Sombras da noite (2012)

Por André Dick

Um dos melhores filmes de humor já feitos, Os fantasmas se divertem marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito apenas um desenho animado (Frankenweenie), cuja refilmagem em longa-metragem lançará este ano, e um filme infantojuvenil (As grandes aventuras de Pee-wee). Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos especiais e maquiagem estilizados. A sua história mostra o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton, em seu melhor momento), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual, rica e chata, da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos continuam a habitá-la. Nessa família intrusa, no entanto, há uma menina depressiva, que faz amizade com eles (Winona Ryder).
É quase um Os caça-fantasmas às avessas. O filme possui várias situações divertidas, com méritos para Keaton, que rouba a cena, e um ritmo de histórias em quadrinhos. A melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja superficial, assim como os atores parecem estar em outro filme que não numa comédia (como Davis e Baldwin), mas a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman que dá o tom certo, fazendo dele um dos referenciais dos anos 80.
Tim Burton se depara justamente com Os fantasmas se divertem na comédia de humor negro Sombras da noite, que vem sendo recebida com frieza pelo público e por parte da crítica. A questão que muitas vezes se coloca é que Burton está repetindo demais a parceria com Johnny Depp, com quem já realizou alguns de seus melhores filmes, como, entre outros, Edward, mãos de tesoura (o mais lembrado), Ed Wood, A fantástica fábrica de chocolate, além do melhor, a meu ver: A lenda do cavaleiro sem cabeça (em que o estilo se Burton melhor se funde com a direção de arte de forma completa).
Mas é exatamente Sombras da noite o filme que melhor sintetiza seus elementos, que já víamos em Os fantasmas se divertem: o diretor mostra grande talento em fazer uma comédia que parece sisuda, até determinado momento, quando vemos, na verdade, que ele não está levando nada a sério (talvez a exceção seja Marte ataca!, em que o elenco e a história não parecem conectados). E há poucos atores como Depp, que sustentam um filme com seu talento pessoal. É o que ele faz em boa parte de Sombras da noite, no papel de Barnabas Collins, cuja família veio para da Inglaterra para o Maine, em 1752, onde se tornou a líder no mercado de pesca. Uma empregada, Angelique (Eva Green), é apaixonada por ele, mas seu amor, Josette (Bella Hethcote), acaba se suicidando, sob efeito de um festiço – esta cena é de impressionante resolução. No entanto, ele não sabe que a empregada é uma bruxa, que o transforma em vampiro.
Depois de ficar enterrado num caixão por quase durante 200 anos, uma equipe de construção acaba por desenterrá-lo, em 1972. A cena em que isso acontece é digna de Beetleejuice de Os fantasmas se divertem – e muito bem feita –, resultando, em seguida, na visão de Barnabas do M de McDonalds, cujo significado, para ele, é um só: de Mefistófeles. Logo, ele segue para a casa da família, que vive uma decadência: a matriarca, Elizabeth Collins Stoddard, é vivida por uma ótima (embora subaproveitada) Michelle Pfeiffer; Roger Collins (Johnny Lee Miller), os filhos, Carolyn Stoddard (Chloë Moretz) e David Collins (Gulliver McGrath), o caseiro bêbado, Willie Lomis (Jackie Earle Harley), além de uma psiquiatra da família (Helena Bonham Carter, em uma performance curta, mas marcante) e a nova babá, Victoria (também vivida por Bella Hethcote), que entendemos ser a reencarnação de Josette e tem um passado nebuloso. Barnabas pretende recuperar o império dos Collins – mesmo que a cidade ainda se chame Collinsport –, arruinado por Angelique, nem que para isso precise ingressar no tom dos anos 70 e tentar hipnotizar pescadores que trabalham para a inimiga, que se tornou a líder do mercado de pesca da região (como o feito por Cristopher Lee, em boa participação, num bar que mais parece uma taverna da Londres antiga). A sequência em que a casa está sendo revitalizada é um primor de direção – focalizando Barnabas dormindo em lugares diferentes.
Burton havia, nos últimos anos, feito alguns filmes que se destoavam de sua trajetória, como Peixe grande – embora bastante elogiado – e Alice no país das maravilhas, obras, no entanto, com méritos, sobretudo de direção de arte elaborada e personagens curiosos. Quando ele toma o rumo de filmar os personagens como se fossem integrantes de uma história em quadrinhos – mesmo sabendo que a origem de Sombras da noite é um seriado de televisão admirado por Burton e Depp, que durou entre 1966 e 1971, o qual não vi; no entanto, não é necessário conhecê-lo para se entender o filme –, mostra seu estilo, de um apuro visual e sonoro característico. A reconstituição que ele faz de 1972, quando se passa a história (com a trilha sonora de Black Sabbath, Alice Cooper, que participa do filme, e The Carpenters), com alguns elementos específicos (como o do abajur de lava que lembra um “sangue pulsante” para Barnabas; os discos de T-Rex; cartaz de Iggy Pop; músicas de The Moody Blues), e alguns hippies – no melhor estilo Forrest Gump – é muito bem feita.

No início, quando Barnabas chega à cidade nos anos 70, além do elemento de comédia de Depp, destacada pela música de Danny Elfman, temos o anúncio, num cinema, de Amargo pesadelo, de John Boorman, filme que mostra um grupo que pretende descer um rio é atormentado por pessoas sádicas, sofrendo bastante quando levados para o meio da floresta, e em outro momento Barnabas lê o romance Love Story, que havia se transformado em filme dois anos antes, inclusive indicado ao Oscar. Nada mais anos 70: entre a descoberta da violência do interior dos Estados Unidos e da guerra do Vietnã e do romance adaptado para Hollywood.
É evidente que Burton retrata também sua infância, talvez não estranha como a desta família, entretanto cercada por elementos parecidos (sobretudo musiciais e cinematográficos). Nesse sentido, talvez seja, mais do que Os fantasmas se divertem, seu filme mais autoral. Se é evidente que ele compôs o Batman soturno que hoje dá referência a Cristopher Nolan, Burton não está interessado em heróis, mas em personagens sacrificados, como o de Barnabas, o Willy Wonka, de A fantástica fábrica de chocolate, o Ichabod Crane, de A lenda do cavaleiro sem cabeça, e, claro, o principal de todos: o Edward, mãos de tesoura, além dos outros Bs (Batman e Beetlejuice). A cena em que Barnabas se transforma em vampiro é notável – com uma grande carga de expressionismo –, com sua tristeza sendo aprofundada pelas ondas do mar que batem nas rochas onde se encontra. Nenhum desses personagens têm uma família segura, embora o sonho, de qualquer modo, seja tê-la. Aqui, como em Peixe grande, a figura paterna se desenha como referência para o personagem: ela representa o sonho de Barnabas. No entanto, se é vista, por um lado, de maneira idealizada (o diálogo entre Barnabas e o pai de David, Roger, fala disso), por outro, é vista com desconfiança – pois, em Burton, os personagens muitas vezes têm comportamentos instáveis, desestruturando o andamento da narrativa. A incapacidade de estabelecer definitivamente a união da família de Barnabas já aparecia em Edward, mãos de tesoura, A fantástica fábrica de chocolate e Os fantasmas se divertem, mais próximo desta obra. Burton sabe que ela está lá, porém tem dificuldade de estabelecer relações – costumam ser peças soltas, agindo por conta própria – e não é diferente em Sombras da noite (com a certeza de Burton em haver uma continuação também, o que, dependendo da bilheteria até aqui, pode não acontecer).
Não sabemos até que ponto Barnabas é uma vítima ou se aproveita de ser uma para adotar seus métodos pouco ortodoxos. De qualquer modo, é evidente que sua relação com Angelique – nome obviamente satírico – é estranha e obsessiva. Lamenta-se que Eva Green não seja uma atriz à altura deste embate de interpretação com Depp. Enquanto este tem noção de que está numa comédia que não se leva a sério, mas é discreta em seus propósito, Eva extravasa e fica parecendo um personagem feminino excessivamente rebelde e caricato, a começar pelo figurino (propositadamente vermelho) e pelo comportamento. Enquanto Depp tem a medida exata de cada cena, ela não consegue fazer o mesmo – e, mesmo tendo uma ou outra sequência de qualidade, não consegue, ao final, ser efetiva, fazendo com que Sombras da noite se ressinta de uma vilã (embora certamente, reiteramos, Barnabas não seja um herói) mais consistente.
O diretor Tim Burton vem tentando, ao longo dos anos, recriar algumas das histórias mais interessantes, destinadas a grandes plateias, em Batman, Planeta dos macacos, A fantástica fábrica de chocolate e Alice no país das maravilhas, entretanto é num projeto como Sombras da noite que ele revela, como já referido, seus elementos autorais mais interessantes. Tornou-se raro um diretor que, dentro do seu campo de visão – que, não poderia deixar de ser diferente em seu caso, tem falhas –, consegue trazer sempre novidades e personagens interessantes. Sua recriação de Barnabas Collins entra para a antologia do cinema: uma espécie de Nosferatu que, se deparando com o mundo moderno, consegue extrair cada acorde de terror simplesmente deitando a cabeça sobre o piano. Burton sabe que, como Barnabas, havia uma transição de época nisso tudo, e não se voltaria tão cedo aos jantares em família, mesmo que estranhíssimos, e a uma dança na sala de jantar sob o olhar incomodado dos presentes. É nesta transição que Burton foca em seu Sombras da noite, um filme cujo acabamento (tanto na direção de arte quanto no figurino, ou seja, na criação de uma atmosfera própria) e participação de Depp – e, em certa medida, de Michelle Pfeiffer e Helena Bonham Carter – tornam uma diversão de sua maturidade, do momento em que é preciso olhar para trás e ver o que se realizou antes, num regresso às origens, típico do diretor.

Dark shadows, EUA, 2012 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Michelle Pfeiffer, Chloë Grace Moretz, Eva Green, Jonny Lee Miller, Gulliver McGrath, Jackie Earle Haley, Bella Heathcote, Christopher Lee Produção: Christi Dembrowski, Johnny Depp, David Kennedy, Graham King, Richard D. Zanuck Roteiro: Seth Grahame-Smith Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 113 min.  Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: GK Films / Infinitum Nihil / Warner Bros. Pictures / The Zanuck Company / Dan Curtis Productions / Tim Burton Productions

Cotação 3 estrelas e meia

 

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2 Comentários

  1. Adorei o filme, especialmente a trilha! A história é excelente, só no final se perde um pouco…Também achei que a personagem, personagem não a atriz, entenda, da Helena Bonham Carter, era meio desnessaria, mas entendemos que nepotismo existe em todo lugar…Ninguem deixou a desejar nas atuações, destaque pra Eva Green, realmente a Michelle Pfeiffer podia ter sido melhor aproveitada…e Johnny Depp como sempre arrasou!

    Responder
    • Lais,

      agradeço pelo comentário. Concordo sobre a trilha, a atuação de Depp e creio que a Bonham Carter e a Michelle Pfeiffer estão bem, apesar de aparecerem pouco. Mas, infelizmente, a Eva Green prejudica o filme, por isso acho que, ao final, como você diz, o filme se perde um pouco. Volte sempre.

      Abraços
      André

      Responder

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