigências pessoais diante do que temos para enfrentar.

Desse modo, o cineasta faz um filme que já antecipa seus filmes seguintes. Merrick passa por uma série de castigos para que o próprio espectador analise o que ele está passando, e quais as exigências para as sombras e luzes que nos cercam. Lynch coloca como a escuridão o homem que deseja explorar Merrick e outro que, trabalhando como porteiro no hospital (Michael Elphick), quer voltar a transformá-lo em um espetáculo, como no lugar de onde veio, e uma determinada sequência de abuso ao indivíduo (e suas consequências) é tipicamente do diretor, não por acaso, tudo sendo visualizado pela janela e tentando ser refletido no espelho. Mas Treves, o médico, não gostaria do mesmo, quando passa a ser elogiado pela sociedade por cuidar de Merrick? Desde o início, quando ele visita Merrick pela primeira vez, o espectador percebe seu sentimento pela situação do homem elefante; em seguida, quando o apresenta, como um experimento, aos demais médicos da comunidade (sem Lynch mostrar o rosto de Merrick, o que acontece depois de várias cenas), parece, inevitavelmente, incorrer na mesma posição de Bytes – apenas com a diferença de que não transforma este homem numa evidente atração circense. De qualquer modo, Lynch coloca esta pergunta, e a resposta parece ambígua.

Cada vez que Merrick se dirige a ele como um “amigo”, a gentileza parece cair no vazio – e é isso que o diretor pretende mostrar: a ambiguidade por trás das ações dos personagens. Um homem passa a ser normal apenas porque é aceito, consegue ler Shakespeare ou monta uma catedral em seu quarto, imaginando-a por completo, pois da sua janela vê apenas uma torre? Ao sair na rua, ele não passará sempre a ser perseguido, como numa cena perturbadora do centro de Londres? A rainha da Inglaterra ficar contente com o tratamento dado a Merrick é o único motivo para o hospital querer ficar com ele?
Com um clima que contrasta o pesadelo e a alegria de uma peça de teatro, Lynch acerta em fazer contrapontos o filme todo, embora sem ser maniqueísta: o desejo de normalidade é sempre ameaçado pela perversão e maldade; a contestação pública de um dos homens do conselho hospitalar à presença de Merrick no hospital alterna com este fazendo a igreja em seu quarto; a tragédia circense de exploração e os aplausos no teatro de Londres; o chão para dormir é uma degradação perto da cama confortável; o vidro do quarto pode lembrar a cortina sendo aberta para se mostrar às pessoas; a natureza e precariedade do circo mambembe e a opressão das fábricas de Londres depois de eclodir a Revolução Industrial, tornando as ruas um cenário propício a vapores, lama e muita sujeira.

Como escreve Claude Beyle, ao tratar de O homem elefante: “ele (Lynch) provou, desde seu primeiro filme, Eraserhead, pesadelo experimental nascido de um cruzamento de Frankenstein com Um cão andaluz, que deveríamos contar com a sua poesia tenebrosa”. Daí haver sequências inteiras de sensibilidade, por exemplo, quando Merrick é ajudado por anões circenses, que saem caminhando, seguidos por um séquito tipicamente de Lynch contra um fundo expressionista – vemos a floresta ao fundo. Para o diretor, estamos sem um rumo definido, mas não completamente desamparados. Talvez seja este o mote de toda a filmografia deste cineasta com grande poder de provocação, mesmo quando conta uma história linear, como aqui – uma das obras-primas mais interessantes já feitas.

The elephant man, EUA/ING, 1980 Diretor: David Lynch Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller Produção: Jonathan Sanger Roteiro: David Lynch, Eric Bergren, Christopher de Vore Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: John Morris Duração: 120 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Brooksfilms

Cotação 5 estrelas

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