Donnie Darko (2001)

Por André Dick

Este filme de Richard Kelly virou cult. Parece um filme de jovens rodado por David Lynch – tendo como assistente de direção Tim Burton –, com uma fotografia muito parecida com a dos filmes dele. Mas tem personalidade própria e um humor negro eficiente e atrativo. Além disso, apresenta, no elenco, alguns nomes conhecidos no elenco (Mary McDonnell, de Dança com lobos, Drew Barrymore e Patrick Swayze) e revelações (o casal de irmãos Jake Gyllenhaal e Maggie Gyllenhaal, também irmãos no filme), ao som de uma trilha sonora de bandas dos anos 80 (como Eccho and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran), que cria um contraste, muitas vezes, em relação ao que vemos.
Donnie Darko (Jack, com uma atuação que conseguiria repetir poucas vezes nos filmes seguintes) é um jovem estranho, sonâmbulo (o filme já inicia com ele numa estrada deserta, com uma atmosfera de pesadelo, apenas interrompida pela trilha sonora) e tem visões de um coelho assustador, chamado Frank, cercado de acontecimentos estranhos: como uma turbina de avião cair em seu quarto quando ele sai de casa. Não se sabe por que ele imagina esse coelho, mas ele frequenta a psicóloga (a pedido sobretudo da mãe, que se preocupa com seu comportamento) e é bastante temido no colégio por professores, pois questiona várias ordens e mensagens. A escola é um ambiente opressivo – e as cores alternando entre o azul e o verde conferem ainda mais gravidade ao contexto, diferenciando-se dos filmes dos anos 80 (mesmo que tenha uma trilha sonora bastante semelhante). Ele vive deprimido – mas é nesta depressão que ele parece alcançar vigor para o que pretende questionar, sem, entretanto, o filme fazer qualquer apologia a qualquer ideal ou algo parecido. Os seus professores utilizam também as mensagens de um autor de livros de autoajuda da cidade (Patrick Swayze), com o qual se confronta o personagem. No colégio, ele se apaixona por uma menina e faz amizade com um professor, que fala em viagens no tempo (o filme deve certamente ter inspirado Damon Lindelof e J.J.Abrams para a criação de Lost), entregando a ele um livro de sua vizinha, uma velha que passa o filme indo ver se há alguma carta em sua caixa de correio (e parece alguma figura saída de um filme de Tim Burton), atravessando uma estrada quase deserta da região.
Temos, pelo filme, vários símbolos espalhados (o coelho é um deles; o quadro negro da escola é outro, além de um sofá em meio a um capinzal onde Darko e seus amigos se encontram, mostrando a tentativa de inserção da casa em um cenário externo) e uma atmosfera lúgubre (como no momento em que o personagem vai ao cinema com a namorada e vê o coelho sentado a seu lado – no que remete a Império dos sonhos, uma retribuição de Lynch). Este coelho, mesmo com o final, continua um mistério. Talvez seja um símbolo que remete também a Alice no país das maravihas – era perseguindo um coelho que ela chegava ao universo paralelo.
Em A caixa, um dos filmes seguintes de  de Kelly, o diretor também ia para uma espécie de universo paralelo, em outra trama misteriosa, mostrando um casal que recebe certo dia a visita de um homem misterioso (Frank Langella), que lhes entrega uma caixa e diz que, se eles a apertarem, ganharão 1 milhão de dólares e uma pessoa morrerá. Isso é motivo para Jenkins se arriscar em algumas cenas surreais, como a da festa, em que o homem vê sempre um sujeito, que é garçom, sorrindo para ele. Trata-se de uma história fantástica, que envolve a Nasa, viagens ao espaço e lembranças infantojuvenis – sendo a disposição de tudo bastante assustadora. A professora feita por Cameron Diaz dialoga com a professora Karen (Drew Barrymore), de Donnie Darko. É bastante discreta, mas o filme não: ele investe no fantástico e pretensioso, com bela fotografia e cenas de suspense aterradores (como as do hotel e da biblioteca), que aprofundam o que é entrevisto neste, sobretudo com suas casas pretensamente tranquilas, com árvores nas calçadas.
Ademais, Donnie Darko quer subverter as casas simétricas dessa cidade, ver a escuridão onde há jardins verdejantes, campos de golfe e porões escondidos, e o personagem central é essencial para que isso aconteça; é, como se diria, a ponte entre a realidade e o onírico. O personagem parece nunca estar totalmente desperto (no momento em que visualiza, por exemplo, o movimento das pessoas ao redor, fazendo uma trajetória previsível) e as discussões dele sobre viagens temporais suspendem qualquer realidade – embora Donnie não vivencie uma experiência divertida e excêntrica como a do Marty McFly oitentista de De volta para o futuro –, e o diretor vai soltando algumas falas como se dispersas, porém que num todo fazem sentido, pela maneira como o espectador as monta, pois o intuito é distribuir as sequências de modo que elas façam mais sentido ao final. Diante da composição familiar – representada também pela irmãzinha de Donnie, que se apresenta no colégio, numa peça tipicamente infantil – infundada para Donnie, até determinado momento, vemos que seu objetivo não é afundar a adolescência ou a vida adulta, mas salvar a infância. Para Donnie, ela não sobreviverá a seus próprios pesadelos e ao coelho que o visita (não deixando de estabelecer uma ligação com A caixa, sobretudo com a situação do filho do casal no clímax). Depois de uma festa das bruxas com toques de anos 80, mas ao som de Joy Division (com sua sonoridade melancólica), e com o figurino que lembra o Daniel Larusso da festa inicial de Karatê Kid, embora com um viés mais dark, Donnie, ao avistar do alto da montanha (onde se inicia o filme) o futuro, parece que deseja regressar e não vivenciar todas as experiências desagradáveis será o melhor caminho, entretanto, acima de tudo, o faz por amor – não aquele, porém, solicitado pelo escritor de autoajuda que pode esconder, num realidade verdadeira ou paralela, a antítese de tudo o que diz.
O clima do filme, assim como o cuidado com as imagens, acaba deixando o espectador bastante atento ao que se desenrola. Transformou-se num merecido cult, sobretudo entre jovens, e merece ser assistido pela contundente crítica a certo comportamento social, mesmo que não apenas por isso, pois também inova na temática de idas e vindas no tempo, com uma narrativa definitivamente original.

Donnie Darko, EUA, 2001 Diretor: Richard Kelly Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Noah Wyle, Drew Barrymore Produção: Adam Fields, Sean McKittrick Roteiro: Richard Kelly Fotografia: Steven B. Poster Trilha Sonora: Michael Andrews Duração: 112 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Flower Films

Cotação 4 estrelas e meia

 

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2 Comentários

  1. fredmorsan

     /  30 de abril de 2016

    Gosto de ler textos como esse, que consegue traduzir em palavras (de maneira clara e simples) aquilo que nós sentimos e entendemos (e aqui ampliou ainda mais o significado do filme) mas não conseguimos escrever. Parabéns mais uma vez e sucesso com o blog! Ganhou mais um leitor fiel.

    Responder
    • André Dick

       /  2 de maio de 2016

      Prezado Fred,

      agradeço pelo comentário generoso sobre a crítica e sobre o blog, o que realmente é animador! De antemão, também agradeço por sua leitura!

      Um abraço,
      André

      Responder

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