Eraserhead (1977)

Por André Dick

Filme de estreia de Lynch, Eraserhead foi filmado entre 1971 e 1976, com a colaboração financeira inicial do American Film Institute. O script original tinha pouco mais de 20 páginas, o que colocou desconfiança na qualidade que a produção poderia ter. Mas Lynch se cercou de atores dispostos a conservar uma espécie de dedicação integral, a começar por Jack Nance, que faz o personagem principal, Henry Spencer, e voltaria nos filmes Duna, Veludo azul, A estrada perdida e na série Twin Peaks, embora em papéis secundários. Ele conservou seu visual por todos esses anos, à medida que o filme ia sendo rodado. Ao mesmo tempo, obviamente, Lynch passou bastante tempo na sala de montagem, tentando descobrir sobretudo novos sons para o filme (ele é autor da trilha sonora, assim como da montagem e dos efeitos especiais). Ele afirma que se trata de um filme que resultou de sua vivência na Filadélfia, inclusive de quando teve sua primeira filha, Jennifer Lynch (que se transformaria em cineasta e escreveria O diário secreto de Laura Palmer). O resultado é certamente um dos filmes mais estranhos já feitos – e por isso, como se fala, lynchiano.
A estranheza já irrompe no início, quando Spencer sonha com um homem do espaço – e, assim como se visualiza o que entendemos ser um planeta ou óvulo, sai pela boca do personagem uma espécie de feto – e não se sabe se é um sonho, um pesadelo ou realidade.

Com uma fotografia em preto e branco estupenda, como a de O homem elefante, Eraserhead mostra que esse homem trabalha como impressor em meio a um maquinário pesadelo de indústrias, o que remete novamente a O homem elefante e ao planeta Gied Prime, dos Harkonnens, de Duna. Não há dúvida de que se trata de uma espécie de pesadelo kafkiano (em relação ao qual Lynch diz ter bastante proximidade), expressionista. Num encontro com a vizinha do mesmo corredor do prédio onde mora em um cômodo bastante apertado e restrito – e cujo bidê ao lado da cama guarda um montinho de terra fazendo galhos secos florescerem do nada –, ele descobre que tem um encontro marcado com sua antiga namorada, Mary X.
Depois de um jantar estranho – que reserva surpresas, desde uma velhinha que está imobilizada na cozinha, com olhar catatônico, mas fumando, com um cigarro na boca que nunca se apaga, até o pai da namorada, que diz ter um dos braços imobilizados (detalhe que cria um diálogo com Laura Palmer e Tereza Banks, de Twin Peaks, que ficam com seus braços imobilizados), no entanto insiste em mostrar um sorriso pouco verossímil –, a mãe dela, de maneira estranha, lhe diz que ela teve um filho dele depois de quatro meses de gestação. Esta informação é prevista por um olhar lançado por Henry a uma ninhada de cãezinhos nas tetas de uma cachorra no canto da casa. Obrigado pelos pais a se casar com Mary X, ela vai morar em seu apartamento com o bebê, que começa a atormentar a vida de Henry, com seus barulhos durante a noite, e faz sua mãe ir embora. Porém, tudo se passa muito rapidamente, ou seja, não existe uma progressão temporal ou de conflito para Lynch, fazendo com que, pela opressão do apartamento, o espectador sinta-se inserido num pesadelo ao mesmo tempo antasioso e real (o diretor Stanley Lubrick, que era admirador incondicional do filme, teria colocado o elenco de O iluminado para assisti-lo, pois era esse clima que gostaria que sua produção tivesse; temos o elevador de onde desce Henry todos os dias, adentrando num piso que remete à da sala vermelha do anão de Twin Peaks).

Em determinada sequência, ele imagina uma mulher cantando num palco (cena que se repetiria em outros filmes do diretor), com um rosto que lembra o de O homem elefante, enquanto vermes caem pelo chão (difícil não fazer a analogia com os vermes que habitam as areias de Duna, sobretudo quando um dos vermes se abre, embora esses sejam do universo de Frank Herbert) e todo o contexto tem algo de Francis Bacon. Henry imaginando desaparecer no corpo em que se encontra, ao contrário do bebê, é de uma sensibilidade ao mesmo tempo profunda e trágica: para Lynch, o personagem não consegue se aceitar em nenhum momento; a sua cabeça que rola pela rua em determinado momento e é recolhida por um menino que a vende a alguém que a transforma numa matéria-prima para a confecção de borracha para lápis é impressionante.
Novamente abordado pela vizinha, ele tem receio de mostrar o bebê que chora – e seu envolvimento e separação lembra uma espécie de negação sobre si mesmo, ou de aceitação, dependendo do ponto de vista. A sequência em que traz a amada para a cama, enquanto ela repara que o bebê é estranho, se situa entre uma realidade com clima de pesadelo e um sonho incapaz de ser captado por lentes comuns. Não à toa, ao final, o casal desaparece dentro da cama, em meio a uma cortina de fumaça. Afinal, para Lynch, os objetos elétricos observam os personagens, e os abajures têm tanta presença em seus filmes, assim como escapamentos elétricos e tomadas que escondem, mais do que segredos, toda uma profusão cênica.
Lynch não faz nenhuma concessão, o que torna Eraserhead o seu filme mais original, embora não o melhor. O personagem central pouco fala, mas Jack Nance tem uma atuação realmente brilhante, lembrando atores dos anos 30, com um olhar cabisbaixo e movimentos delicados, seja quando caminha pelo quarto – onde se passa a maior parte da ação –, seja quando fica sentado, tentando cuidar do bebê. Em determinado momento (quando ele tira a febre do bebê), Eraserhead atinge uma carga de afeto e mesmo de lirismo.

No entanto, há uma espécie de surrealismo excessivo nas imagens, muitas vezes desconcertante, que faz o espectador se afastar daquele universo pela crueza com que é apresentado, embora nunca se afaste por completo. Este incômodo no olhar certamente foi desejado por Lynch, mas nos seus filmes seguintes ele contrabalançaria este elemento com outras características: Twin Peaks, por exemplo, guarda, por baixo da normalidade do cenário, personagens estranhíssimos, contudo eles não perturbam a ponto de nos desconfortar. Por outro lado, é claro que a arte pretende desconcertar, incomodar e perturbar – o que acontece no filme de Lynch. Basta o espectador saber até que ponto quer ser importunado.

Eraserhead, EUA, 1977 Diretor: David Lynch Elenco: Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Judith Roberts, Laurel Near, V. Phipps-Wilson, Jack Fisk, Jean Lange, Thomas Coulson, John Monez, Darwin Joston, T. Max Graham, Hal Landon Jr., Jennifer Chambers Lynch Produção: David Lynch Roteiro: David Lynch Fotografia: Herbert Cardwell, Frederick Elmes Trilha Sonora: David Lynch Duração: 89 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Libra Films / American Film Institute (AFI)

Cotação 4 estrelas

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