Super 8 (2011)

Por André Dick

Produzido por Spielberg e assinado por J.J. Abrams, Super 8 tem o intuito de mostrar proximidade com os filmes juvenis do primeiro dos anos 80 (E.T., Os Goonies, Gremlins), sob um olhar contemporâneo. Abrams, conhecido por ser o criador de Lost, mas também principal responsável pela retomada de Jornada de estrelas (com um filme melhor do que a série de cinema dos anos 1970-1980) e da terceira parte, subestimada, de Missão impossível, não consegue transformar o monstro que os meninos do filme perseguem num personagem à parte – ele não é o foco, e sim o que desencadeia a ação –, entretanto é certo que sua maneira de filmar e lidar com os personagens tem muitas qualidades.
Os meninos que ele mostra no filme realmente têm vida e se movimentam numa fábula adulta sustentada pelos efeitos especiais competentes e algumas cenas semelhantes às de de Jurassic Park, em alguns momentos, mais do que de outros filmes de Spielberg, mas situados numa cidade de interior do Ohio, Lillian, em 1979, onde quase nada acontece – a não ser o que mais importa para uma turma de crianças.
Ou seja, Super 8 é bem melhor do que se poderia esperar do que é apontado como uma diluição. Sobretudo porque deseja contar, por meio de uma narrativa que mescla ficção e realidade, sobre a perda, situando-se nos anos 1970, quando uma cor amarela em triste tom, melancólica, predominava – e ele aparece na cor do carros, jaquetas, no luminoso de um posto de gasolina, no uniforme de um eletricista – e ao ritmo de “My Sharona”, de The Knack. O menino Joe Lamb (Joel Courtney, em atuação natural e destacada) – que evoca, talvez, Joe Dante, diretor de destaque dos anos 80, de filmes como Gremlins e Viagem ao mundo dos sonhos – acaba de perder sua mãe e vive com seu pai Jack (Kyle Chandler), policial que não consegue superar o fato. A mãe de Joe teria morrido porque um funcionário, Louis (Ron Eldard), faltou a seu turno e ela o substituiu. O velório acontece no inverno. Pai e filho não têm boa relação, e depois de 4 meses, já no verão, Jack quer enviá-lo a uma colônia de férias e para afastá-lo dos amigos que só pensam em fazer filmes sobre zumbis, como ele diz.
Os amigos são Charles (Riley Griffiths), que deseja ser um cineasta, Cary (Ryan Lee) e Martin (Gabriel Basso), além da menina Alice Dainard (Elle Fanning, excelente) – filha de Louis.

Numa noite, escondido do pai, Joe Lamb recebe contato de Charles, às 12:02 da madrugada (os números não são deliberados: eles correspondem à data de aniversário de Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos, que lutou contra a escravidão e teve a Guerra Civil Americana como um dos acontecimentos de seu governo).
Quando eles estão filmando, com super 8, uma cena numa estação de trem, acontece o descarrilamento dele e a escapada de uma estranha criatura – que, a princípio, eles não veem. Esta cena é uma das mais bem feitas dos últimos tempos – uma explosão sonora e de imagens que realmente impressiona. Os meninos passam a querer descobrir o que havia exatamente no trem, pois um professor deles, Woodword, foi quem causou o acidente e o exército invade o local, tendo à frente a figura de Nelec (Noah Emmerich).
Joe acaba se apaixonando por Alice, que no filme interpreta uma moça que virou morta- viva e é ela que estabelece o elo entre a perda de Joe, a culpa de seu pai – que quer cuidar da cidade, embora não consiga, de fato, cuidar do seu único filho – e uma renovação. Neste ponto, há uma revalorização da família, as lembranças da mãe do menino, o encontro do primeiro amor adolescente e a tentativa de lidar tanto com a perda da mãe quanto o que se denomina de amor infantojuvenil – em meio a acontecimentos estranhos na cidade (como o desaparecimento de cães, do delegado, depois de um ataque num posto de gasolina), explosões e fogos que evocam outro acontecimento marcante dos anos 70, a Guerra do Vietnã, encerrada quatro anos antes de quando se passa Super 8 (cuja narrativa inicia no inverno e salta para o verão, exatamente quatro meses depois) mas cujas cicatrizes, naquele momento, ainda eram recentes.
Se é verdade que esses garotos passam quase todo o tempo falando de como farão seu filme, discutindo efeitos especiais com trens de brinquedo, e sobre a maquiagem dos mortos-vivos (uma expressão mais adequada do que “zumbis”, apesar da homenagem clara a George Romero), Abrams quer mostrar um mergulho desse universo tranquilo, de uma cidade pacata, na violência da guerra que já terminou, ainda que continue presente – para capturar um monstro, os militares não hesitam em invadir a cidadezinha de Lillian e mesmo incendiar árvores, fingindo um desastre da natureza. Em certo momento, Jack, pai de Joe, dirige-se a outro personagem: “Foi um acidente”, repetindo, em seguida, a mesma frase. Não dá a impressão de que isso acontece à toa e não é simplesmente referência a algo que aconteceu no filme: para os Estados Unidos, assim como o descarrilamento do trem, com sua pirotecnia de explosões e vagões voando pelos ares, a invasão ao Vietnã – que ajudou a extrair momentos de mais tranquilidade nos subúrbios americanos – é vista como tal (as únicas menções ao Vietnã surgem no curta-metragem que os garotos gravam, quando Joe Lamb atua como um oficial que chama outro porque teriam servido juntos no Vietnã, uma “época difícil”). Numa reunião comunitária, depois dos acontecimentos estranhos, uma mulher afirma que só pode ser “uma invasão dos russos”.

Ver a realidade, nos anos 70, era, sem dúvida, se deparar com uma guerra distante que afetou de sobremaneira os Estados Unidos. E, no caso de Joe, é recordar a morte de sua mãe. Nesse sentido, o monstro é uma metáfora desta tentativa de despedida do personagem para superar seja a perda pessoal ou histórica: Abrams o coloca no subterrâneo de uma cabana localizada num cemitério. Joe precisa superar o medo de outra perda e resgatar quem lhe dá acesso a uma nova camada de vida.
Esta divisão entre o universo das filmagens e o da realidade é o que move Super 8. Os personagens querem se relacionar, porém essa relação se dá sobretudo em frente ao projetor de filmes e à televisão: especificamente, em três situações – quando Joe e Alice conversam sobre o que aconteceu à mãe dele e quando Joe e seu amigo descobrem que as imagens gravadas na plataforma de trem guardam mais do que eles haviam imaginado até então. Ou quando Charles está vendo o noticiário sobre o descarrilamento de trem e se vira para Joe: “Se noticiaram, é real”, como se tudo pelos quais eles passam tivesse de ter uma conotação cinematográfica. Assim, o filme de Abrams questiona a própria realidade fora do filme que esses garotos estão fazendo – e vemos ela se desenhar nos pôsteres de Star Wars do quarto de Joe Lamb. Eles estão sempre visando a fantasia, ao contrário de algumas figuras mais velhas, como o delegado, que não se interessa na novidade que lhe é mostrada pelo funcionário da loja de conveniência de um posto de gasolina: o toca-fitas em que toca “Heart of glass”, de Blondie, banda típica desse período.
Consequentemente, os personagens de Super 8 parecem estar em busca de um novo mundo, ao mesmo tempo que querem manter a segurança de suas vidas – e, mesmo que alguns deles não sejam desenvolvidos da maneira mais apropriada, nos interessamos no andamento. O novo mundo é representado pelo cinema de forma definitiva: Joe, em seu quarto, cria bonecos e um universo à parte. A maneira que se aproxima de Alice é ao conseguir fazer a maquiagem nela – e convencê-la a participar de toda a realização do filme. Isso, no entanto, a partir de determinado momento, não é mais possível – não tanto pelas crianças terem perdido seus sonhos, mas porque, afinal, é preciso, de um modo ou de outro, crescer (todas elas, nesse sentido, têm muito de Elliott, o personagem de E.T.), sem perder o ímpeto da descoberta. Do mesmo modo, a movimentação em torno da família é resquício de uma época mágica – como correr em torno da televisão ou montar maquetes pelo simples motivo de vê-las em pé, mesmo sem funcionamento. Para Abrams, porém, em algum momento deve-se saltar da tela para a realidade.
Com uma reconstituição perfeita dos anos 1970, montagem acelerada, trilha sonora de qualidade de Michael Giacchino (sobretudo nas escalas mais sentimentais), e poucos closes no monstro, para encobrir do que se trata – o monstro, na verdade, sai à noite, e entendemos ao final o motivo –, é um filme que cumpre o que promete. Abrams não engana o espectador ao recontar, em Super 8, a história de toda uma geração e de uma história que, afinal, perderia o encanto.

Super 8, EUA, 2011 Diretor: J. J. Abrams Elenco: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler, Ron Eldard, Noah Emmerich, Joe Courtney, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills Produção: J. J. Abrams, Bryan Burk, Steven Spielberg Roteiro: J. J. Abrams Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 112 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Amblin Entertainment / Bad Robot / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

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