O vingador do futuro (1990)

Por André Dick Paul Verhoeven, apesar do sucesso de Robocop, nunca havia feito uma superprodução até O vingador do futuro, em que foram investidos 60 milhões de dólares pela Carolco, com efeitos especiais que não chegam a ser espetaculares (apesar de terem recebido o Oscar), mas não envelheceram como os de outros filmes. Teve grande dificuldade para ser criado, planejado durante cinco anos – foi abandonado por Dino de Laurentiis, depois de Duna não ter dado certo nas bilheterias –, e com excelentes locações no México (outro acerto), sobretudo dos metrôs, que lembram um futuro bastante melancólico, mesmo que nem um pouco rebuscado – apenas enchendo ainda mais as ruas de outdoors gigantes e luminosos. O roteiro, adaptado de um conto de Philip K. Dick por Dan O’Bannon e Ronald Shusett (Alien),  é complexo, embora não tenha os elementos mais ousados de Blade Runner e, se Schwarzenegger parecia uma escolha errada para este tipo de ficção científica, se revisto hoje, foi um acerto em escolhê-lo – e dele em chamar Verhoeven para tocar o projeto. Justamente o fato de ele não convencer como alguém que passa por uma crise existencial, diante de acontecimentos a princípio incompreensíveis, torna a sua inserção na trama um acerto – sua interpretação baseada no desconhecimento das situações dá ainda mais veracidade ao que está se passando. Na época de seu lançamento, o filme, se não chegou a ser um fracasso, também não teve uma arrecadação própria de grande bilheteria – num ano que trouxe, entre outros, De volta para o futuro III, Gremlins II e Dick Tracy. E não teve nunca o mesmo respeito de Blade Runner, até por ser mais um filme pop, de ação, com muitas mortes (típicas de Verhoeven) e cenas de ação ininterruptas. Hoje, diante de outras ficções científicas, parece, no entanto, uma obra referencial, como o próprio Robocop, filme anterior de Verhoeven e tão violento quanto este. Schwarzenegger interpreta o funcionário braçal Douglas Quaid, ansioso por fazer uma visita a Marte, em 2084, depois de ter recorrentes sonhos situados no planeta. Sua mulher, Lori (Sharon Stone), é contra, ainda que não se saiba o motivo – prefere o telão com imagens idílicas ao lado de onde se toma café. Quaid não aceita e certo dia vê o anúncio de uma companhia (Rekall), que implanta memórias com uma trama escolhida, o qual considera uma saída para seu desejo. Vai até o lugar e, no momento em que faz o implante delas, no qual escolhe ser o herói em determinada situação, acaba tendo um distúrbio. Adormece e acorda num táxi pilotado por um robô, chegando em casa sem saber exatamente o que aconteceu. A partir daí, ele não consegue mais diferenciar realidade e sonho, e se o que passa a lhe acontecer é fruto do implante – a ponto de sua mulher querer matá-lo. Ele acaba indo para Marte e lá começa a ajudar a população, que paga pelo ar que respira. O planeta é controlado por um poderoso industrial, dono da reserva de oxigênio do planeta, Cohaagen (Ronny Cox), ajudado por um assasssino, Richter (Michael Ironside), e Quaid se envolve com a mulher que aparecia em seus sonhos, Melina (Rachel Ticotin), e com um grupo de marcianos com mutações estranhas – algumas cenas se passam numa boate, Venusville, cheia de neons anos 80 –, muitos em razão da falta de ar, e com um taxista, George (Marshall Bell), sobre o qual não se sabe o passado, nem o que exatamente esconde. Esse grupo de marcianos – e este é o ponto para o qual a narrativa toda se dirige – organiza uma rebelião contra esse líder do planeta vermelho. Há uma divisão entre o trabalho de Quaid e sua viagem mental. Antes, um funcionário situado entre a força e a burocracia, permite-se a uma aventura que foge à sua rotina e Philip K. Dick retoma o tema fundamental de Blade Runner: a busca pela identidade. Quaid não sabe ao certo quem é, mas tenta descobrir, através de seu duplo – o qual não reconhece em si mesmo. Todos os personagens que tentam impedir que chegue a uma descoberta pessoal também querer conservar Marte como uma plataforma espacial para um grupo seleto. Um dos melhores aspectos do filme é sua direção de arte – apesar de kitsch em certos momentos, ela mantém o interesse, e às vezes fascina, sobretudo ao final, quando Marte se transforma num labirinto interno de passagens desconhecidas e descobertas. O roteiro tenta transformar algumas situações em algo mais complexo: nunca sabemos se os personagens estão agindo de maneira falsa ou verdadeira, mesmo Quaid, que pode ser, na nova situação em que se envolve, melhor do que si mesmo no passado. E será que tudo já estava programado e encenado para que ele pudesse se transformar no novo Quaid? O personagem de Schwarzenegger, na verdade, parece transitar como alguém solitário, mesmo tendo encontrado a figura de seus sonhos, e incapaz de se definir entre querer ser alguém comum, realizando um sonho por meio de uma memória implantada, ou realmente um herói – como de fato pode se apresentar. Por sua vez, a atriz Sharon Stone, no papel de esposa de Quaid, antecipa sua participação em Instinto selvagem, também de Verhoeven, situando-se entre ser uma femme fatale, capaz de dar tranquilidade ao marido, e uma assassina – e sua presença ameaçadora, desde o momento em que mostra seu talento com artes marciais, é um dos pontos que não envelheceram no filme. Verhoeven dirige o filme como Robocop: com cenas de ação frenéticas, um pouco de humor e muitas perseguições, mantendo a atenção o tempo todo. O cineasta apresenta um senso de ritmo próprio, capaz de manter uma trama nervosa, entretanto sem se perder em excessos, mesmo que estruturado numa série de efeitos epeciais e em cenários grandiosos. Alguns filmes que poderiam ser vistos como descartáveis, a exemplo de Tropas estelares, transformam-se em uma investigação para um futuro sempre ameaçador – seja naquilo que depende dos humanos ou de extraterrestres. Sua visão sobre os personagens e o cenário que enfoca nunca é previsível, o que se mostra, sobretudo, na bizarrice de algumas figuras (e há diversas antológicas). A alta tecnologia que ele apresenta nunca é totalmente inverossímil – pelo contrário, parece sempre estabelecer um vínculo com uma possível realidade futura. Em momento algum, achamos que O vingador do futuro procura ser um grande filme – mas, do mesmo modo que não procura sê-lo, acaba se transformando em uma produção com poucos problemas e cuja complexidade – afetada ou não – ainda se sai bem em meio a ficções científicas pretensiosas. A sequência do filme nunca foi feita, e sua continuação, também escrita por Philip K. Dick, transformou-se em Minority report, de Steven Spielberg – bem mais complexo, com outro tom, e ainda assim não tão divertido quanto este. Pelas imagens do novo O vingador do futuro, com Colin Farrell, a presença do visual de Minority report é clara – pouco lembrando, a não ser em detalhes, este original com Schwarzenegger.

Total recall, EUA, 1990 Diretor: Paul Verhoeven Elenco: Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Michael Ironside, Ronny Cox Produção: Mario Kassar, Andrew G. Vajna Roteiro: Ronald Shusett, Dan O’Bannon, Gary Goldman Trilha sonora: Jerry Goldsmith Fotografia: Jost Vacano Duração: 113 min. Estúdio: Carolco Distribuidora: Tri-Star Pictures

Cotação 4 estrelas

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2 Comentários

  1. Um erro grave na sua crítica: O conto que originou O Vingador do Futuro nunca teve continuação. O outro conto, que originou Minority Report,também é independente e não existe nenhum vínculo entre ambos. Sugiro uma leitura minuciosa da obra de Dick afim de evitar tais enganos…

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    • André Dick

       /  23 de junho de 2014

      O erro de interpretação é seu. Havia um plano para a continuação de Total Recall nos anos 90, circulando por Hollywood, que acabou não sendo concretizado, baseado no conto Minority Report, de Philip K. Dick. A partir desse esboço, surgiu o filme Minority Report, baseado apenas no conto e sem ligação com o filme de Verhoeven, dirigido, como se sabe, por Spielberg. Sugiro a você que obtenha um conhecimento maior dos projetos de adaptação de K. Dick para o cinema.

      Resposta

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