Diretores: John Hughes e o universo jovem

Por André Dick

Gatinhas e gatões (1984) é o primeiro filme do chamado Spielberg dos jovens, John Hughes (1950-2009), que revelou Molly Ringwald e Anthony Michael Hall – que faria com ele Mulher nota 1000 (talvez seu filme de adolescentes mais fraco, uma espécie de fantasia realizada, que trouxe, de qualquer modo, uma das primeiras atuações de Robert Downey Jr.). Ringwald é Samantha, que passa por um dia terrível, quando toda sua família, interessada no casamento da irmã, esquece de seu aniversário de 16 anos (como no título original). Para piorar, o rapaz de quem gosta não lhe dá a mínima, e um garoto intrometido (Hall, bom ator) quer conquistá-la. Algumas piadas grosseiras, outras previsíveis, mas o elenco e o roteiro sustentam o filme, mostrando, desde já, os elementos que interessavam a Hughes: mostrar o distanciamento entre pais e filhos, mas com uma tentativa de aproximação e o circuito de festas escolares onde a sexualidade é despertada (elementos que encontramos em Férias frustradas, com Chevy Chase, do qual Hughes foi roteirista). A conversa de Samantha com o pai é um dos acertos do filme, mostrando como Hughes tinha talento para fazer diálogos interessantes.
Em O clube dos cinco (1985), ele volta a tratar da adolescência, sem os exageros comuns e com um olhar mais voltado para o drama. Envolve o espectador pela sinceridade na narrativa e pelos bons atores jovens. Não é necessário ser adolescente para gostar da história de cinco jovens que ficam de castigo na escola durante um o sábado por terem se envolvido com algum problema disciplinar. Todos apresentam problemas, alguns graves, outros não – e a culpa, claro, é sempre dos pais, que não dão a suficiente atenção para que cresçam. Nem assim o filme é superficial.
O clube – ao final se explica o motivo do nome – tem o revoltado (Judd, em ótimo desempenho), a garota mimada (Ringwald), o esportista (Emilio), o inteligente (Hall) e a moça cheia de problemas (Ally). Eles vão se conhecendo aos poucos e se tornam amigos. O diretor da escola pinta o retrato dos pais, xingando os alunos a toda hora e por qualquer motivo. Claro que o também roteirista John Hughes insere muito rock na trilha sonora e torna algumas situações banais. Mas também há emoção, no conflito entre adultos e jovens. Crescer se torna um sinônimo de desaparecer, durante as conversas, tal como em Peter Pan (“Virar adulto é morrer”, diz o rebelde).
É politicamente incorreto em alguns momentos e é um tanto teatral, embora nunca fique chato ou entediante, graças aos atores, que discutem sobre drogas, sexo, amizade, família, amor. No final, decepciona um pouco, depois de um debate impecável entre os cinco (o clímax do filme é excelente por circular a câmera entre os personagens), mas ainda assim é muito interessante, mostrando o melhor trabalho de direção de Hughes. Três nomes do elenco (Ally Sheedy, Judd Nelson e Emilio Estevez) também apareceriam, no mesmo ano, no sensível O primeiro ano do resto de nossas vidas, de Joel Schumacher.
Já A garota de rosa shocking é uma das comédias mais surpreendentes da década de 1980, com roteiro e supervisão de John Hughes, porém direção de Howard Deutch. Molly Ringwald repete o papel que fazia em Gatinhas e gatões e O clube dos cinco: uma moça tímida, Andy Walsh, que quer descobrir o amor de sua vida. Aqui, ele é Blane, interpretado por Andrew McCarthy (um bom ator, que também participou de O primeiro ano do resto de nossas vidas), filho de ricaços. Ringwald tem um pai, Jack, que ainda lamenta o fato de sua mãe ter ido embora (numa bela interpretação do sempre eficiente Harry Dean Stanton) e um amigo, Duckie (Jon Cryer, o melhor do elenco), que pretende conquistá-la, mas gosta do ricaço, mesmo que seja perturbado por outro amigo dele, Steff (James Spader, compondo um vilão adolescente pouco comum).

Ela trabalha numa loja de discos no bairro de Chinatown e as referências aos anos 80 são claras, nas cenas do clube noturno, em cartazes dos Smiths e canções de Echo and the Bunnymmen e de New Order, elemento comum na filmografia de Hughes, cujos filmes apresentam canções, por exemplo, do Oingo Boingo (cujo líder era Danny Elfman, que hoje faz trilhas para, entre outros, Tim Burton), David Bowie, Billy Idol, Simple Minds, o que remete a um período em que cinema e indústria da música caminhavam lado a lado, na construção de um universo jovem (poderíamos lembrar de filmes como Footloose e Flashdance). Além disso, A garota de rosa shocking trata, com um tom romântico, de classes sociais entre jovens, assim como faz referências curiosas a pintores (Ringwald tem imagens de Mondrian em seu quarto; McCarthy de Edward Hopper). Também há uma amiga de Andy, Iona (a ótima Annie Potts). Sem em nenhum momento ser previsível, é talvez ainda um pouco mais interessante do que O clube dos cinco e, sobretudo, Gatinhas e gatões (mais uma brincadeira adolescente, embora divertida), apresentando relações conturbadas entre a garota e o pai. De todos os filmes de Hughes, aqui existe uma proximidade maior e busca de entendimento, ao contrário de Gatinhas e gatões e Curtindo a vida adoidado, em que os pais eram desligados da realidade, e O clube dos cinco, em que eram simplesmente ausentes. Essa  história de amantes de diferentes classes, apesar de às vezes ser maniqueísta, não cai no lugar-comum, o mais importante para que seja uma diversão inteligente.
John Hughes estava filmando, nesse ano, Curtindo a vida adoidado (1986), filme que consagrou Matthew Broderick como o jovem Ferris Bueller, que pretende faltar a mais um dia de aula fingindo estar doente, para sair com a namorada (Mia Sara) e o melhor amigo (Alan Ruck, excelente), numa Ferrari. Mais uma vez, como nos filmes anteriores, Hughes promove a tentativa de liberdade do jovem – sempre cerceado pelos pais – e a descoberta de um certo espírito inteligente no dia a dia (a visita de Ferris e seus amigos a um museu de Nova York mostra isso, embora seja preciso também ir a um jogo de beisebol e dançar “Twist and shout”, dos Beatles, em pleno centro da cidade). O diretor da escola (Jeffrey Jones), enquanto isso, quer desmascarar a farsa de Ferris, visto como um ídolo entre os mais jovens – e é interessante ver Broderick satirizar seu personagem mais famoso no corrosivo Eleição, de Alexander Payne. Os pais de Ferris são vistos como pessoas atrapalhadas, o que tem ligação com os demais filmes de Hughes, embora de forma ainda mais ingênua. E a irmã (Jennifer Grey) pretende também desmascará-lo, mas nesse meio tempo para na delegacia e conhece um rapaz que está preso (Charlie Sheen, em início de carreira, da mesma época de Platoon).
Se a classe média é visualizada de modo divertido em Gatinhas e gatões e classes misturadas se encontram em O clube dos cinco, além do conflito entre classes ser o pano de fundo de A garota de rosa shocking, Ferris tem uma vida estável, ao contrário de Andy e Samantha – e isso torna o filme como um complemento claro aos demais – e, de certo modo, junto com seus amigos, vive, em outra tonalidade, os conflitos dos personagens de O clube dos cinco. Uma temática de classes seria repetida em Alguém muito especial, novamente dirigido por Deutch e roteirizado por Hughes, ainda que já sem o mesmo vigor, embora interessante. De modo geral, os jovens de Hughes estão sempre por estabelecer uma mudança, mesmo que ela aconteça por meio de conversas informais ou seja a síntese de um dia diferente dos demais. E elas podem acontecer com o conhecimento e apoio ou não dos pais.
Nos anos 1980, Hughes ainda faria mais um filme com Molly Ringwald (Ela vai ter um bebê) e dois com John Candy (Antes só do que mal acompanhado, também com Steve Martin, e Quem vê cara não vê coração). Nos anos 1990, Hughes se dedicaria mais a filmes de crianças, como diretor, roteirista ou produtor – as séries Esqueceram de mim e Os 101 dálmatas, além de A malandrinha, Beethoven e Dennis, o pimentinha. Os jovens perderiam muito com isso, pois Hughes tinha um potencial para mostrá-los de uma maneira que mesmo os rótulos, muitas vezes, apresentavam qualidade, comprovada por esses filmes, em larga escala.

Sixteen candles, EUA, 1984 Diretor: John Hughes Elenco: Molly Ringwald, Paul Dooley, Blanche Baker, Edward Andrews, Anthony Michael Hall, Billie Bird, John Cusack Produção: Hilton A. Green Roteiro: John Hughes Fotografia: Bobby Byrne Trilha Sonora: Tom Bailey, Alannah Currie, Danny Elfman, Annie Golden, Joe Leeway, Ira Newborn Duração: 93 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures

Cotação 3 estrelas

Breakfast club, EUA, 1985 Diretor: John Hughes Elenco: Emilio Estevez, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Ally Sheedy, Judd Nelson, Paul Gleason Produção: John Hughes Roteiro: John Hughes Trilha Sonora: Keith Forsey Duração: 97 minutos Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal

Cotação 4 estrelas

Pretty in pink, EUA, 1986 Diretor: Howard Deutch Elenco: Molly Ringwald, Harry Dean Stanton, Jon Cryer, Andrew McCarthy, Annie Potts, James Spader Produção: Lauren Schuler Roteiro: John Hughes Fotografia: Tak Fujimoto Trilha Sonora: Michael Gore Duração: 93 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas

Ferri’s Bueller day off, EUA, 1986 Diretor: John Hughes Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Charlie Sheen, Jennifer Grey, Jeffrey Jones Produção: John Hughes, Tom Jacobson Roteiro: John Hughes Fotografia: Tak Fujimoto Trilha Sonora: Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie, Yello Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

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