Walter Salles: cinema na estrada

Por André Dick

Nascido no Rio de Janeiro, em 1956, Walter Salles, com seu cinema na estrada, demonstrou talento já em A grande arte (1991), seu primeiro e interessante filme, produção pioneira no Brasil, com orçamento de 5 milhões de dólares, falada em três línguas (inglesa, portuguesa e espanhola) e de muito impacto. O diretor vinha de trabalhos de marketing e documentários, o que explica as belas imagens que conduzem a trama, baseada em romance de Rubem Fonseca, também responsável pela adaptação.
Tudo gira em torno do fotógrafo americano Peter Mandrake (Peter Coyote, frio e racional, sendo que seu perfil se encaixa na narrativa empregada) em estadia no Rio de Janeiro, a fim de realizar um novo livro de fotos a partir dos “surfistas de trem”. Acaba se envolvendo com uma prostituta, Gisela (Giulia Gam), assassinada logo no início da narrativa, e sua namorada, Mariet (Amanda Pays), é estuprada quando bandidos tentam obter dele um disco com informações. Resolve vingar o que aconteceu com as duas, aprendendo a lutar com facas com Hermes (Tchéky Karyo) e indo atrás de uma quadrilha de traficantes na Bolívia, liderada por um empresário brasileiro (Raul Cortez) e seu irmão (Miguel Conde).
Os personagens são bem caracterizados (o Rafael de Tonico e o Hermes de Karyo são assustadores) e a trama veloz mantém a atenção. Muitas cenas são originais (os surfistas de trem, a luta final), embora a namorada de Mandrake não convença, o que não tira os méritos do filme, que, além de sua parte técnica notável (fotografia, música, direção de arte), cumpre o que promete: um policial intelectual e de qualidade, que revela o jovem Salles como realizador (desde a sequência inicial, com a câmera se afastando de um quarto de hotel onde ocorre um assassinato até mostrar a imagem dos edifícios da cidade) e assinala o início da retomada do cinema brasileiro – que passou por uma grande crise com o término da Embrafilme.
O diretor retornou à cena em Terra estrangeira (1995), com fotografia em preto e branco, ao lado da codiretora Daniela Thomas, mostrando um jovem, Paco (Fernando Alves Pinto), com pretensões a ser ator, que, depois do falecimento do mãe, na época do plano Collor, vai para Portugal, terra de origem dela, por meio do favor de levar junto um pacote. No país estrangeiro, ele acaba por perder o pacote e conhece uma moça (Fernanda Torres), que trabalha como garçonete e namora um viciado em heroína, além de contrabandista (Alexandre Borges). Paco acaba sendo perseguido por bandidos que querem o pacote, e Walter filma uma trama a princípio simples de maneira efetiva, lançando mão de uma série de recursos visuais que remetem à nouvelle vague.

Ao mesmo tempo que o novo país é a origem de si mesmo, ele está afastado, como todas as suas pessoas, do modo de agir de Paco – o que torna sua situação em determinados momentos angustiante. Em algum sentido, o drama de Paco lembra o de Mandrake, também um estrangeiro no Brasil e em países para onde viaja. E em certo momento essa garçonete por quem Paco se apaixona é uma correspondente da prostituta cuja morte Mandrake, em A grande arte, deseja vingar a morte. Os personagens estão em movimento, enfrentando situações adversas, mas querem sair de onde estão da melhor maneira possível – mesmo que o lugar onde estejam não permita isso. São personagens bastante complexos: se a frieza de Mandrake não o imobiliza diante do assassinato da prostituta, também Paco não pretende parar sua vida.
Esses dois primeiros filmes indicavam que os elementos da cinematografia de Walter Salles amadureciam e o resultou foi Central do Brasil  (1998) que possui um tom documental, extremamente realista, baseado no cinema de Nelson Pereira dos Santos dos anos 40, aspecto bastante acentuado pela crítica. Não chegando ao limite de violência, crueldade e crueza de Pixote, de Hector Babenco, um filme brasileiro igualmente extraordinário, com contornos trágicos, Central do Brasil tem um roteiro propositadamente simples, assinado por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, mas universal, o que justifica o fato de ter ganho alguns prêmios importantes, como o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, além de ter sido indicado ao Oscar também nessa categoria.

A ligação entre Dora (Fernanda Montenegro, indicada ao Oscar, que foi injustamente para Gwyneth Paltrow, de Shakespeare apaixonado), uma escrevedora de cartas na Central do Brasil, e o menino Josué (Vinícius de Oliveira), que perdeu a mãe num acidente e quer conhecer o pai, é, no fundo, a descoberta de dois órfãos, tanto de pais quanto da pátria, sobre a realidade que os cerca. Não à toa o filme de Walter é quase um filme de estrada, como Paris, Texas, de Wim Wenders, ou Bagdad Café, de Percy Adlon. É nesse tipo de filme, afinal, que os personagens vão crescendo na medida em que viajam para longe de seus lares, encontrando a alma perdida em algum ponto de referência na estrada que os aguarda. No caso do filme de Salles, o ponto de referência é a estrada brasileira, com alguns tipos inconfundíveis. O exemplo mais bem acabado é o do caminhoneiro (Othon Bastos, excelente), religioso ao extremo, que dá carona a Dora e Josué quando ambos já não tem como comer e viajar para onde querem.
Fugindo do exílio solitário imposto pela vida, atrás de descobertas, Dora e Josué descobrem não só a si mesmos, no fim da jornada, mas também o país. País de pessoas solitárias – aspecto acentuado ainda quando a história transcorre na Central do Brasil, quando o movimento da multidão se dirigindo aos trens não arranca Dora e Josué da solidão onde estão exilados –, estradas desertas, povoados escondidos, procissões de fé, famílias desintegradas. País que pouca gente gosta de ver – embora fotografado com raro talento por Walter Carvalho – e por isso tão longe do mundo.
Com trilha musical de Jaques Morelenbaum, Central do Brasil se desenrola num cenário de feiras, reuniões espirituais, agrupamentos e povoados, enfocando a solidão do ser humano, por meio, é claro, da amizade entre a escrevedora de cartas e o garoto. Traz, portanto, um enfoque de vida universal, o que Walter demonstra por meio das figuras solitárias de A grande arte (como a do fotógrafo vivido por Peter Coyote, cujas relações femininas vão desaparecendo no decorrer da história), Terra estrangeira (os brasileiros que, no exterior, batalham tentando salvar suas vidas), além de – num escopo  mais abrangente na filmografia de Walter Salles – o Che Guevara jovem de Diários de motocicleta, a mãe recém-separada feita por Jennifer Connelly em Água negra, e o menino que sonha em ser jogador de futebol em Linha de passe.

“Filmes de estrada obrigam você a defrontar-se com o movimento. E como  dramaturgia são interessantes, porque os personagens avançam para uma área onde tudo é possível”, afirma Walter Salles, em relação não só a Central do Brasil mas a toda sua obra. O olhar de Josué, ao final de Central do Brasil, certamente é um olhar para o futuro, para o renascido cinema brasileiro. Um olhar para a descoberta de que o Brasil já não se contenta em viver exilado.
Abril despedaçado (2001) é o filme que seguiu Central do Brasil na trajetória de Walter Salles e por isso foi tão contestado. Realmente, é difícil equivaler o talento que vemos em Central do Brasil, contudo Abril consegue ser um projeto humano, bem interpretado e fotografado de maneira exata (também por Walter Carvalho). Em certo sentido, é bem mais universal do que Central. Com base num romance de Ismail Kadere, adaptado por Karim Aïnouz, mostra o conflito entre duas famílias no Sertão, em 1910, sobretudo após a morte do filho de uma delas cometido por Tonho (Rodrigo Santoro), a mando do pai, após a morte de um de seus irmãos. São duas famílias que brigam por território e poder na região. Ele tem um irmão pequeno (Ravi Ramos Lacerda) e se apaixona pelo mundo do circo quando um passa pela cidade, sobretudo por uma de suas integrantes, Clara (Flávia Marco Antônio). Walter Salles dirige com bastante sensibilidade, mostrando a descoberta dessa criança e desse jovem de um mundo violento.  Desta vez, não é um filme de estrada – que sempre impulsiona os personagens de Walter –, e sim um filme passado “na estrada”, “de passagem”, ou seja, o personagem está no meio do nada e quer ir para um lugar que o faça descobrir seus sonhos. Desta vez , trata-se de um personagem imobilizado pelo contexto, mas que deseja, mesmo assim, recompor-se para o amor e a saída. Se o desejo de Paco, em Terra estrangeira, era conhecer o lugar de onde veio a mãe, e de Josué, em Central do Brasil, de reencontrar o pai, com sua família, aqui o que Tonho deseja é um afastamento da família – embora sem ela não se daria o encontro com o universo mítico, ao final.

A grande arte, BRA/EUA, 1991 Diretor: Walter Salles Elenco: Peter Coyote, Tchéky Karyo, Amanda Pays, Raul Cortez, Giulia Gam, Tonico Pereira Produção: Paulo Carlos de Brito e Alberto Flaksman Roteiro: Matthew Chapman e Rubem Fonseca Fotografia: José Roberto Eliezer Trilha Sonora: Todd Boekelheide e Jürgen Knieper Jürgen Knieper Duração: 99 min. Distribuidora: Miramax Films

Cotação 4 estrelas

Terra estrangeira, BRA, 1995 Diretor: Daniela Thomas, Walter Salles Elenco: Alexandre Borges, Tchéky Karyo, Luís Mello, Fernando Alves Pinto, Fernanda Torres Produção: Flávio R. Tambellini, António da Cunha Telles, Paulo Dantas Roteiro: Daniela Thomas, Walter Salles, Marcos Bernstein Fotografia: Walter Carvalho Trilha Sonora: José Miguel Wisnik Duração: 100 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 4 estrelas

Central do Brasil, BRA/FRA, 1998 Diretor: Walter Salles Elenco: Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Vinícius de Oliveira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Matheus Nachtergaele Produção: Martine de Clermont-Tonnerre, Arthur Cohn, Robert Redford, Walter Salles Roteiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles Fotografia: Walter Carvalho Trilha Sonora: Jacques Morelembaum, Antonio Pinto Duração: 113 min. Distribuidora: Sony Pictures Classics 

Cotação 5 estrelas

Abril despedaçado, BRA/FRA/SUI, 2001 Diretor: Walter Salles Elenco: José Dumont, Rodrigo Santoro, Rita Assemany, Luiz Carlos Vasconcelos, Ravi Ramos Lacerda, Flavia Marco Antonio, Everaldo Pontes, Othon Bastos, Wagner Moura Produção: Arthur Cohn Roteiro: Sérgio Machado, Karim Aïnouz, Daniela Thomas Fotografia: Walter Carvalho Trilha Sonora: Antônio Pinto Duração: 105 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 4 estrelas

 

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2 Comentários

  1. vitor godoi

     /  19 de julho de 2012

    Olá André Dick,apreciei muito seu texto,mas que me gerou algumas duvidas.Uma delas seria entender a diferença entre uma obra “de estrada” e outra “na estrada”.qual voce acha o melhor caminho pra compreender isto.Sou estudante de letras e gostaria muito de fazer algum estudo comparativo entre literatura e cinema,com foco na representacao da estrada,dos significados que a estrada possui.Vc me sugere alguma bibliografia?Muito Obrigado

    Responder
    • Prezado Vitor,

      Agradeço, em primeiro lugar, por suas palavras a respeito do texto.

      Na verdade, trata-se de uma diferença mais pessoal e não sei se correta. Quando me refiro especificamente a Abril despedaçado, imagino que ele seja um filme um pouco diferentes dos demais: afora alguns momentos e no final, não vemos o personagem fazer uma viagem contínua “pela/de estrada” real. Sua casa, em meio a uma passagem solitária, o segura no meio dessa estrada que vai a um lugar que o personagem ainda desconhece. De modo geral, em sua filmografia, Walter adotaria o “filme de estrada”, mas seus personagens, de algum modo, querem sempre, em algum momento, parar e criar vínculos – sobretudo no último filme, baseado em On the road. Ou seja, eles querem não uma simples viagem “de estrada”, mas estarem permanentemente “na estrada” – que é algo, me parece, mais metafórico, maior, significando que, mesmo mais confortados (embora nunca parados), eles continuam uma trajetória, o que acontece, por sua vez, em todos esses filmes.
      Sua pesquisa é algo que me interessa muito: a ligação entre cinema e literatura. Creio que, para investigar o símbolo da estrada, alguns livros sejam interessantes: acho o roteiro de Central do Brasil ótimo; O cinema brasileiro, com organização de Amir Labaki; o livro sobre as filmagens e com o roteiro de Abril despedaçado; Iluminações, de Rimbaud; obras como Vidas secas, Grande sertão: veredas, de Guimarães e On the road; o poema “Como se vai de São Paulo a Curitiba”, de Raul Bopp. E também dois filmes de Wim Wenders (Paris, Texas e Até o fim do mundo) e três de David Lynch (Coração selvagem, A estrada perdida e História real), que você deve ter visto. Espero que tenha sucesso em seu estudo e volte ao blog sempre que puder.

      Um abraço
      André

      Responder

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