Meia-noite em Paris (2011)

Por André Dick

Depois de alguns anos rodando por cidades europeias, como Londres (em Match point) e Barcelona (em Vicky Cristina Barcelona), Woody Allen chegou à Cidade Luz, Paris, para realizar aquele que é, nos últimos anos, seu filme mais elogiado e discutido, mesmo porque consegue trazer o início de sua trajetória com a fase do início dos anos 2000, como comédias como Igual a tudo na vida.
Allen quer nos fazer crer que seu escritor contemporâneo Gil Pender (Owen Wilson, em grande momento) volta, todas as meias-noites que está em Paris, para o início do século XX, quando perambulavam pela cidade as maiores figuras da literatura, da pintura e do cinema (como Hemingway, Picasso, Buñuel e Gertrude Stein). Não há dúvida de que ele se sai muito bem, entregando-nos um filme linear em seus propósitos, de qualquer modo enriquecido de detalhes – a transição do presente para o passado nunca é brusca, no entanto sempre guiada pelo trabalho de fotografia e pela direção de arte destacando a luminosidade dos ambientes. Desde o início, com uma longa sequência de imagens de diversos pontos de Paris, ao som do jazz, música preferida do diretor, o espectador não apenas assiste à cidade, mas se sente nela, como, em seguida, seus personagens.
Ele realiza um dos filmes mais humanos já feitos sobre a ligação entre gerações e artes, perdidas no tempo. O personagem do escritor, vivendo sempre com a mente no passado, é a representação dessa tentativa do ser humano de equivaler épocas; ele acha que se sentiria mais feliz na Paris dos anos 20. Mas Allen nos pergunta se cada época não tem sua própria felicidade. Os coadjuvantes que o cercam (como Paul Bates, o pseudointelectual interpretado pelo versátil Michael Scheen) ou sua noiva, Inez (Rachel McAdams), acompanhada por seus pais, atrapalhar Gil para sua fuga ao passado.
E este é muito bem reconstituído, pelo habitual toque de Woody Allen para situações surrealistas.
A cena em que Gil conhece os Fitzgerald (Tom Hiddleston e Alison Pill), por exemplo, é muito bem conduzida, até seu encontro com Hemingway (Corey Stoll), onde este diz que pode até ler seu romance, mas irá detestá-lo, se for bom (porque teria qualidade) ou ruim (porque o faria perder tempo), assim como quando visita Gertrude Stein (Kathy Bates, bastante parecida fisicamente com a poeta e romancista), e ela discute como Picassso retratou sua amada, pela qual Gil se interessará, Adriana (Marion Cotillard, de Piaf) . Também quando se depara com Salvador Dalí – vendo rinocerontes no ar, numa atuação engraçada do quase sempre sério Adrien Brody –, Luis Buñuel e Man Ray, contando seu problema de viagens no tempo. “Eu acredito em você”, diz Ray. “Sim, mas você é surrealista”, responde Gil.

Essas brincadeiras com escolas e movimentos fazem com que o filme de Allen seja uma espécie de reencontro entre uma geração que tornou essas escolas em referenciais com aqueles que nem pensavam em constituí-las no início. Para Gil, Paris ainda é uma festa, e lembra pinturas de Manet, e ele quer aproveitá-la, mesmo que seja namorado de uma mulher fútil, que a ele prefere o amigo pseudointelectual, capaz de discutir até com uma guia (Carla Bruni) que sabe melhor as histórias sobre cada monumento. Gil age ao contrário; ele tem uma satisfação reverencial diante desses escritores, ou seja, ele nunca se coloca no pedestal por estar podendo conviver com eles.
Indefinido entre viver sua realidade – de escritor de Hollywood – e a de viver um sonho – ser, mais do que escritor, um amigo de Hemingway, Gertrude Stein, Eliot…. –, Pender acaba constituindo parte do imaginário do próprio Allen, que desde Dirigindo no escuro cada vez mais se autossatiriza, como se não levasse a sério sua própria obra, ou como se quisesse cada vez mais mantê-la longe do museu. As mulheres que o cercam tentam ou arrastá-lo para fora de sua imaginação ou acolhê-lo com seus erros de escritor ainda pouco resolvido, porém é sobretudo Adriana aquela que vai colocá-lo diante de sua dúvida: ficar numa Paris ainda mais antiga para sempre, ou voltar para a dura realidade de escritor em fuga de Hollywood, com um pequeno quarto para escrever em Paris, e uma luminária para acompanhá-lo. Ela é um contraponto para a noiva de Gil, Inez, a quem Rachel McAdams não empresta estofo adequado, parecendo, em boa parte do filme, apenas exaltada (e suas limitações haviam sido bem disfarçadas em Uma manhã gloriosa, formando dupla com Harrison Ford). E um extremo da vendedora (Léa Seydoux) que Gil conhece, tratando de Cole Porter – e a música cria um novo enlace atemporal. Além disso, os escritores que tanto admira – como Hemingway e Scott F. Fitzgerald – vivem em bares noturnos ou festas, atrás de mulheres ou querendo brigar (no caso do autor de O velho e o mar), o que acaba concedendo, mais do que humor, uma humanidade a eles. Se Gil Pender não conseguirá se sobressair na literatura, como Hemingway, ou como o pintor Picasso, pelo menos quer tentar conquistar a mulher que todos desejam, Adrianna – o que, para ele, não deixa de ser um consolo.
Como em outros filmes de Allen, a hipótese nunca é solucionada de maneira tranquila, sem atritos, e é preciso sempre confrontar o passado para se decidir dar o passo à frente. Gil Pender se diverte pedindo quadros para Picasso e tomando conselhos de Gertrude Stein, mas em determinado momento, pela frequência com que os encontra – antes, depois ou durante as festas –, é como se a magia da época áurea para ele fosse terminando, e essa magia é a mesma que sentimos quando Allen deposita sua expectativa num passo idealizado e romantizado: para ele, é preciso recorrer às fontes, embora não seja o melhor viver delas nem com elas. Com isso, a magia de Meia-noite em Paris vai também, aos poucos, diminuindo, quando vemos que Allen, na verdade, parece se conformar com o presente.
Entre idas e vindas no tempo, o personagem, apesar de indicar comprimidos modernos a Zelda Fitzgerald, antecipar a ideia de um filme para Buñuel ou prever que poderá acontecer num encontro romântico até então inexistente – nas tiradas de Marty McFly de Gil Pender –, pode ser visto como alguém que se concentra no passado para, então, de repente, renascer. Paris é idealizada por Gil Pender, mas aos poucos talvez seja hora de colocar uma música na vitrola e ficar em casa com os livros e a amada. Tal elemento parece estranho à filmografia de Woody Allen, que sempre esteve mais interessado em deixar seus personagens inquietos. No entanto, parece algo que se coloca cada vez mais no cinema moderno: o personagem melancólico transforma sua própria melancolia em obra. Ou seja, trata-se de uma melancolia arquitetada, construída, apenas à espera da chuva de Paris para poder se justificar (enquanto em outra comédia romântica, a subestimada Alguém tem que ceder, era a neve).
Allen está num momento inspirado, como esteve na maior no início deste século, sem ter a contrapartida da crítica (apenas para citar dois filmes: Igual a tudo na vida e Dirigindo no escuro, cada um especial à sua maneira de não levar a sério o contexto em que estão inseridos), entretanto aqui volta aos tempos de A rosa púrpura do Cairo (quando Jeff Daniels saía da tela para beijar Mia Farrow), em igual medida, tendo Gil como seu guia e alter ego, apaixonado pela chuva que cai sobre Paris, deixando-a mais bonita. Mas isso não é no passado?
Não para Allen, que se coloca como observador de um universo atemporal.

Midnight in Paris, EUA/ESP, 2011 Diretor: Woody Allen Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Michael Sheen, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Rachel McAdams, Adrien Brody, Gad Elmaleh, Carla Bruni, Nina Arianda, Mimi Kennedy, Corey Stoll, Manu Payet Produção: Letty Aronson, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum Roteiro: Woody Allen Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Stephane Wrembel Duração: 94 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Gravier Productions / Mediapro / Televisió de Catalunya (TV3) / Zentropa International Sweden

Cotação 4 estrelas e meia

 

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4 Comentários

  1. Renata

     /  17 de junho de 2013

    Excelente crítica! Amei o filme. Só gostaria de fazer uma pequena correção. Quando diz “Ella Fitzgerald” na verdade queria dizer Zelda Fitzgerald não? No mais, muito perspicaz.

    Responder
    • Prezada Renata,

      Obrigado por sua visita e por seu comentário generoso, a respeito da crítica! Agradeço também pela correção; já fiz a mudança (confundi com a ótima cantora de jazz rsrs).
      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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