O artista (2011)

Por André Dick

Concorrendo ao Oscar de melhor filme com obras marcantes como Os descendentes, A invenção de Hugo Cabret, Meia-noite em Paris e A árvore da vida, por exemplo, O artista atraiu a atenção sobretudo por se tratar de um filme mudo e em preto e branco, num momento de expansão dos filmes em 3D. Trata-se de uma homenagem à origem do cinema, assim como o foi Hugo Cabret, na recuperação da figura de George Méliès. Desde o início, quando o ator George Valentin está acompanhando a estreia de um de seus filmes, no backstage atrás da grande tela de cinema, vendo sua interpretação, e, ao final dela, aparece para a plateia, sapateando ao lado de seu cãozinho, tentando ignorar a presença de sua coparceira, também estrela do filme e incomodando o produtor, Al Zimmer (John Goodman), o filme tenta recuperar certa magia dos filmes de Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton. Na saída do cinema, ele acaba sendo beijado por uma de suas fãs. Na capa da Variety, estampa-se a foto do casal com a pergunta: “Quem é essa garota”. No dia seguinte, ele a reencontra no estúdio em que trabalha e, separados pela tela de um céu segurada por assistentes, ensaiam passos de dança, e ele pede a contratação dela ao produtor para aparecer em uma ponta.
Essa garota, e Valentin ainda não sabe, acabará passando de coadjuvante para estrela de Hollywood, Peppy Miller (Bérénice Bejo), sobretudo quando o cinema mudo começa a desaparecer e ele é dispensado do seu estúdio, sendo considerado um ator do passado. Indiferente à tendência da sonoridade nos filmes, ele se torna astro e produtor de “Lágrimas de amor”. No final, acaba indo à bancarrota com a Depressão de 30, sendo abandonado pela mulher (Penelope Ann Miller), conservando apenas o fiel chofer, Clifton (James Cromwell, num papel discreto e essencial para a trama) e o cãozinho que participa de seus filmes.
O diretor Michel Hazanavicius tenta, por meio de uma sinopse muito simples, recriar o ambiente do cinema mudo e em preto e branco, explorando, sobretudo, a não colocação, na tela, do que os personagens estariam falando. Desse modo, em muitas situações, o espectador fica livre para criar seu próprio filme, ao passo que ele é linear, quase como se ordenasse pequenas esquetes e quadros dentro de uma metragem maior. Mantendo um certo ar original de cinema dos anos 20, o diretor consegue eliminar o que poderia ser excesso e torna seu personagem principal, Valentin, mais humano do que pode aparecer à primeira vista, sendo o retrato acabado do artista que fica sem lugar.
Assim, seu drama particular ganha mais relevo do que a parte bem-humorada do filme. Ganhador do Oscar de melhor ator, Jean Dujardin é mais talentoso do que aparenta e mesmo durante a divulgação do filme, em que aparecia com um sorriso sempre exagerado. Sua interpretação, pelo contrário, é, excetuando alguns momentos do início, bastante contida, mesmo quando abre uma porta ou atravessa uma rua solitário, ou quando para em frente a uma vitrine vendo um terno de seus momentos mais gloriosos – o personagem adora se ver, e não por acaso o seu cãozinho imita seu gestual. Ele realmente empresta alma ao filme.
O diretor, por sua vez, evita que seu filme se torna uma cópia ou simples homenagem ao cinema mudo. O artista procura, num momento em que a indústria se volta para o movimento ininterrupto, dar uma visão mais concentrada de elementos do roteiro, como se fossem quadros. Parece haver o objetivo de esclarecer que o cinema se faz de uma conjunção básica: direção, roteiro, atuação, montagem e som. Desse modo, a risada de Valentin, quando vê um exemplo de cinema sonoro, se transforma no prenúncio de sua própria queda. Orgulhoso, com seu retrato pintado numa enorme tela da qual se despede quando sai de sua casa, ao mesmo tempo, possui uma generosidade captada por personagens como o de seu chofer e do cãozinho. O momento em que sonha que está em seu estúdio e as coisas ao seu redor começam a ter som, fazendo-o ficar desesperado (como na tela “O grito”, de Edward Munch), é um dos melhores exemplos. O diretor consegue, por meio de poucos elementos, traduzir o personagem como aquele que não quer escutar o outro, mas quer apenas o reflexo de suas próprias ações na tela grande, sobretudo quando, na estreia de seu filme também como diretor, posiciona-se ao fundo do cinema quase vazio, tentando não identificar a recepção da plateia, mas se ele está perdendo vigor porque, junto de sua interpretação física, não há a fala.

A sua mansão deixa de ser um lugar iluminado, como no início, e passa a trazer sua desconfiança e respectiva penumbra. Os cartazes luminosos chamam atenção todos para a nova estrela, que ele ajudou em início de carreira, porém a quem não deseja recorrer exatamente porque ela vem terminar com o reflexo que via nas telas, baseado no gestual e na necessidade de não falar e, quando falar, dizer o mínimo. Não por acaso, num universo que não mais o aceita, ele passa a ver seus filmes em casa, tentando rever o que fazia e como se considera interessante – cada vez mais solitário.
Um dos momentos mais interessantes do personagem é quando ele vai finalmente assistir a um filme falado, com a estrela que ajudou a revelar, e se senta, com seu cãozinho, na plateia, como um espectador e não um artista. Valentin, fascinado por seu gestual, que não contaria tanto no cinema falado, parece concluir por que precisa não se vender ao cinema falado, e sim aceitar a mudança de sua plateia. Nesse sentido, se Valentin pode ser uma espécie de exemplo para produtores gananciosos (como aquele interpretado por John Goodman), o de que o artista deveria, no cinema, adaptar-se ao sistema, também é verdade que a entrada da sonoridade neste universo até então mudo transforma o comportamento e o modo com que se lê a história de um filme, e de como o artista pode se ver na tela.
Há momentos que parecem óbvios, contudo são realmente tocantes, como aquele em que o chofer de Valentin não aceita ir embora, ou quando o cãozinho precisa ajudar o personagem a sair de uma situação crítica, e mesmo quando Valentin descobre o que Peppy havia feito por ele. E O artista tem outra qualidade: a de não colocar um peso excessivo, dramático, sobre os personagens, como se a história deles representasse a história do cinema de sua época – sendo apenas uma referência em alguns pontos.
Portanto, o filme talvez seja melhor interpretado fora de seu universo de premiações (Oscars de melhor filme, diretor, ator…), e ser analisado a partir do que pretende expor, sem comparações com clássicos em que se inspira ou a que homenageia. Não parece haver nele – exceto o marketing criado em torno, que com o tempo se dissipa, logo que o filme sai das bilheterias – nenhuma pretensão exagerada de contar ou recontar alguma história, mas de pertencer, de algum modo, a esta narrativa cinematográfica não como inovação ou vanguarda, num movimento paradoxal, já que traz de volta o que não é mais usual (o filme mudo e em preto e branco), e sim como representação do que permanece.

The artist, FRA/BEL, 2011 Diretor: Michel Hazanavicius Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Malcolm McDowell Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat Roteiro: Michel Hazanavicius Fotografia: Guillaume Schiffman Trilha Sonora: Ludovic Bource Duração: 100 min.  Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: La Petite Reine / uFilm / JD Productions

Cotação 3 estrelas e meia

 

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