Para Roma com amor (2012)

Por André Dick

Foi nos anos 70 que Allen consagrou seu estilo, com Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall) e Manhattan, à frente dos demais. Nos anos 80, fez filmes mais nostálgicos, como A era do rádio, A rosa púrpura do Cairo e Hannah e suas irmãs, um pouco mais dramáticos do que o habitual. Nos anos 90, teve o que se considera seu declínio, mas ainda assim vemos títulos entre os melhores de sua trajetória, a começar por Maridos e esposas, Tiros na Broadway e Poucas e boas. Quando no início dos anos 2000, realizou filmes como O escorpião de Jade, Dirigindo no escuro e Igual a tudo na vida, comentava-se sobre sua distância dos melhores momentos. Era um exagero. Mesmo as comédias menos expressivas de Allen são melhores do que aquelas habituais, e um filme como Igual a tudo na vida, uma espécie de Annie Hall de jovens, é um dos melhores. Com  produções em que experimenta paisagens fora de sua habitual Nova York, Woody Allen vem fazendo uma espécie de cinema turístico. Foi assim em Vicky Cristina Barcelona, Meia-noite em Paris e agora em Para roma com amor. Todos filmes com qualidade, elencos de destaque e diálogos que fluem.
Allen se divide entre reinventar o que já fez nos anos 70 e a nostalgia de sua fase oitentista. Meia-noite em Paris mesclava ambos os momentos de maneira superior a tudo o que andávamos assistindo, e Owen Wilson era um alter ego de peso para o diretor, repetindo seus maneirismos. Havia nele um peso turístico grande – o início, sobretudo, podia fazer parte de cartões postais –, mas não havia nenhuma grande influência específica do cinema francês. É como se Allen tivesse transportado seus tipos amargurados de Nova York, intelectuais arrependidos por fazer sucesso, para Paris. Ele também não estava interessado em mostrar exatamente a cultura francesa, e sim artistas de diferentes lugares que estavam em Paris na década de 1920.
O que não acontece em Para Roma com amor, que é uma espécie de reedição das comédias italianas dos anos 60 e 70, com uma certa leveza, sobretudo na trilha sonora (com alguns clássicos), que não víamos há muito tempo e um senso equilibrado de farsa. Se Allen agora divide-se em quatro histórias, é porque Roma e a Itália evocam muito mais um cinema do qual tenta se aproximar do que o francês. E se sai muito melhor do que, por exemplo, um Robert Altman em Prêt-à-porter, no qual gostaria de ter feito um filme como este.
Ele se sente mais à vontade com os tipos italianos, e começa apresentando o filme por meio de um agente de trâfego – que logo, no entanto, desaparece. Em seguida, vemos um casal se conhecendo: a americana de Nova York, Hayley (Alison Phill), fazendo turismo, e o rapaz italiano, Michelangelo (Flavio Parenti). O seu pai é justamente um senhor nova-iorquino, da indústria de música, Jerry (Allen, divertido), casado com uma psicóloga, Phyllis (Judy Davis) – “Se está falando em nome de Freud, peça meu dinheiro de volta”, diz ele. Chegando à Itália, logo tem um atrito com o noivo da filha, sobretudo quando põe na cabeça que o pai dele, Giancarlo, poderia ser um tenor (este personagem é interpretado por um tenor real, Fabio Armiliato), depois de ouvi-lo cantando no chuveiro, o que rende uma das cenas mais divertidas do filme. Insistindo em tirá-lo do trabalho como agente funerário, ele tentará, por meio disso, provar que não deveria estar aposentado e, como ele diz, próximo da morte.

A segunda história mostra um jovem arquiteto, Jack (Jesse Eisenberg, um ator que, embora tenha trejeitos e cacoetes, é divertido), casado com Sally (Greta  Gerwig, sem oportunidade de aparecer), que recebe a visita não só de um arquiteto mais velho, John (Alec Baldwin, aprimorando seu estilo de comediante que rouba a cena nas poucas em que aparece), que depois identificamos como sendo uma espécie de alter ego experiente de sua vida (embora não pareça Baldwin ser sua versão mais velha, uma vez que ele pouco tem a ver com Eisenberg, a não ser que seja mais uma liberdade de Allen), como da melhor amiga da mulher, Monica (Ellen Page, inexpressiva em Juno e que aqui parece tentar imitar até mesmo os trejeitos da Amanda de Christina Ricci de Igual a tudo na vida, que, ao mesmo tempo, tinha os mesmos elementos pseudoculturais na sua fala), completamente liberal. O seu alter ego tenta alertá-lo de suas possíveis traições e de sua pseudocultura. Em certo momento, ela encadeia citações de Yeats, Rilke e Pound – John salta atrás de Jack, dizendo que ela decorou um verso de cada. Esta é a história mais parecida com a dos tradicionais filmes de Allen.
A outra história envolve um casal que chega a Roma, Milly (Alessandra Mastronardi) e Antonio (Alessandro Tiberi). Ele vem em busca de negócios e para apresentar a mulher à família. Por uma série de questões pouco convicentes, mesmo para uma comédia como essa, ele acaba tendo de apresentar a prostituta Anna (Penélope Cruz) como sendo a mulher, que, por sua vez, está perdida em Roma, encontrando-se com o seu astro preferido. Esta parte lembra as comédias descompromissadas italianas dos anos 70, mas perece por ser excessivamente teatral. Especialmente porque Tiberi não é um bom ator, o que dá a todas as sequências em que aparece um ar de teatro precário. Penelope, ao contrário do papel que recebeu em Vicky Cristina Barcelona – bastante divertido, o que lhe rendeu um Oscar de atriz coadjuvante – parece aqui completamente deslocada, como se tivesse sido chamada para o papel às pressas para complementar o filme em que estivesse faltando um pedaço (quando não estava; era a parte excessiva). Na verdade, curiosamente, esta parte, que mais lembra as comédias italianas, dos anos 60 e 70, é a que menos rende frutos a Allen.
Finalmente, temos a parte do filme que apresenta Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni, que aqui parece encontrar seu tom certo). De um dia para outro, ele começa a ser perseguido por repórteres e vai para a TV, transformando-se numa personalidade pública, mesmo não tendo absolutamente nada a dizer. Esta é a parte, digamos, mais surreal e farsesca do filme – embora todas as outras tenham uma dose desses elementos – e, a princípio, pela interpretação de Benigni, uma das mais divertidas. No entanto, a piada, pela repetição, acaba cansando, e Allen não sabe, ao contrário do que acontece em Meia-noite em Paris, cortar o filme em pelo menos 20 minutos, fazendo os personagens repetirem situações num tempo muito extenso de metragem (em alguns momentos, com a estranheza de vermos continuamente microfones pendurados acima dos atores; seria algo precário mesmo ou tudo não seria mais do que teatro filmado? Ao final, não sabemos). O que, obviamente, não impede de o espectador se divertir com cada tipo que ele apresenta, com a colaboração da fotografia de cenários tipicamente italianos de Darius Khondji (que já havia trabalhado com Allen em Meia-noite em Paris, e fez trabalhos de destaque, como em Seven, Delicatessen e O quarto do pânico).
A obsessão de Allen por mulheres que adoram citar referências literárias para tentar conquistar quem desejam está cada vez mais presente, assim como sua crítica à fama – mesmo que de modo, muitas vezes, moralista – e à tentativa de transformação da juventude. O seu genro no filme é o exemplo acabado desta tentativa: preocupado em transformar o mundo, não aceita, em momento algum, que o pai seja mais do que agente funerário, debochando de sua tentativa de ser um tenor. Do mesmo modo, os personagens estão querendo eliminar suas frustrações sexuais de modo enviesado: o personagem do arquiteto é muito parecido com o de Jerry Falks (Jason Biggs), de Igual a tudo na vida, e ambos são divertidos – com a diferença de que aquele queria ser escritor, aconselhado por um escritor mais velho (o próprio Allen) e paranoico. Por sua vez, Antonio idolatra a mulher, que não parece tão interessada nele quanto em atores e assaltantes. Todos os personagens estão perdidos em becos e ruelas, como se quisessem se prender ao labirinto de paisagens que Roma apresenta – ao lado daquelas turísticas, grandiosas, sendo o cenário, muito mais do que em Meia-noite em Paris, representativo desses personagens, que perambulam sem saber ao certo para onde ir e cujo movimento é variado (as histórias se passam em tempos diferentes). E Allen não repete o papel de um humorista que escreve piadas para pessoas mais jovens, mas varia um pouco, indo para o universo musical, do qual pelo menos entende que tirar o artista de sua zona de conforto pode propiciar problemas na plateia. Já Benigni, com seu tipo indefinido entre o espanto e a pretensão, faz de tudo com o papel limitado que recebe, cercado por dezenas de figurantes a cada cinco minutos que aparece na tela – e seu personagem, ao mesmo tempo, previsível, parece definir tudo o que se passa nos holofotes ou bastidores de Roma. Sim, completamente farsesco, embora não por isso menos divertido.

To Rome with love, EUA/ESP/ITA, 2012 Diretor: Woody Allen Elenco: Ellen Page, Woody Allen, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Alec Baldwin, Alison Pill, Greta Gerwig, Roberto Benigni, Ornella Muti, Judy Davis Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum  Roteiro: Woody Allen Fotografia: Darius Khondji Duração: 107 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Gravier Productions / Mediapro / Medusa Film

Cotação 3 estrelas e meia

 

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