Histórias cruzadas (2011)

Por André Dick

Este drama, baseado em romance de Kathryn Stockett, possui alguns méritos evidentes: tem um elenco competente (sobretudo Viola Davis, Octavia Spencer, premiada com o Oscar de atriz coadjuvante, e Jessica Chastain, que surgiu em A árvore da vida) e uma reconstituição notável (com uma direção de arte e figurinos destacáveis, além de uma fotografia detalhada).
Ao lidar com o preconceito existente na sociedade norte-americana dos anos 60, o filme evidencia esse panorama, mostrando o dia a dia de algumas empregadas domésticas negras, Abileen (Viola) e Minny (Octavia Spencer), e o afastamento que elas sofrem, por não terem direitos iguais – há cenas que tratam do problema muito bem filmadas pelo diretor, Tate Taylor. Essas empregadas acabam contando suas histórias a uma jornalista, Skeeter Phelan (Emma Stone), que volta à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, e, entre reuniões com mulheres que se encontram para comer bolo e tomar chá, pretende escrever um livro sobre elas, a pedido de uma editora (Mary Steenburgen) de Nova York. Além disso, ela foi criada por Constantino (Cicely Tyson), demitida de forma injusta por sua mãe (Allison Janney, numa grande atuação), motivo que a faz se dedicar ainda mais ao trabalho – um dos melhores momentos é quando ela se lembra de uma passagem na infância, em que Taylor melhor consegue conciliar tempos diferentes e estabelecer um vínculo entre as personagens.
Abileen cuida de uma menina que a chama de verdadeira mãe, e Minny, apesar de sofrer violência doméstica do marido e ser demitida por uma dona de casa maquiavélica, Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), filha de Sra. Walters (Sissy Spacek), encontra uma mulher ignorada pelas mulheres da sociedade de Jackson, Celia Foote (Jessica Chaston) – e a relação entre as duas, primeiro escondida, torna-se mais próxima com o passar do tempo e se dá, a princípio, a partir da descoberta, por parte de Celia, de novas receitas culinárias para o marido dela. Em meio aos acontecimentos, transcorre o surgimento da Lei dos Direitos Civis (há uma menção à Marcha sobre Washington, de 1963) e esta trama acaba ficando um tanto deslocada em relação à principal, servindo mais como pano de fundo histórico.

O diretor Tate Taylor não consegue efetuar a dramaticidade que vemos Spielberg conduzir, por exemplo, no clássico A cor púrpura, nem desenha a amizade comovente entre uma idosa e seu motorista, como havia em Conduzindo miss Daisy, ou a de uma dona de casa com um jardineiro, no belo Longe do paraíso. Assim, o filme não deslancha como poderia. Faltam conflitos entre as personagens e, de maneira geral, parece que existe uma aceitação de determinados comportamentos.
Há, nisso uma certa infantilidade no tratamento dado, o que repercute a tendência maniqueísta: as mulheres brancas são cruéis, e o espectador é atendido em sua vontade de puni-las – mas os personagens parecem receber novamente sua punição mecanicamente, nunca alçando realmente uma dramaticidade. E a vilã, por ser exagerada, acaba tirando do filme a proporção exata da gravidade de suas ações – tornando algumas situações quase cômicas, quando na verdade não o são, ou invariavelmente em clichês. Nesse sentido, a reabilitação de alguns personagens soa, em parte, esquemática, pois não há conflito dramático entre personagens que chegue até ela. É de se desconfiar se é a presença de Chris Columbus (que escreveu grandes sucessos nos anos 80, como Os Goonies e Gremlins, mas nunca emplacou como diretor, a exemplo de suas tentativas em Harry Potter e, quando fez um drama, Lado a lado, não foi efetivo) como produtor do filme.
Porém, a visão de Taylor não é superficial: a  jornalista – cercada por copos de café e datilogrando sua máquina à noite – ajuda a mostrar a contundência de ações que havia em relação às empregadas.
Pode-se dizer que isso acarreta outro significado possível: o de que personagem da jornalista quer fazer sua carreira decolar. No entanto, Tate Taylor reverte isso pela lembrança que ela tem de Constantino e, afinal, pela relação que ela estabelece entre as personagens, tornando “A ajuda” do título original em “histórias cruzadas” do título brasileiro.
Trata-se de uma história, aqui, quase exclusivamente de mulheres: ou homens têm pouca participação, a não ser quando um policial resolve ir atrás de uma empregada ou quando um dos maridos, grosseiramente, levanta da mesa quando a empregada decide, depois de muito relutar, pedir ajuda; ou quando um jovem tenta conquistar a jornalista. Não há o posicionamento deles em relação às situações de racismo ou ao contexto: parecem figuras que não sabem o que estava se passando, o que prejudica a narrativa, mesmo que não chegue a desmerecê-la. O filme, nesse sentido, acaba crescendo – e muito – com o depoimento de Abileen e Minny, pois são personagens mais complexos do que aquelas mulheres de classe rica que o filme enfoca.
Também não parece haver dúvida de que a semelhança física entre as atrizes Jessica Chaston e Bruce Dallas Howard (filha do cineasta Ron Howard) ajuda a criar um paralelo de comportamento – mesmo porque ambas teriam outra coisa em comum, o que descobrimos ao final do filme, numa festa que guarda outra surpresa em relação também ao restante da trama.
A atuação das atrizes, reitera-se, merece destaque: Viola, apesar de não estar melhor do que em outras oportunidades, é uma atriz de grande talento; Spencer mereceu o Oscar de atriz coadjuvante; e Chaston faz uma interpretação bastante agradável, aproveitando um personagem até certo ponto superficial. Infelizmente, o papel central é desempenhado por Emma Stone, uma atriz simpática (principalmente em Amor a toda prova), mas que não confere peso dramático às cenas, como se exigiria neste caso.
Se os personagens não se enlaçam como deveriam e alguns deles são mal desenvolvidos, além de ter, pelo menos, mais tempo do que deveria – um corte na montagem deixaria a história mais ágil, sem prejuízo da narrativa –, não resta dúvida de que se trata de um filme efetuado com cuidado. Não se vê, em Taylor, um desejo de contar uma história definitiva, e sim de mostrar com delicadeza essas personagens e colocá-las num contexto grave, o que ele desempenha bem, tornando o filme atrativo.

The help, EUA, 2011 Diretor: Tate Taylor Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green Roteiro: Tate Taylor Fotografia: Stephen Goldblatt Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 146 min. Distribuidora: Disney Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Cotação 3 estrelas

 

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