Ted (2012)

Por André Dick

Depois de arrecadar uma grande bilheteria nos Estados Unidos, chegou aos cinemas brasileiros a comédia Ted. A presença de Mark Wahlberg e Mila Kunis no elenco já mostram, de antemão, que não se trata de uma comédia despretensiosa, trazendo um casal que, de certo modo, apareceu em filmes de destaque nos últimos anos – Wahlberg em O lutador, Os infiltrados, e Mila, em Cisne negro. No entanto, diante de um filme como Ted, quase tudo poderia ser previsível: ele apresenta a história de um menino, John Bennett, que sofre preconceito dos amigos e, no Natal, faz um pedido: quer que o urso de pelúcia, seu presente, a quem chama de Teddy, ganhe vida e seja seu amigo real, o que acaba acontecendo. Vinte e sete anos se passam, e John (Walhberg) cresce, mas sempre acompanhado pelo ursinho, mesmo tendo uma namorada, Lori Collins (Mila). Trata-se de um argumento que não poderia render mais do que um passatempo, sobretudo se víssemos que o ursinho irá contracenar quase o tempo todo com outros humanos, além do seu amigo – sem que ninguém considere isso surpreendente. No entanto, esta comédia de Seth MacFarlane (autor de Uma família da pesada), narrada esporadicamente por Patrick Stewart – dando a ela um tom natalino e pueril, quando, na verdade, é ao contrário – mostra que com argumentos risíveis pode-se fazer uma diversão que, com um tom sem compromisso, acaba mostrando uma dose de relacionamento que não estamos mais acostumados a ver.
John é um personagem que não consegue sair da sua infância e trabalha com locação de carros, em que o gerente julga o máximo ter como cliente Tom Skerrit (numa das menções do filme a Top Gun), e não consegue estabelecer uma relação adulta com a namorada, sempre assediada pelo chefe – uma espécie de pseudoexecutivo colecionador de raridades, algumas escatológicas –, em razão de Ted, que é justamente o motivo para que isso aconteça. Criados com o mesmo medo de trovões – a cena em que vivenciam isso é hilariante –, eles também são fanáticos por séries (Cheers) e filmes (Flash Gordon, Apertem os cintos, o piloto sumiu) dos anos 1980. Ou seja, se o filme começa em 1985, é justo que a relação dos dois tenha se baseado justamente na cultura desta época – e hiberbado nela. O personagem é um misto de ursinho de pelúcia (dos que dizem “Eu te amo”) com Charlie Harper, e é nisto que a comédia justamente se baseia, uma espécie de Esqueceram de mim dentro do cenário de Two and a half men. Ted, na verdade, apesar de aparentar ser amoral (em seus vícios por drogas e prostitutas), também valoriza a amizade e ter uma família, embora, no caso, a de John não apareça depois do início. O diretor brinca com esses elementos da maneira mais divertida, quando, no início, ao dia seguinte do Natal, Ted chega na cozinha para ver os pais de John, e o pai pergunta, assustado, onde está a sua arma. Depois de mostrar a recepção a Ted durante anos, na mídia, ele já aparece no sofá, com John, conversando, usando drogas e atrasando-o para o trabalho. A namorada de John quer que ele abandone Ted, a fim de que possa finalmente se tornar adulto, e o filme acerta em não torná-la uma inimiga de Ted, o que seria previsível; pelo contrário, ele está sempre preocupado em agradá-la, a fim de não perder o amigo.
É interessante como MacFlane consegue extrair os melhores elementos de comédias superficialmente grosseiras, como O virgem de 40 anos e Missão madrinha de casamento, para mostrar a relação humana e a tentativa de a vida adulta representar uma ameaça ao significado da infância. Para o diretor, é justamente Ted a única possibilidade de John não ingressar não apenas na vida adulta (o que acontece também com o personagem de Steve Carell em O virgem de 40 anos, cercado de bonecos dentro de suas caixas originais), mas no universo cultural em que o diretor tripudia, que vai de Justin Bieber a Katy Perry (que rende uma das melhores partes do filme, com outra cantora). Para John e Ted, assistir os atores de Cheers falando mal um do outro; ou Flash Gordon enfrentando seu inimigo, ao som de Queen, vale mais do que horas no emprego e do que os cerca. Ted é um cinéfilo, capaz de desenhar a influência que teve Flash Gordon na vida dele e de John Bennett – o que poderia ser um elemento apenas descartável, mas que acaba encaixando bem no filme. E de se comparar ao androide Bishop (Lance Henriksen), de Aliens – O resgate, em dois momentos bem feitos – numa festa em que traz metade do bairro para dentro do seu apartamento e outro num estádio de futebol. E a relação deles é autêntica – e se revela ainda mais quando aparece um pai (Giovanni Ribisi), que deseja dar o urso a seu filho (Aedin Mincks) – em sequências que se situam num universo mais estranho e ameaçador, indefinidos entre a ingenuidade e a violência contida. É neste momento que a demasiada fama precoce de Ted acaba por envolvê-lo com um maluco infantil.

Impressiona  como o diretor, que estreia no cinema, ao utilizar computação gráfica aprimorada (em motion picture), consegue fazer um Ted convincente, que parece realmente contracenar com todos do elenco, sobretudo nas cenas em que confronta outros atores. E, por meio de recursos limitados (como a expressão dos olhos e das sobrancelhas, além da voz desbocada, feita pelo próprio diretor), Ted acaba ganhando vida imprevisível. Uma das melhores sequências do seu humor é quando ele está chegando a seu próprio apartamento, segurando algumas caixas com drogas e falando do ambiente, no entanto é nos diálogos (grosseiros, é verdade) com o dono do supermercado do qual insiste em tentar ser demitido que ele acaba ganhando um tom ainda mais natural. No entanto, ao mesmo tempo em que parece ser amoral e corrosivo, ele adota atitudes de recuo às suas próprias, o que acaba por torná-lo, mais do que um personagem de CGI, em algo humano, muito parecido com o Alf (referenciado algumas vezes), embora mais convicente.
Tanto Wahlberg quanto Mila Kunis contracenam com Ted de maneira que nos convencem da interação, caso contrário certamente o filme se perderia. Mais do que isso, eles tornam um filme que poderia se situar no limiar do grosseiro em uma fábula corrosiva do universo contemporâneo. O diretor não está interessado em contemplar a distância temas que podem soar mais agressivos, mas nunca passa para o terreno do mau gosto, o que faria por se perder o tom que pretende imprimir, de algo ao mesmo tempo pueril e mundano. Nesse sentido, o urso de pelúcia acaba sendo um símbolo para esse limiar, e um símbolo inesperado, mesmo porque ele costuma ser ligado apenas a um universo infantil. E seria um tanto deslocado imaginar que ele está lá simplesmente para mostrar que o adulto não quer deixar de ser criança: ele parece mostrar mais por que o adulto necessita de uma compensação infantil para esconder sua própria precariedade.

Ted, EUA, 2012 Diretor: Seth MacFarlane Elenco: Mila Kunis, Mark Wahlberg, Giovanni Ribisi, Jessica Stroup, Patrick Warburton, Seth MacFarlane, Joel McHale, Laura Vandervoort, Melissa Ordway, Aedin Mincks, Ralph Garman, Ginger Gonzaga, Alexandra East Produção: Jason Clark, John Jacobs, Seth MacFarlane, Scott Stuber, Wellesley Wild Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild Fotografia: Michael Barrett Trilha Sonora: Walter Murphy Duração: 106 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Media Rights Capital / Universal Pictures / Fuzzy Door Productions / Bluegrass Films / Smart Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: