Cavalo de guerra (2011)

Por André Dick

Conhecido por entreter as plateias, seja com drama, seja com aventura, seja com humor e suspense, Steven Spielberg é um dos maiores cineastas da história. Sua lista de acertos – também como produtor – excede qualquer quantidade de falhas (são poucas, mas das mais variadas formas). É inevitável pensar o que pode ter atraído um nome como ele para este projeto Cavalo de guerra, baseado em livro de Michael Morpurgo (publicado em 1982, mesmo ano em que o diretor realizou sua obra máxima, E.T. – O extraterrestre), que parece ter sido filmado nos períodos de folga de As aventuras de Tintim – ou seja, sem a mesma dedicação dada a este. Certamente, trata-se de uma história que renderia bons momentos, lembrando O corcel negro, por exemplo, se o cineasta estivesse interessado. Estão lá vários elementos: o conflito com a família, o encontro com um ser que pode mudar a vida do personagem, a separação e o possível reencontro. Nesse sentido, com todos elementos de que gosta, surpreende ver um Spielberg tão desinteressado e desinteressante, incapaz de mostrar uma cena sequer de simpatia entre os personagens, um de seus elementos fortes, mesmo quando a história costuma se encaminhar para o sentimentalismo. Parece uma espécie de Spielberg genérico, produzido pelos estúdios Disney, tentando retratar um universo que já lhe interessou em outros momentos – e ainda interessa, quando pretende desenvolvê-lo – e mesmo incapaz de fazer o que mais é de seu talento: desenvolver uma história envolvente.
Em Cavalo de guerra, a começar pelo astro juvenil, Jeremy Irvine, inexpressivo (difícil imaginar por que Spielberg, especialista em apresentar atores jovens, o escolheu), o elenco não consegue se sobressair em grande parte. Possivelmente seja porque a história em momento algum se sustente. Trata de um jovem, Albert Narracott (Irvine), que mora com a mãe, Rose (Emily Watson, uma ótima atriz, aqui apenas deslocada), e o pai alcóolatra, Ted (Peter Mullen, sem chance de aparecer). Este acaba comprando um cavalo por um preço acima do normal, a fim de que ele faça a aragem da fazenda. Ameaçado pelo dono de casa, Lyons (David Thewlis), de ser expulso, ele a princípio tenta matar o cavalo rebelde, que começa a ser chamado de Joey, mas seu filho o convence de que devem ficar com o animal. O cavalo acaba fazendo o trabalho, porém, quando inicia a I Guerra Mundial, é vendido para um oficial inglês, capitão Nicholls (Tom Hiddleston, de Meia-noite em Paris e Os vingadores, sem dúvida o melhor do elenco e um sinal do que o filme poderia ter sido). Ele promete à Jeremy que vai cuidar do cavalo, o que prometeria boas cenas de expectativa de um possível reencontro ou não – embora, digamos, que essa ligação seja logo rompida, fazendo Spielberg se perder completamente.

O filme, daí em diante, torna-se episódico, passado em lugares diferentes, com personagens distintos, e talvez esta seja sua grande falha. Não há nenhum envolvimento com a ação e com os personagens, pois não temos tempo necessário (mesmo com a metragem excessiva) de conhecê-los, e o roteiro é de uma limitação bastante surpreendente. Sejam os irmãos desertores, seja o avô que vive com a neta numa fazenda, tentando esconder os horrores da guerra que está iniciando, os personagens não adquirem, em momento algum, vida, mesmo em contato com Joey – o símbolo da natureza em meio a uma época bélica, de tanques e armas –, o que era de se esperar do cineasta que lida com eles, e não é possível responsabilizar, nesses casos, o elenco, mas os diálogos, a trama propriamente dita.
Sabemos que Spielberg recorre a sínteses em seus filmes: os personagens de repente passam a agir de determinada maneira porque o filme se encaminha para o final, e o diretor não quer mostrar seus conflitos. Em Cavalo de guerra, isso acontece exatamente o tempo todo, desde o início, quando o vilão é de um maniqueísmo sem sentido e o jovem que quer ensinar o cavalo é apenas um sonhador em meio a uma paisagem bucólica. Isso não seria um problema, se soubéssemos algumas de suas motivações. Pelo contrário, Spielberg não as explica e fica bastante incomodado de precisar contar uma história em que, pelas imagens, parece desacreditar. Ao mesmo tempo, quando acompanhamos o destino de Joey, o destino de seu antigo dono, Albert, é simplesmente esquecido, chegando ao ponto de, em certa altura, quase esquecermos do personagem ou de sua pretendida relevância para a narrativa. Tanto que sua ligação conturbada com o pai não tem o propósito adequado diante do restante da narrativa.
A reconstituição de época – sobretudo da fazenda da família de Albert – e a fotografia de Janusz Kaminski parecem os grandes destaques, mas em se tratando de um filme de Spielberg é muito pouco, até porque são detalhes muito referenciais a um cinema clássico (como em determinado momento em que é copiado o plano de …E o vento levou). Mesmo a trilha sonora de John Williams é um dos trabalhos mais fracos de sua carreira. Já no início, não entendemos por que, quando a história recém inicia, há escalas musicais de épico, quando as cenas não correspondem ao que é sonorizado. Junto a isso, Spielberg usa a fotografia para disfarçar as limitações da história, o que nunca é um bom prenúncio. Há sequências, claro, de acordo com o talento do cineasta: a primeira batalha entre ingleses e alemães é impressionante pelo nervosismo que Spielberg coloca quando faz close em alguns personagens, e a batalha em que o cavalo fica preso num arame farpado lembra os melhores momentos de O resgate do soldado Ryan (justamente as cenas de batalha bastante verossímeis); também a cena do primeiro arado, excluindo o seu contexto.
O problema é que, excetuando esta última parte, não vemos Joey, o cavalo do título, como o centro da ação, como deveria acontecer, sendo ele um símbolo da resistência desse animal na I Guerra Mundial. Spielberg parece indeciso entre fazer um filme para crianças e jovens – com um selo dos estúdios Disney – e enfocar a história de maneira mais contundente, como já demonstrou fazer no citado Soldado Ryan. De modo que essa indecisão acaba pesando bastante no resultado final, tirando a energia que poderia existir em Cavalo de guerra.

War horse, EUA/Reino Unido, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Jeremy Irvine, Tom Hiddleston, David Thewlis, Emily Watson, Benedict Cumberbatch, Toby Kebbell, Peter Mullan, David Kross, Eddie Marsann, Geoff Bell, Niels Arestrup Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Lee Hall, Richard Curtis Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 145 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: DreamWorks SKG / Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Reliance Entertainment / The Kennedy/ Marshall Company

2  estrelas

 

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